Mauro Ferreira no G1

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quarta-feira, 15 de abril de 2015

CD 'Mama Kalunga' reacende o fogo sagrado do canto de Virgínia Rodrigues

Resenha de CD
Título: Mama Kalunga
Artista: Virgínia Rodrigues
Gravadora: Casa de Fulô Produções
Cotação: * * * * *

Sete anos após extrapolar a fronteira da música afro-baiana em belíssimo álbum de clima camerístico, Recomeço (Biscoito Fino, 2008), Virgínia Rodrigues (se) volta para a matriz africana de seu canto sagrado com seu quinto álbum, Mama Kalunga. Com sua voz lírica de tom celestial, lapidada em igrejas até ser descoberta no Bando de Teatro Olodum nos anos 1990 e então propagada em discos de maior alcance, a cantora baiana reforça elo com a mãe África ao lapidar pérolas negras como Mon'Ami (Tiganá Santana), Babalaô / Amor de escravo (Abigail Moura) e Mukongo (Tiganá Santana) em dialetos africanos como o kimbundu. Produzido por Sebatian Notini e Tiganá Santana (compositor de músicas que beiram o sublime, casos de Saluba e de Mama Kalunga, saudação à deusa água que intitula o CD), Mama Kalunga se sustenta musicalmente com trama de tambores que se amalgama harmoniosamente com as cordas dos violões de Bernardo Bosisio, com o cello de Iura Ranavesky - diretor musical do disco  - e com o violão-tambor de Tiganá. Os arranjos foram tecidos em tempo de delicadeza que jamais tira o foco da voz de Virgínia, força da natureza, essência de tudo, para citar verso de Ao senhor do fogo azul (Gilson Nascimento), evocação a Nkosi / Ogum - entidade à qual o CD é dedicado - feita pela cantora a capella na abertura do álbum. Em rota distante das trilhas habitualmente seguidas pelos cantores de repertório afro-brasileiro, Virgínia entrelaça ritmos e sotaques, armando a roda baiana para cantar Vá cuidar de sua vida, samba do compositor paulistano Geraldo Filme (1927 - 1995), uma das referências máximas do samba de Sampa. Vá cuidar de sua vida destila finas ironias contra o preconceito racial, tema bisado - com a mesma elegância, só que no ritmo do ijexá - em outro samba, Luandê, da lavra do compositor baiano Ederaldo Gentil (1943 - 2012). Ainda dentro do miscigenado terreirão do samba, Virgínia dá tom solene a uma joia de alto quilate do baú do compositor carioca Paulinho da Viola, Nos horizontes do mundo (1978), filosofia pura na forma de samba interiorizado, formatado com voz, violão e cello em arranjo que remete à estética de câmara do álbum anterior Recomeço, evocado também na trança de voz e violão que costura Teus olhos em mim, belíssima canção em que os compositores Roberto Mendes e Nivaldo Costa derramam poesia romântica. Em seu movimento ritualístico que rejunta Brasil e África, Mama Kalunga abarca Cuba e Peru em faixa que junta dois temas de domínio público, Cantico tradicional afrocubano e Belen cochambre, e na qual se ouve a voz da cantora e compositora peruana Susana Baca. Com suas cores realçadas no tom suave da voz de Tiganá e reforçadas com os vocais de Virgínia ao fundo, o samba Sou eu - criação do compositor pernambucano Moacir Santos (1926 - 2006), mestre e maestro, que ganhou letra de Nei Lopes em 2001 - se ajusta com perfeição ao tom de um disco que se eleva aos céus em seu painel sócio-musical da negritude brasileira. No fim, o samba Dembwa (10 de agosto) - mais uma composição inspirada da lavra de Tiganá Santana - arma novamente a roda para arrematar com precisão um disco que saúda os ancestrais e emana orgulho negro, entre o sagrado e o profano, entre o céu e a terra, reacendendo o fogo sagrado que ilumina a abençoada voz sacra de Virgínia Rodrigues, essência (lírica) de tudo.

