Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


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terça-feira, 30 de junho de 2015

Retrô 2° trimestre de 2015: Duda, Gal, Lenine e Virgínia fazem 'discos do ano'

RETROSPECTIVA 2º TRIMESTRE DE 2015 - Diferentemente do primeiro trimestre do ano, período em que os shows foram mais marcantes do que os discos, o segundo trimestre deste ano de 2015 - encerrado hoje, 30 de junho - legou ao universo pop quatro álbuns espetaculares, perfeitos, que fizeram jus às cinco estrelas na avaliação de Notas Musicais e, por isso mesmo, já estão garantidos nas listas de melhores discos do ano. Três foram lançados em abril e um veio ao mundo em maio. Lançado em abril, Mama kalunga (Casa de Fulô Produções) reacendeu o fogo sagrado do canto da cantora baiana Virgínia Rodrigues, emanando orgulho negro e saudando os ancestrais numa trama que juntou tambores e cordas com maestria na produção capitaneada por Sebastian Notini e Tiganá Santana. Também lançado em abril, em edição inicialmente apenas digital, É (Independente) revelou e afirmou Duda Brack, jovem cantora gaúcha radicada na cidade do Rio de Janeiro (RJ), como a grata revelação do ano. Sob a produção de Bruno Giorgi, Brack apresentou um disco (in)tenso, urgente, experimental, que passa pelo filtro do indie rock músicas identificadas com o universo da MPB. Lançado oficialmente em 30 de abril, Carbono (Universal Music) abriu e expandiu as parcerias e conexões de Lenine, fazendo o artista evoluir na atmosfera densa do álbum de inéditas autorais, em alquimia com seus pares. Bruno Giorgi, JR Tostoi e o próprio Lenine assinaram a produção do álbum em química perfeita. Por fim, em maio, Estratosférica (Sony Music) confirmou a alta expectativa depositada sobre o primeiro disco de estúdio de Gal Costa após o revigorante Recanto (Universal Music, 2011). O resultado foi um disco moderno, mais pop e menos radical na sonoridade eletrônica que ampliou as conexões da cantora baiana com a cena contemporânea. Sob a direção artística de Marcus Preto, personagem-chave do disco produzido por Moreno Veloso e Kassin, Gal deu voz a músicas de compositores como Arthur Nogueira, Céu, Jonas Sá, Junio Barreto, Lira, Mallu Magalhães, Marisa Monte e Tom Zé, entre outros nomes. O repertório de (alta) qualidade originou CD à altura do histórico fonográfico de Gal.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

CD 'Mama Kalunga' reacende o fogo sagrado do canto de Virgínia Rodrigues

Resenha de CD
Título: Mama Kalunga
Artista: Virgínia Rodrigues
Gravadora: Casa de Fulô Produções
Cotação: * * * * *

Sete anos após extrapolar a fronteira da música afro-baiana em belíssimo álbum de clima camerístico, Recomeço (Biscoito Fino, 2008), Virgínia Rodrigues (se) volta para a matriz africana de seu canto sagrado com seu quinto álbum, Mama Kalunga. Com sua voz lírica de tom celestial, lapidada em igrejas até ser descoberta no Bando de Teatro Olodum nos anos 1990 e então propagada em discos de maior alcance, a cantora baiana reforça elo com a mãe África ao lapidar pérolas negras como Mon'Ami (Tiganá Santana), Babalaô / Amor de escravo (Abigail Moura) e Mukongo (Tiganá Santana) em dialetos africanos como o kimbundu. Produzido por Sebatian Notini e Tiganá Santana (compositor de músicas que beiram o sublime, casos de Saluba e de Mama Kalunga, saudação à deusa água que intitula o CD), Mama Kalunga se sustenta musicalmente com trama de tambores que se amalgama harmoniosamente com as cordas dos violões de Bernardo Bosisio, com o cello de Iura Ranavesky - diretor musical do disco  - e com o violão-tambor de Tiganá. Os arranjos foram tecidos em tempo de delicadeza que jamais tira o foco da voz de Virgínia, força da natureza, essência de tudo, para citar verso de Ao senhor do fogo azul (Gilson Nascimento), evocação a Nkosi / Ogum - entidade à qual o CD é dedicado - feita pela cantora a capella na abertura do álbum. Em rota distante das trilhas habitualmente seguidas pelos cantores de repertório afro-brasileiro, Virgínia entrelaça ritmos e sotaques, armando a roda baiana para cantar Vá cuidar de sua vida, samba do compositor paulistano Geraldo Filme (1927 - 1995), uma das referências máximas do samba de Sampa. Vá cuidar de sua vida destila finas ironias contra o preconceito racial, tema bisado - com a mesma elegância, só que no ritmo do ijexá - em outro samba, Luandê, da lavra do compositor baiano Ederaldo Gentil (1943 - 2012). Ainda dentro do miscigenado terreirão do samba, Virgínia dá tom solene a uma joia de alto quilate do baú do compositor carioca Paulinho da Viola, Nos horizontes do mundo (1978), filosofia pura na forma de samba interiorizado, formatado com voz, violão e cello em arranjo que remete à estética de câmara do álbum anterior Recomeço, evocado também na trança de voz e violão que costura Teus olhos em mim, belíssima canção em que os compositores Roberto Mendes e Nivaldo Costa derramam poesia romântica. Em seu movimento ritualístico que rejunta Brasil e África, Mama Kalunga abarca Cuba e Peru em faixa que junta dois temas de domínio público, Cantico tradicional afrocubano e Belen cochambre, e na qual se ouve a voz da cantora e compositora peruana Susana Baca. Com suas cores realçadas no tom suave da voz de Tiganá e reforçadas com os vocais de Virgínia ao fundo, o samba Sou eu - criação do compositor pernambucano Moacir Santos (1926 - 2006), mestre e maestro, que ganhou letra de Nei Lopes em 2001 - se ajusta com perfeição ao tom de um disco que se eleva aos céus em seu painel sócio-musical da negritude brasileira. No fim, o samba Dembwa (10 de agosto) - mais uma composição inspirada da lavra de Tiganá Santana - arma novamente a roda para arrematar com precisão um disco que saúda os ancestrais e emana orgulho negro, entre o sagrado e o profano, entre o céu e a terra, reacendendo o fogo sagrado que ilumina a abençoada voz sacra de Virgínia Rodrigues, essência (lírica) de tudo.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Virgínia canta Tiganá, Mendes e Moacir no quinto álbum, 'Mama Kalunga'

