Mauro Ferreira no G1

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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Discordantes, mas em harmonia musical, 17 mulheres celebram Péricles

Resenha de CD
Título: Mulheres de Péricles - Canções de Péricles Cavalcanti
Artista: vários
Gravadora: Joia Moderna
Cotação: * * * 1/2

"Tudo discorda / Em harmonia universal / Tudo é assim / Musical", sentencia a voz encorpada de Ava Rocha em Musical, faixa produzida por Felipe Rodarte, sob a direção musical de Negro Leo, para Mulheres de Péricles, tributo à obra do compositor carioca Péricles Cavalcanti, já disponível para download gratuito e legalizado no site criado para divulgar o projeto idealizado pelo DJ Zé Pedro para sua gravadora Joia Moderna. No CD, produzido sob a curadoria de Nina Cavalcanti, filha de Péricles, 17 cantoras da cena indie dão sua visão contemporânea para 15 músicas do compositor gravadas originalmente entre 1974 e 2008. Discordantes entre si, mas harmonizadas por uma linguagem comum e por afinidades musicais que dão (surpreendente) unidade a um tributo arejado em que cada faixa foi gravada com total autonomia artística, tais cantoras jogam novas luzes sobre o cancioneiro culttorto deste compositor lançado por Gal Costa em 1974, gravado com (certa) regularidade por Caetano Veloso nos anos 70 e 80 e então redescoberto por Adriana Calcanhotto - discípula, aliás, das discordâncias dissonantes de Caetano - na década de 90. No todo, Mulheres de Péricles resulta interessante, sem pisar em terreno modernoso, talvez pelo simples fato de a obra do compositor ter estado desde sempre enraizada em universo nada tradicionalista. Sim, é difícil abordar músicas (bem) gravadas por uma cantora do porte de Gal Costa. Paradoxalmente, são em músicas lançadas por Gal que Mulheres de Péricles alcança alguns de seus melhores momentos. Mesmo sem sequer roçar o padrão e o rigor estilístico da cantora baiana, Karina Buhr reitera sua forte personalidade na pegada roqueira de Negro Amor, versão em português de It's All Over Now, Baby Blue (Bob Dylan, 1965), escrita por Péricles com Caetano Veloso para Gal gravar no álbum Caras e Bocas (1977), cujo repertório apresentou Clariô (Péricles Cavalcanti), reggae ora repaginado de forma sedutora pelo duo formado pelas (ainda) desconhecidas Marietta Vidal e Miarah Rocha. A percussão de Décio 7 sustenta o arranjo da faixa produzida por Bruno Buarque com MAU. Música que abre o CD Temporada de Verão ao Vivo na Bahia (1974) na voz cristalina de Gal Costa, Quem Nasceu? mostra que Laura Lavieri está pronta para sair da sombra de Marcelo Jeneci. Completando o naipe de músicas lançadas por Gal, O Céu e o Som (Péricles Cavalcanti) reverbera a fina sintonia musical entre Nina Becker - delicada intérprete do tema - e Marcelo Callado. Na elegia feminina a Péricles, a única real tristeza, o único ponto discordante - em desarmonia com a beleza de uma das músicas mais inspiradas do compositor - é a displicente interpretação de Mallu Magalhães para Elegia (Péricles Cavalcanti e Augusto de Campos a partir de poema de John Donne, 1979). Estruturado com a guitarra e o violão pilotados pela própria Mallu, o arranjo até tem certo charme - com atmosfera que evoca de leve o clima de um fado - mas a voz largada da cantora constrange e dilui a alta carga erótica de tema que já teve seus contornos sensuais realçados por Caetano Veloso (em 1979) e Simone (em 1995). Em contrapartida, a voz de Blubell em Bossa Nova (Péricles Cavalcanti) passeia com classe pelos versos em inglês do tema, evocando cantoras norte-americanas de tempos idos. Se Céu não realça todo o colorido de Blues (Péricles Cavalcanti, 1981), tema lançado por Caetano Veloso no álbum Outras Palavras (1981), Tulipa Ruiz se joga lúdica na praia de Porto Alegre (Nos Braços de Calipso) (Péricles Cavalcanti, 2008) em faixa (produzida por Gustavo Ruiz) que remete à leveza do primeiro álbum da cantora. Destaque do tributo, Eva e Eu - parceria de Péricles com Arnaldo Antunes, intérprete original do tema no álbum O Silêncio (2006) - se impõe pela interação das vozes de Anelis Assumpção e Serena Assumpção, propiciada pelo grande arranjo vocal criado pelas cantoras com Pipo Pegoraro. A simbiose das vozes ressalta a dualidade seminal celebrada nos versos de Antunes. Menos envolvente, a abordagem de Iara Rennó para Nossa Bagdá (Péricles Cavalcanti, 2004) se escora nas programações eletrônicas de Jonas Sá, produtor da faixa. Se Bárbara Eugenia faz Ode Primitiva (Péricles Cavalcanti, 2001) passar despercebida, Juliana Kehl soa (acertadamente) tradicionalista na melódica canção Será o Amor? (Péricles Cavalcanti, 2004). Outra canção de inspiração romântica, Medo de Amar nº 3 (Péricles Cavalcanti, 2000) até que se ajusta bem à doçura do canto de Tiê em gravação harmonizada pelo violão e a guitarra de Gianni Dias. Por fim, Juliana Perdigão esboça canto ritualístico em Canto Maneiro (Péricles Cavalcanti, 1991) em gravação climática que reforça a sensação - recorrente em Mulheres de Péricles - de que, sim, tudo até pode discordar em harmonia porque, em essência, tudo é assim musical na obra universal de Péricles Cavalcanti.

