Mauro Ferreira no G1

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sábado, 29 de dezembro de 2012

Contenção pauta ode senhoril e tradicionalista ao folhetinesco Herivelto

Resenha de CD
Título: Herivelto Martins - 100 Anos
Artista: Vários (na companhia do violão de Ronaldo Rayol)
Gravadora: Lua Music
Cotação: * * * 

Dentre os discos produzidos pela indústria fonográfica brasileira para celebrar o centenário de nascimento do compositor fluminense Herivelto Martins (30 de janeiro 1912 - 16 de setembro de 1992), o mais completo é o CD duplo Herivelto Martins 100 Anos - Faça de Conta que o Tempo Passou, coletânea criada para a EMI Music pelo pesquisador carioca Rodrigo Faour com a reunião de 36 registros do cancioneiro do compositor, feitos entre 1936 e 2000. Mesmo sem tal completude, o recém-lançado CD Herivelto Martins 100 Anos, da Lua Music, se diferencia por apresentar gravações inéditas de 16 músicas de Herivelto, em sua maioria sambas-canção lançados nos anos 40 e 50. Idealizado e produzido por Thiago Marques Luiz, o tributo reúne intérpretes de escolas e gerações distintas, irmanados pelo toque do violão de Ronaldo Rayol. No todo, o disco resulta bom, em que pesem as variações naturais deste tipo de projeto. Cantora de formação teatral, Cida Moreira se destaca no elenco heterogêneo ao realçar toda a ironia contida no samba-canção Bom Dia (Herivelto Martins e Aldo Cabral, 1942). Com canto repleto de frescor, Verônica Ferriani  reitera a segurança e beleza de seu fraseado no tango Carlos Gardel (Herivelto Martins e Carlos Gardel, 1954) enquanto Filipe Catto se confirma o melhor cantor de sua geração ao destilar as mágoas e ressentimentos de Atiraste Uma Pedra (Herivelto Martins e David Nasser, 1958) em precisa união de técnica e emoção, valorizada pelo violão (rascante na faixa) de Rayol. Presente em doses fartas no cancioneiro folhetinesco do compositor, a emoção é diluída por Emílio Santiago no seu suave registro de Ave Maria no Morro (Herivelto Martins, 1942). A contenção, aliás, pauta boa parte das gravações do tributo. Até o operístico Agnaldo Rayol se ajusta ao tom contido do disco ao celebrar A Camisola do Dia (Herivelto Martins e David Nasser). Fagner também baixa os tons ao abordar o samba-canção Pensando em Ti (Herivelto Martins e David Nasser, 1957) no toque seresteiro de violão que soa como bandolim. Há no canto de Fagner a ternura que pontua o dueto de Ayrton Montarroyos com Ylana Queiroga em Dois Corações (Herivelto Martins e Waldemar Gomes, 1942). Na contramão da delicadeza, Tetê Espíndola eleva seus agudos para sublinhar a dor lancinante de Caminhemos (Herivelto Martins, 1947). Agnaldo Timóteo também não se contém em Cabelos Brancos (Herivelto Martins e Marino Pinto, 1949), mas está dentro do tom magoado do samba-canção lançado pelo grupo 4 Ases e 1 Coringa. Ainda do dentro espírito tradicionalista e reverente do tributo, Cauby Peixoto põe seus maneirismos vocais em Segredo (Herivelto Martins e Marino Pinto, 1947) enquanto Alaíde Costa imprime o tom lacrimoso de seu canto em Recusa (Herivelto Martins, 1952). Supervisora musical do disco, Vânia Bastos cai no samba em A Bahia te Espera (Herivelto Martins e Chianca de Garcia) com segurança, mas sem o tempero forte exigido pelo tema. A propósito, tudo acaba literalmente em samba em Herivelto Martins 100 Anos. Contudo, como Ronaldo Rayol não é João Gilberto, o violão se revela insuficiente para realçar (toda) a ginga de sambas como Nega Manhosa (Herivelto Martins, 1957), Isaura (Herivelto Martins e Roberto Roberti, 1945) e Odete (Herivelto Martins e Valdemar de Abreu, 1944) - defendidos pelos cantores Márcio Gomes, Jair Rodrigues e Paulo Neto, respectivamente. Por fim, uma das matriarcas do samba paulista, Graça Braga, soa (geograficamente) deslocada no melancólico Praça Onze (Herivelto Martins e Grande Otelo, 1942), lamento pela decadência de um dos celeiros seminais do samba carioca. Elegante em seu comportado minimalismo, o (bom) tributo de Thiago Marques Luiz a Herivelto Martins tem sobretudo o mérito de acrescentar gravações inéditas à musicografia do centenário compositor.