Previsto para ser lançado em março de 2015, o quinto álbum da cantora baiana Virgínia Rodrigues, Mama Kalunga, traz no repertório músicas que celebram os rituais afro-brasileiros da umbanda e do candomblé, além do samba-chula, ritmo da Bahia pouco difundido pelo Brasil. No disco, a intérprete - em foto de Ana Quintella - dá sua voz privilegiada, de tom lírico, a temas de Moacir Santos (1926 - 2006), Roberto Mendes e Tiganá Santana (autor da música-título Mama Kalunga), entre outros compositores linkados com sons da cultura negra brasileira.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Entre o sagrado e o profano, o canto lírico de Virgínia tem feitio de oração

Resenha de Show
Título: Virgínia Rodrigues
Artista: Virgínia Rodrigues (em foto de Mauro Ferreira)
Participação: Iura Ranevsky (violoncelo)
Local: Solar de Botafogo (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 29 de novembro de 2010
Cotação: * * * * 1/2
Show em cartaz em 30 de novembro no Solar de Botafogo com a participação de B Negão

Há algo de sublime no canto de Virgínia Rodrigues, a intérprete baiana projetada na peça Bai Bai Pelô, encenada em 1994, em Salvador (BA), pelo Bando de Teatro Olodum. Na sua volta aos palcos do Rio de Janeiro (RJ), com dois shows agendados no Solar de Botafogo pouco mais de dois anos após a estreia carioca do show Recomeço, a cantora transita entre o sagrado e o profano ao longo das 15 músicas de roteiro que apresenta temas nunca entoados por Virgínia - como Amor, meu Grande Amor (Ângela RoRo e Ana Terra), a canção generosa de RoRo que ganha certa solenidade em belíssima abordagem - e músicas dos dois últimos álbuns da artista, Mares Profundos (2003) e Recomeço (2008). Do CD de 2003, dedicado aos afro-sambas de Baden Powell (1937- 2000) e Vinicius de Moraes (1913-1980), o Lamento de Exu ressurge em vocalises arrepiantes que interagem com o toque do violoncelo de Yura Ranevski, convidado da primeira das duas apresentações de Virgínia no teatro carioca. Até pela evocação dos orixás tão presentes nos afro-sambas de Baden & Vinicius, Lamento de Exu representa o sagrado - ao lado de temas afins como o Canto de Ossanha e o Canto de Xangô - em repertório que desce a plano mais profano quando a cantora revive Antonico (Ismael Silva), esboçando até certo ar dengoso ao refazer o pedido contido na letra do samba de Ismael Silva (1905 - 1978). Trata-se de show de voz e violão. E o violão, virtuoso, fica a cargo de Alex Mesquita, hábil tanto ao evocar o toque do berimbau na batida do seu instrumento, na introdução de Berimbau (outra joia de Baden & Vinicius), como o próprio toque do violão de Baden (em Consolação). Fora do universo dos afro-sambas, recorrente ao longo do show e até no curto bis dado com Labareda, Virgínia Rodrigues imprime a estética lírica e camerística de seu canto numa pérola da Bossa Nova, Este seu Olhar (Tom Jobim), e ensaia uns passos de samba pelo palco em Juízo Final (Nelson Cavaquinho e Élcio Soares). Momentos antes, a cantora também bailara delicadamente em cena enquanto o violoncelo de Yura Ranesvski desenhava a melodia sublime de Melodia Sentimental (Heitor Villa-Lobos e Dora Vasconcelos), outra bela novidade na voz da intérprete. E, se no show Recomeço a cantora ainda se mostrou bem insegura com as letras de algumas músicas, neste atual  recital de voz-e-violão, sua segurança em cena chega a espantar. Com seu canto em feitio de oração, Virgínia Rodrigues - um sol negro, como dizia o título de seu primeiro disco, de 1997 - ilumina profundezas com chama divina entre o sagrado e o profano.