16 comentários:

Mauro Ferreira disse...

"Tudo discorda / Em harmonia universal / Tudo é assim / Musical", sentencia a voz encorpada de Ava Rocha em Musical, faixa produzida por Felipe Rodarte, sob a direção musical de Negro Leo, para Mulheres de Péricles, tributo à obra do compositor carioca Péricles Cavalcanti, já disponível para download gratuito e legalizado no site criado para divulgar o projeto idealizado pelo DJ Zé Pedro para sua gravadora Joia Moderna. No CD, produzido sob a curadoria de Nina Cavalcanti, filha de Péricles, 17 cantoras da cena indie dão sua visão contemporânea para 15 músicas do compositor gravadas originalmente entre 1974 e 2008. Discordantes entre si, mas harmonizadas por uma linguagem comum e por afinidades musicais que dão (surpreendente) unidade a um tributo em que cada faixa foi gravada com total autonomia artística, tais cantoras jogam novas luzes sobre o cancioneiro cult e torto deste compositor lançado por Gal Costa em 1974, gravado com (certa) regularidade por Caetano Veloso nos anos 70 e 80 e então redescoberto por Adriana Calcanhotto - discípula das discordâncias dissonantes de Caetano - na década de 90. No todo, Mulheres de Péricles resulta interessante, sem pisar em terreno modernoso, talvez pelo fato de a obra do compositor ter estado desde sempre enraizada em universo nada tradicionalista. Sim, é difícil abordar músicas (bem) gravadas por uma cantora do porte de Gal Costa. Paradoxalmente, são em músicas lançadas por Gal que Mulheres de Péricles alcança alguns de seus melhores momentos. Mesmo sem sequer roçar o padrão e o rigor estilístico da cantora baiana, Karina Buhr reitera sua forte personalidade na pegada roqueira de Negro Amor, versão em português de It's All Over Now, Baby Blue (Bob Dylan, 1965), escrita por Péricles com Caetano Veloso para Gal gravar no álbum Caras e Bocas (1977), cujo repertório apresentou Clariô (Péricles Cavalcanti), reggae ora repaginado de forma sedutora pelo duo formado pelas (ainda) desconhecidas Marietta Vidal e Miarah Rocha. A percussão de Décio 7 sustenta o arranjo da faixa produzida por Bruno Buarque com MAU. Música que abre o CD Temporada de Verão ao Vivo na Bahia (1974) na voz cristalina de Gal Costa, Quem Nasceu? mostra que Laura Lavieri está pronta para sair da sombra de Marcelo Jeneci. Completando o naipe de músicas lançadas por Gal, O Céu e o Som (Péricles Cavalcanti) reverbera a fina sintonia musical entre Nina Becker - delicada intérprete do tema - e Marcelo Callado.

Mauro Ferreira disse...

Na elegia feminina a Péricles, a única tristeza, o único ponto discordante - em desarmonia com a beleza de uma das músicas mais inspiradas do compositor - é a displicente interpretação de Mallu Magalhães para Elegia (Péricles Cavalcanti e Augusto de Campos a partir de poema de John Donne, 1979). Estruturado com a guitarra e o violão pilotados pela própria Mallu, o arranjo até tem certo charme - com atmosfera que evoca de leve o clima de um fado - mas a voz largada da cantora constrange e dilui a alta carga erótica de tema que já teve seus contornos sensuais realçados por Caetano Veloso (em 1979) e Simone (em 1995). Em contrapartida, a voz de Blubell em Bossa Nova (Péricles Cavalcanti) passeia com classe pelos versos em inglês do tema, evocando cantoras norte-americanas de tempos idos. Se Céu não realça todo o colorido de Blues (Péricles Cavalcanti, 1981), tema lançado por Caetano Veloso no álbum Outras Palavras (1981), Tulipa Ruiz se joga lúdica na praia de Porto Alegre (Nos Braços de Calipso) (Péricles Cavalcanti, 2008) em faixa (produzida por Gustavo Ruiz) que remete à leveza do primeiro CD da cantora. Destaque do tributo, Eva e Eu - parceria de Péricles com Arnaldo Antunes, intérprete original do tema no álbum O Silêncio (2006) - se impõe pela interação das vozes de Anelis Assumpção e Serena Assumpção, propiciada pelo arranjo vocal criado pelas cantoras com Pipo Pegoraro. A simbiose das vozes ressalta a dualidade seminal celebrada nos versos de Antunes. Menos envolvente, a abordagem de Iara Rennó para Nossa Bagdá (Péricles Cavalcanti, 2004) se escora nas programações eletrônicas de Jonas Sá, produtor da faixa. Se Barbara Eugênia faz Ode Primitiva (Péricles Cavalcanti, 2001) passar despercebida, Juliana Kehl soa (acertadamente) tradicionalista na melódica canção Será o Amor? (Péricles Cavalcanti, 2004). Outra canção de inspiração romântica, Medo de Amar nº 3 (Péricles Cavalcanti, 2000) até que se ajusta bem à doçura do canto de Tiê em gravação harmonizada pelo violão e a guitarra de Gianni Dias. Por fim, Juliana Perdigão esboça canto ritualístico em Canto Maneiro (Péricles Cavalcanti, 1991) em gravação climática que reforça a sensação - recorrente em Mulheres de Péricles - de que, sim, tudo até pode discordar em harmonia porque, em essência, tudo é assim musical na obra universal de Péricles Cavalcanti.

