Mauro Ferreira no G1

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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Livro da série 'Encontros' mostra como Nara pensava sua música e a vida

Resenha de livro
Título: Encontros - Nara Leão
Autor: Anita Ayres Gomes (organização)
Editora: Azougue
Cotação: * * * *

"Para entender Nara Leão, nada melhor do que as suas próprias palavras". Dessa forma, a pesquisadora e estudante de letras Anita Ayres Gomes inicia o texto de apresentação do livro dedicado a Nara Leão (1942 - 1989) na série Encontros, da Editora Azougue. Organizadora do livro, Gomes é certeira porque a cantora capixaba - de criação carioca - se fez ouvir na música brasileira não somente pelo fino repertório que gravou em sua antenada discografia, entre 1964 e 1989, mas também por seu pensamento. Nara sempre foi conhecida por ser uma cantora que pensava, que não se deixava guiar por diretores de gravadoras. Foram suas inteligentes escolhas musicais que ampliaram o raio de ação de sua voz de moderado alcance (do ponto de vista técnico), mas de importância fundamental na música brasileira dos anos 1960, 1970 e 1980. Encontros perfila Nara através das próprias palavras da cantora porque a coleção da editora Azougue é uma compilação de entrevistas e reportagens substanciais do nome enfocado. O volume de Nara é aberto com o autobiográfico depoimento concedido pela cantora ao Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro (RJ), em 6 de julho de 1977. Esse depoimento é fundamental para entender a atual relevância de Nara na gestação do movimento rotulado em 1958 como Bossa Nova. Mas o supra-sumo do livro são as entrevistas concedidas por Nara a jornais e revistas nos anos 1970. Sem objetivo documental, essas entrevistas - normalmente agendadas por conta do lançamento de um disco ou da estreia de um show - ajudam a compreender a mente de uma cantora que sempre teve opinião, algumas bem fortes. Uma das melhores é a entrevista publicada no jornal paulista Aqui, na edição de 14 de junho de 1977. Nara falou com franqueza aos jornalistas Matinas Suzuki Junior  e Gilberto Vasconcelos sobre o seu ofício, enfatizando que o prazer da pesquisa de um repertório era maior do que o prazer de cantar. "Eu nunca gostei de cantar", aliás, é o título da entrevista, na qual Nara avaliou seu canto ("Eu sei que tem maneiras de eu fazer minha voz ficar mais bonita, mas às vezes eu não quero" (...) "Eu acho que eu não sou uma cantora incrível mesmo, não") e admitiu que sua grande dor-de-cotovelo foi não ter lançado Caetano Veloso e Gilberto Gil em disco por conta de problema técnico na fita que trouxe da Bahia, em 1964, com músicas dos compositores baianos (o samba De manhã, lançado na voz de Maria Bethânia em 1965, estaa na fita). Outra entrevista que ajuda a entender a cabeça e a música de Nara é a publicada na edição de 5 de dezembro de 1978 do jornal paulista Agora. Nessa entrevista, a cantora defendeu a decisão de gravar um disco dedicado somente às músicas de Roberto Carlos e Erasmo Carlos - ...E que tudo mais vá pro inferno (Philips, 1978), alvo de preconceito entre a elite musical da época, refratária às populares canções do Roberto - e lembrou que seu trabalho sempre surpreendeu as pessoas ("Surpreendeu quando fiz o Opinião, quando fiz a Bossa Nova em Paris, quando resolvi cantar samba de morro. As pessoas estão sempre reclamando, querendo imobilizar você em uma determinada posição"). Mais adiante, em reportagem publicada no Jornal da Tarde em 27 de junho de 1981, Nara fala do alto astral que regeu seu disco Romance popular (Philips, 1981) - gestado com ajuda do cantor e compositor cearense Raimundo Fagner - e dos primeiros sintomas do tumor no cérebro que a fez sair precocemente de cena, em 7 de junho de 1989, aos breves 47 anos. A maneira transparente com que a cantora se revelava nos encontros com jornalistas valoriza o livro e deixa entrever uma artista de imensa vida interior, às voltas com opiniões, contradições e uma inteligência que fez com que, por seu fio de voz, tenha passado boa parte do que foi produzido de relevante na música brasileira de sua época. Por isso mesmo, Encontros - Nara Leão é livro obrigatório que ajuda a entender a importância e a conhecer a alma dessa leoa chamada Nara.

6 comentários:

Mauro Ferreira disse...