2 comentários:

Mauro Ferreira disse...

Dentre os discos produzidos pela indústria fonográfica brasileira para celebrar o centenário de nascimento do compositor fluminense Herivelto Martins (30 de janeiro 1912 - 16 de setembro de 1992), o mais completo é o CD duplo Herivelto Martins 100 Anos - Faça de Conta que o Tempo Passou, coletânea criada para a EMI Music pelo pesquisador carioca Rodrigo Faour com a reunião de 36 registros do cancioneiro do compositor, feitos entre 1936 e 2000. Mesmo sem tal completude, o recém-lançado CD Herivelto Martins 100 Anos, da Lua Music, se diferencia por apresentar gravações inéditas de 16 músicas de Herivelto, em sua maioria sambas-canção lançados nos anos 40 e 50. Idealizado e produzido por Thiago Marques Luiz, o tributo reúne intérpretes de escolas e gerações distintas, irmanados pelo toque do violão de Ronaldo Rayol. No todo, o disco resulta bom, em que pesem as variações naturais deste tipo de projeto. Cantora de formação teatral, Cida Moreira se destaca no elenco heterogêneo ao realçar toda a ironia contida no samba-canção Bom Dia (Herivelto Martins e Aldo Cabral, 1942). Com canto repleto de frescor, Verônica Ferriani reitera a segurança e beleza de seu fraseado no tango Carlos Gardel (Herivelto Martins e Carlos Gardel, 1954) enquanto Filipe Catto se confirma o melhor cantor de sua geração ao destilar as mágoas e ressentimentos de Atiraste Uma Pedra (Herivelto Martins e David Nasser, 1958) em precisa união de técnica e emoção, valorizada pelo violão (rascante na faixa) de Rayol. Presente em doses fartas no cancioneiro folhetinesco do compositor, a emoção é diluída por Emílio Santiago no seu suave registro de Ave Maria no Morro (Herivelto Martins, 1942). A contenção, aliás, pauta boa parte das gravações do tributo. Até o operístico Agnaldo Rayol se ajusta ao tom contido do disco ao celebrar A Camisola do Dia (Herivelto Martins e David Nasser). Fagner também baixa os tons ao abordar o samba-canção Pensando em Ti (Herivelto Martins e David Nasser, 1957) no toque seresteiro de violão que soa como bandolim. Há no canto de Fagner a ternura que pontua o dueto de Ayrton Montarroyos com Ylana Queiroga em Dois Corações (Herivelto Martins e Waldemar Gomes, 1942). Na contramão da delicadeza, Tetê Espíndola eleva seus agudos para sublinhar a dor lancinante de Caminhemos (Herivelto Martins, 1947). Agnaldo Timóteo também não se contém em Cabelos Brancos (Herivelto Martins e Marino Pinto, 1949), mas está dentro do tom magoado do samba-canção lançado pelo grupo 4 Ases e 1 Coringa. Ainda do dentro espírito tradicionalista e reverente do tributo, Cauby Peixoto põe seus maneirismos vocais em Segredo (Herivelto Martins e Marino Pinto, 1947) enquanto Alaíde Costa imprime o tom lacrimoso de seu canto em Recusa (Herivelto Martins, 1952). Supervisora musical do disco, Vânia Bastos cai no samba em A Bahia te Espera (Herivelto Martins e Chianca de Garcia) com segurança, mas sem o tempero forte exigido pelo tema. A propósito, tudo acaba literalmente em samba em Herivelto Martins 100 Anos. Contudo, como Ronaldo Rayol não é João Gilberto, o violão se revela insuficiente para realçar (toda) a ginga de sambas como Nega Manhosa (Herivelto Martins, 1957), Isaura (Herivelto Martins e Roberto Roberti, 1945) e Odete (Herivelto Martins e Valdemar de Abreu, 1944) - defendidos pelos cantores Márcio Gomes, Jair Rodrigues e Paulo Neto, respectivamente. Por fim, uma das matriarcas do samba paulista, Graça Braga, soa (geograficamente) deslocada no melancólico Praça Onze (Herivelto Martins e Grande Otelo, 1942), lamento pela decadência de um dos celeiros seminais do samba carioca. Elegante em seu comportado minimalismo, o (bom) tributo de Thiago Marques Luiz a Herivelto Martins tem sobretudo o mérito de acrescentar gravações inéditas à musicografia do centenário compositor.

Rafael disse...

É um bom tributo a obra do grande Herivelto.