Mauro Ferreira no G1

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domingo, 17 de agosto de 2014

Filarmônica de Pasárgada recicla lixo e luxo da música sem perder rumo

Resenha de CD
Título: Rádio lixão
Artista: Filarmônica de Pasárgada
Gravadora: Coaxo do Sapo
Cotação: * * * * 

No release que escreveu para para apresentar o segundo álbum da Filarmônica de Pasárgada, Rádio lixão, o jornalista e produtor musical Marcus Preto lembra que, ao conversar com Luiz Tatit para reportagem sobre a banda paulistana, o compositor - uma das mais perfeitas traduções da música de vanguarda produzida em Sampa - lhe disse que detectou no som da Filarmônica ecos da discografia do Rumo, o grupo que projetou Tatit no início dos anos 1980. Sim, é possível identificar ecos do vanguardista grupo paulistano no som da Filarmônica - e não somente porque a primeira das 15 faixas de Rádio lixão, Uma canção (Marcelo Segreto), embute citação da letra de música de Tatit - Capitu (1999), propagada nas vozes das cantoras Ná Ozzetti e Zélia Duncan em 1999 e 2004, respectivamente  - entre referências de cantigas populares. Há até mais do Rumo nas dissonâncias de Naquele sonho (Guilherme Meyer e Marcelo Segreto), no experimentalismo que pauta Blá blá blá - música gravada com adesões da voz do baiano tropicalista Tom Zé e do lap steel guitar de Kassin - e nos ruídos que fazem girar Tic tac (Marcelo Segreto), faixa gravada com interferências de brinquedinhos manuseados pelo cérebro eletrônico de Tatá Aeroplano. Mas a Filarmônica jamais se escora no legado do grupo que a precedeu. Gravado entre 9 e 22 de janeiro de 2014 no estúdio Coaxo do Sapo, em Camaçari (BA), Rádio lixão sucede O hábito da força (2012) na discografia da Filarmônica com vigor para aumentar o círculo de admiradores da banda. A produção de Alê Siqueira pega o espírito deste disco que recicla o luxo e o lixão da música popular brasileira, embolando referências e citações díspares em repertório que vai fazer sentido para quem acompanha a evolução dessa música multifacetada desde que o samba é samba. Se Etc etc etc (Marcelo Segreto e Fernando Hena) tem algo da anarquia sonora do grupo Os Mutantes sem dar nome aos bois, Estudando Tom Zé (Marcelo Segreto) explicita já no título o objeto da brincadeira tropicalista da Filarmônica de Pasárgada. Se a segunda metade do álbum soa menos palatável para ouvidos habituados ao tatibitate da programação radiofônica, a primeira metade de Rádio lixão sintoniza pegada popular em série de músicas assinadas por Marcelo Segreto, principal compositor e - tudo indica - cérebro da banda. Amor e Carnaval (Marcelo Segreto) clona a batida da axé music de Carlinhos Brown e Ivete Sangalo, cantora baiana citada em verso da letra que também fala da Teresa da praia, personagem-título do cool samba pré-Bossa Nova da lavra de Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994) e Billy Blanco (1924 - 2011).Como a Teresa não é mesmo de ninguém, reaparece na música seguinte, Ela é dela (Marcelo Segreto), calcada nas gravações das cantoras do rádio dos anos 1940 e 1950. Já Mil amigos (Marcelo Segreto e Paula Mirhan) brinca de reconstituir o clima das gravações pré-tropicalistas de Caetano Veloso e Gal Costa no álbum Domingo (Philips, 1967). Até Chico Buarque entra no pancadão da Filarmônica, servindo de inspiração para a letra de Muro muro Morumbi, funk à moda carioca assinado por Júlio Soares como Julinho Addalady, em referência jocosa a Julinho da Adelaide, pseudônimo criado por Chico em 1974 para tentar driblar a censura que tesourava sua produção musical com a cegueira dos ditadores. E por falar em funk, Fiu fiu (Marcelo Segreto) também emula o batidão dos bailes da pesada. Enfim, mesmo que o repertório nem sempre mantenha seu poder de imediata sedução da metade para o fim do CD, a Filarmônica de Pasárgada tritura o lixo e o luxo musical na rádio sem perder o rumo.