13 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Sete anos após extrapolar a fronteira da música afro-baiana em belíssimo álbum de clima camerístico, Recomeço (Biscoito Fino, 2008), Virgínia Rodrigues (se) volta para a matriz africana de seu canto sagrado com seu quinto álbum, Mama Kalunga. Com sua voz lírica de tom celestial, lapidada em igrejas até ser descoberta no Bando de Teatro Olodum nos anos 1990 e então propagada em discos de maior alcance, a cantora baiana reforça elo com a mãe África ao lapidar pérolas negras como Mon'Ami (Tiganá Santana), Babalaô / Amor de escravo (Abigail Moura) e Mukongo (Tiganá Santana) em dialetos africanos como o kimbundu. Produzido por Sebatian Notini e Tiganá Santana (compositor de músicas que beiram o sublime, casos de Saluba e de Mama Kalunga, saudação à deusa água que intitula o CD), Mama Kalunga se sustenta musicalmente com trama de tambores que se amalgama harmoniosamente com as cordas dos violões de Bernardo Bosisio, com o cello de Iura Ranavesky - diretor musical do disco - e com o violão-tambor de Tiganá. Os arranjos foram tecidos em tempo de delicadeza que jamais tira o foco da voz de Virgínia, força da natureza, essência de tudo, para citar verso de Ao senhor do fogo azul (Gilson Nascimento), evocação a Nkosi / Ogum - entidade à qual o CD é dedicado - feita pela cantora a capella na abertura do álbum. Em rota distante das trilhas habitualmente seguidas pelos cantores de repertório afro-brasileiro, Virgínia entrelaça ritmos e sotaques, armando a roda baiana para cantar Vá cuidar de sua vida, samba do compositor paulistano Geraldo Filme (1927 - 1995), uma das referências máximas do samba de Sampa. Vá cuidar de sua vida destila finas ironias contra o preconceito racial, tema bisado - com a mesma elegância, só que no ritmo do ijexá - em outro samba, Luandê, da lavra do compositor baiano Ederaldo Gentil (1943 - 2012). Ainda dentro do miscigenado terreirão do samba, Virgínia dá tom solene a uma joia de alto quilate do baú do compositor carioca Paulinho da Viola, Nos horizontes do mundo (1978), filosofia pura na forma de samba interiorizado, formatado com voz, violão e cello em arranjo que remete à estética de câmara do álbum anterior Recomeço, evocado também na trança de voz e violão que costura Teus olhos em mim, belíssima canção em que os compositores Roberto Mendes e Nivaldo Costa derramam poesia romântica. Em seu movimento ritualístico que rejunta Brasil e África, Mama Kalunga abarca Cuba e Peru em faixa que junta dois temas de domínio público, Cantico tradicional afrocubano e Belen cochambre, e na qual se ouve a voz da cantora e compositora peruana Susana Baca. Com suas cores realçadas no tom suave da voz de Tiganá e reforçadas com os vocais de Virgínia ao fundo, o samba Sou eu - criação do compositor pernambucano Moacir Santos (1926 - 2006), mestre e maestro, que ganhou letra de Nei Lopes em 2001 - se ajusta com perfeição ao tom de um disco que se eleva aos céus em seu painel sócio-musical da negritude brasileira. No fim, o samba Dembwa (10 de agosto) - mais uma composição inspirada da lavra de Tiganá Santana - arma novamente a roda para arrematar com precisão um disco que saúda os ancestrais e emana orgulho negro, entre o sagrado e o profano, entre o céu e a terra, reacendendo o fogo sagrado que ilumina a abençoada voz sacra de Virgínia Rodrigues, essência (lírica) de tudo.

Rafael M. disse...

Virgínia Rodrigues é uma excelente cantora e esse disco realmente é muito bom. Pena ela não ter um maior reconhecimento da própria mídia e do povo em geral.

Mauro Silva disse...

Amo esta cantora! O canto dela é único e especial...Vou conferir este disco, estou curioso."Sol Negro" de 1997 e "Nós" de 2000, me emocionam até hoje...Lindaaaa Virginia Rodrigues :)

lurian disse...

Virgínia e Tiganá Santana não pode haver erro!!!

BIGODE disse...

Gostei bastante do disco, mas acho que as regravações estão bem superiores as faixas novas...

Paulinho da Viola, Moacir Santos e Geraldo Filme as 3 ficaram demais, aliás o disco todo é muito bom

Ansioso prá ver o show dela essa semana

João Marciano Neto disse...

Tenho profunda admiração pela voz e trajetória de Virgínia Rodrigues. Ao ouvir as suas interpretações de canções fico muito emocionante. Há algo de enigmático na voz dessa MULHER de FIBRA! BRAVO! Estou também na expectativa do lançamento do álbum em Salvador-Ba, cidade natal, na qual ela deveria ter um maior reconhecimento.
João Marciano Neto

João Marciano Neto disse...

Tenho grande admiração pela trajetória e potência de voz de Virgínia Rodrigues. Ao ouvir as suas interpretações fico muito emocionando, é algo inexplicável, enigmático. Expectativa quanto ao lançamento do álbum em Salvador-Ba. BRAVO!

Manoel Batista dos Santos Junior disse...

Putz..um arraso.

lurian disse...

O cd está esgotado. Mauro você sabe quantas cópias houveram e se terá uma nova tiragem?

Mauro Ferreira disse...

Lurian, a tiragem inicial foi de apenas mil cópias. Acredito que haverá nova tiragem. Abs, mauroF

lurian disse...

Obrigado Mauro!

Casa de Fulô Produções disse...

Terá nova tiragem sim! Esta em fase de finalização. Em setembro lojas reabastecidas!

ken_yatta disse...

Eu acho que eu estou fora da sorte se eu quero o CD aqui nos Estados Unidos.