"Para entender Nara Leão, nada melhor do que as suas próprias palavras". Dessa forma, a pesquisadora e estudante de letras Anita Ayres Gomes inicia o texto de apresentação do livro dedicado a Nara Leão (1942 - 1989) na série Encontros, da Editora Azougue. Organizadora do livro, Gomes é certeira porque a cantora capixaba - de criação carioca - se fez ouvir na música brasileira não somente pelo fino repertório que gravou em sua antenada discografia, entre 1964 e 1989, mas também por seu pensamento. Nara sempre foi conhecida por ser uma cantora que pensava, que não se deixava guiar por diretores de gravadoras. Foram suas inteligentes escolhas musicais que ampliaram o raio de ação de sua voz de moderado alcance (do ponto de vista técnico), mas de importância fundamental na música brasileira dos anos 1960, 1970 e 1980. Encontros perfila Nara através das próprias palavras da cantora porque a coleção da editora Azougue é uma compilação de entrevistas e reportagens substanciais do nome enfocado. O volume de Nara é aberto com o autobiográfico depoimento concedido pela cantora ao Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro (RJ), em 6 de julho de 1977. Esse depoimento é fundamental para entender a atual relevância de Nara na gestação do movimento rotulado em 1958 como Bossa Nova. Mas o supra-sumo do livro são as entrevistas concedidas por Nara a jornais e revistas nos anos 1970. Sem objetivo documental, essas entrevistas - normalmente agendadas por conta do lançamento de um disco ou da estreia de um show - ajudam a compreender a mente de uma cantora que sempre teve opinião, algumas bem fortes. Uma das melhores é a entrevista publicada no jornal paulista Aqui, na edição de 14 de junho de 1977. Nara falou com franqueza aos jornalistas Matinas Suzuki Junior e Gilberto Vasconcelos sobre o seu ofício, enfatizando que o prazer da pesquisa de um repertório era maior do que o prazer de cantar. "Eu nunca gostei de cantar", aliás, é o título da entrevista, na qual Nara avaliou seu canto ("Eu sei que tem maneiras de eu fazer minha voz ficar mais bonita, mas às vezes eu não quero" (...) "Eu acho que eu não sou uma cantora incrível mesmo, não") e admitiu que sua grande dor-de-cotovelo foi não ter lançado Caetano Veloso e Gilberto Gil em disco por conta de problema técnico na fita que trouxe da Bahia, em 1964, com músicas dos compositores baianos (o samba De manhã, lançado na voz de Maria Bethânia em 1965, estaa na fita). Outra entrevista que ajuda a entender a cabeça e a música de Nara é a publicada na edição de 5 de dezembro de 1978 do jornal paulista Agora. Nessa entrevista, a cantora defendeu a decisão de gravar um disco dedicado somente às músicas de Roberto Carlos e Erasmo Carlos - ...E que tudo mais vá pro inferno (Philips, 1978), alvo de preconceito entre a elite musical da época, refratária às populares canções do Roberto - e lembrou que seu trabalho sempre surpreendeu as pessoas ("Surpreendeu quando fiz o Opinião, quando fiz a Bossa Nova em Paris, quando resolvi cantar samba de morro. As pessoas estão sempre reclamando, querendo imobilizar você em uma determinada posição"). Mais adiante, em reportagem publicada no Jornal da Tarde em 27 de junho de 1981, Nara fala do alto astral que regeu seu disco Romance popular (Philips, 1981) - gestado com ajuda do cantor e compositor cearense Raimundo Fagner - e dos primeiros sintomas do tumor no cérebro que a fez sair precocemente de cena, em 7 de junho de 1989, aos breves 47 anos. A maneira transparente com que a cantora se revelava nos encontros com jornalistas valoriza o livro e deixa entrever uma artista de imensa vida interior, às voltas com opiniões, contradições e uma inteligência que fez com que, por seu fio de voz, tenha passado boa parte do que foi produzido de relevante na música brasileira de sua época. Por isso mesmo, Encontros - Nara Leão é livro obrigatório que ajuda a entender a importância e a conhecer a alma dessa leoa chamada Nara.

Denilson Santos disse...

Um belo tributo a uma das cantoras fundamentais da música brasileira.

Mauro, não entendi porque você deu 4 estrelas. Li a resenha inteira à procura de alguma observação sua sobre algum aspecto negativo e não encontrei nada.

Pode ser que não tenha cabido no espaço do texto...

abração,
Denilson

ADEMAR AMANCIO disse...

Sua inteligência e bom gosto,compensava seu déficit-vocal.

lurian disse...

Nara, uma artista generosa e plural, à frente de seu tempo!

Rhenan Rodrigo disse...

Daí que minha lista de livros sugeridos por você, Mauro, chegou ao número 30. =)

Anita Ayres disse...

Olá Mauro!

Muito obrigada pela resenha do livro, fico feliz que tenha gostado do trabalho. Foi uma delícia trazer a memória desta grande figura da nossa música e que isto tenha chegado a pessoas tão sensíveis como você. Obrigada de coração.

Seguimos com o trabalho,
Beijo grande

Anita