3 comentários:

Mauro Ferreira disse...

No release que escreveu para para apresentar o segundo álbum da Filarmônica de Pasárgada, Rádio lixão, o jornalista e produtor musical Marcus Preto lembra que, ao conversar com Luiz Tatit para reportagem sobre a banda paulistana, o compositor - uma das mais perfeitas traduções da música de vanguarda produzida em Sampa - lhe disse que detectou no som da Filarmônica ecos da discografia do Rumo, o grupo que projetou Tatit no início dos anos 1980. Sim, é possível identificar ecos do vanguardista grupo paulistano no som da Filarmônica - e não somente porque a primeira das 15 faixas de Rádio lixão, Uma canção (Marcelo Segreto), embute citação da letra de música de Tatit - Capitu (1999), propagada nas vozes das cantoras Ná Ozzetti e Zélia Duncan em 1999 e 2004, respectivamente - entre referências de cantigas populares. Há até mais do Rumo nas dissonâncias de Naquele sonho (Guilherme Meyer e Marcelo Segreto), no experimentalismo que pauta Blá blá blá - música gravada com adesões da voz do baiano tropicalista Tom Zé e do lap steel guitar de Kassin - e nos ruídos que fazem girar Tic tac (Marcelo Segreto), faixa gravada com interferências de brinquedinhos manuseados pelo cérebro eletrônico de Tatá Aeroplano. Mas a Filarmônica jamais se escora no legado do grupo que a precedeu. Gravado entre 9 e 22 de janeiro de 2014 no estúdio Coaxo do Sapo, em Camaçari (BA), Rádio lixão sucede O hábito da força (2002) na discografia da Filarmônica com vigor para aumentar o círculo de admiradores da banda. A produção de Alê Siqueira pega o espírito deste disco que recicla o luxo e o lixão da música brasileira, embolando referências e citações díspares em repertório que vai fazer sentido para quem acompanha a evolução dessa música multifacetada desde que o samba é samba. Se Etc etc etc (Marcelo Segreto e Fernando Hena) tem algo da anarquia sonora do grupo Os Mutantes sem dar nome aos bois, Estudando Tom Zé (Marcelo Segreto) explicita já no título o objeto da brincadeira tropicalista da Filarmônica de Pasárgada. Se a segunda metade do álbum soa menos palatável para ouvidos habituados ao tatibitate da programação radiofônica, a primeira metade de Rádio lixão sintoniza pegada popular em série de músicas assinadas por Marcelo Segreto, principal compositor e - tudo indica - cérebro da banda. Amor e Carnaval (Marcelo Segreto) clona a batida da axé music de Carlinhos Brown e Ivete Sangalo, cantora baiana citada em verso da letra que também fala da Teresa da praia, personagem-título do cool samba pré-Bossa Nova da lavra de Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994) e Billy Blanco (1924 - 2011).Como a Teresa não é mesmo de ninguém, reaparece na música seguinte, Ela é dela (Marcelo Segreto), calcada nas gravações das cantoras do rádio dos anos 1940 e 1950. Já Mil amigos (Marcelo Segreto e Paula Mirhan) brinca de reconstituir o clima das gravações pré-tropicalistas de Caetano Veloso e Gal Costa no álbum Domingo (Philips, 1967). Até Chico Buarque entra no pancadão da Filarmônica, servindo de inspiração para a letra de Muro muro Morumbi, funk à moda carioca assinado por Júlio Soares como Julinho Addalady, em referência jocosa a Julinho da Adelaide, pseudônimo criado por Chico em 1974 para tentar driblar a censura que tesourava sua produção musical com a cegueira dos ditadores. E por falar em funk, Fiu fiu (Marcelo Segreto) também emula o batidão dos bailes da pesada. Enfim, mesmo que o repertório nem sempre mantenha seu poder de imediata sedução da metade para o fim do CD, a Filarmônica de Pasárgada tritura o lixo e o luxo musical na rádio sem perder o rumo.

Rodrigo Maciel disse...

Esse disco está maravilhoso. E o primeiro disco deles é de 2012 :)

walter carvalho disse...

Gostei do som dos caras...vou correr a uma lojinha de cds bacana aqui de Belô e comprar o meu. Belo disco !