lurian disse...

Como vc bem disse Mauro, é dificil imaginar as músicas de Péricles sem trazer a memória afetiva de Gal Costa. Karina Buhr se saiu até bem naquela que é talvez a mais dificil de ser entoada. No mais gostei muito do clima que Céu imprimiu a 'Blues', Gostei da bárbara Eugênia em "Ode primitiva" e da Juliana Kehl em "Será o amor", as outras gravações ficaram medianas; no todo resultou num disco agradável.

Rafael M. disse...

Achei o disco razoável, nada de sensacional. Não é ruim, mas também não é lá essas coisas.

Rafael M. disse...

Também gostei da versão que a Céu fez de "Blues". Ficou bonita e sutil.

Anônimo disse...

Vou ouvir a faixa da tetéia Céu.
Nem sei se a música é de fato um blues, mas o estilo cairia bem na sua aveludada voz.
Aliás, todos os estilos caem bem nela. Canta pra caramba!
Tá aí uma belíssima junção entre The Voice e uma artista de fato.

PS: Lurian, vi sua ídala Bárbara Eugênia fazendo uma versão pra lá de boa da já clássica "O Tempo" do Cidadão Instigado.

Jeferson Garcia disse...

Já sei como deve chamar o 4º CD da Mallu "Vergonha Alheia", afinal, ela já está se profissionalizando na questão.

lurian disse...

Zé Henrique eu gosto do primeiro disco da Bárbara Eugênia e essa música do Cidadão é realmente uma das melhores do disco, mas minhas idolas são Janis e Nico. No Brasil eu admiro Gal e Nana, mas sem idolatria.
Ah e a Nina Becker hein? Ouço sempre na intenção que ela faça um arranjo mais interessante. Uma cantora de voz promissora, mas os arranjos ficam sempre mornos...

Fabio disse...

Pode ser discordante, mas o download do disco é de graça! Vale a pena.

Maria disse...

Além do Blues, que com certeza cairia muito bem na voz de Céu gostaria de vê-la cantar uma música em francês! acho o idioma bonito, elegante e musical.
Gosto da Nina Becker,canta muito bem porém,acho o repertório de seus discos meio irregular.

mmmleos disse...

Para mim os melhores momentos são Nina Becker, Iara Renno e Tiê e os piores são Mallu Magalhaes, Marietta Vital / Mairah Rocha e Karina Buhr.
Também gostei muito da Céu, Ava Rocha e Juliana Perdigão...

Maria disse...

Sim, Céu sempre fez ótimas versões e acertou mais uma! exceto a música de Caetano Veloso Eclipse Oculto que não ficou legal.

Anônimo disse...

Gostei do projeto. Essas idéias de juntar uma galera e fazer um som bem feito são ótimas, apesar de algumas pessoas acharem desnecessário, acredito que seja válido demais, disso pode surgir novas parcerias, esse encontros trás frutos pra música. E claro Céu sempre fazendo a diferença...sou fã mesmo rsrs

Anônimo disse...

Fala, Lurian, é que vejo vc falando sempre na Bárbara...
Sem idolatria é uma sábia atitude. Até porque TODOS os santos são de barro.
Só conheço o trabalho da Nina Becker na Orquestra Imperial mesmo.
Aliás, o disco novo deles é ótimo!
Dê uma conferida. Se é que não já deu.

PS: Hummmmmmmm, Céu cantando e susurrando, um Gainsbourg?!, em francês seria demais, Maria!
Je t'aime moi non plus...

Maria disse...

Zé, tanto ela quanto Marisa Monte cantando em francês ficaria demais!
Marisa já teve até Je t'aime Moi Non Plus na abertura do show Memórias.

Marcello disse...

Caro Mauro,

A Musica "Canto Maneiro" foi composta especialmente para Gal Costa que a lançou em 1976 no show "Com a Boca no Mundo". Inclusive a musica discorre sobre o universo do cantar dela, ainda naquela epoca experimental. E é interessante e incrivel que o ultimo verso fale de uma maneira eletronica de cantar linkando o passado tropicalista com o futuro do Recanto.
Quando gravou parte do repertorio deste show no disco que veio depois, o Caras e Bocas, a musica acabou ficando de fora.