Mauro Ferreira no G1

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terça-feira, 28 de abril de 2015

No céu, Elba oferece farto banquete de sons no show 'Do meu olhar pra fora'

Resenha de show
Título: Do meu olhar pra fora
Artista: Elba Ramalho (em foto de Mauro Ferreira)
Local: Teatro do Sesc Vila Mariana (São Paulo, SP)
Data: 25 de abril de 2015
Cotação: * * * * *

 Lançado em março de 2015 com distribuição da gravadora Coqueiro Verde, o 33º álbum de Elba Ramalho, Do meu olhar pra fora, é marco na discografia da cantora paraibana pela coesão do repertório e, sobretudo, pela sonoridade pop contemporânea formatada pelos produtores Luã Mattar e Yuri Queiroga. Intérprete de carga teatral, Elba consegue transpor para o palco - habitat natural dessa cantora que já foi atriz - a inquietude, a pressão e a coesão do disco. Em plena forma vocal, a cantora abre mão da teatralidade que regeu seu majestoso espetáculo anterior - Cordas, Gonzaga e afins (2014), gravado ao vivo para ser lançado em ainda inédito DVD - neste show igualmente primoroso, calcado mais na musicalidade do que na dramaticidade, ainda que o canto maturado da Leoa do Norte já embuta naturalmente a teatralidade depurada em 40 anos de palco. Do meu olhar pra fora exterioriza visões de uma artista que tem propagado sua fé na paz e no amor. O show repõe em pauta assuntos que interessam a Elba, mas sem cair em tom panfletário. Em cena, Elba oferece banquete de sons e signos harmonizados pela pegada pop do disco. Aberto com a récita do poema Feitio de oração (Waly Salomão, 2000), o segundo ato resulta especialmente antológico. É quando Nossa Senhora da Paz (Clayton Barros, Emerson Calado, José Paes Lira, Nego Henrique e Rafael Almeida, 2002) - música do repertório do desativado grupo pernambucano Cordel do Fogo Encantado (1997 - 2010) - traz toda luz que há no céu e brilha, acionando  o motor do show com pressão. Na sequência desse número emocionante, Ave anjo angelis (Jorge Ben Jor, 1964) - título menor do cancioneiro do Zé Pretinho - se afina em compasso próximo do rap com a aura desse momento de temas sagrados e sons profanos. Elba canta os mistérios do céu com a pegada da terra. Iguaria do roteiro, Banquete de signos (Zé Ramalho, 1980) é música jogada na lama do Mangue Beat, revolvendo o som icônico da Nação Zumbi e preparando o clima para o maracatu Nó cego (Pedro Osmar) - outra música gravada por Elba no seu segundo álbum, Capim do vale (CBS, 1980) - e para o oportuno revival de Caranguejo dance (Moraes Moreira, 1995), grande (e até então esquecida) música do álbum Paisagem (PolyGram, 1995). E também para Risoflora (Chico Science, 1994), declaração de amor de caranguejo apaixonado. Nesse vibrante segundo ato, encerrado com o rock-repente Fazê o quê? (Pedro Luís, 1997), Elba junta rock e maracatu, revolvendo as raízes nordestinas de seu repertório com as antenas parabolicamarás ligadas nas maravilhas contemporâneas do universo pop planetário. E o andar de Elba pelo mundo sempre foi aonde tem um forró, como ela já explicita na música que abre o primeiro ato, Olhando o coração (Dominguinhos e Climério Ferrreira, 2014). Sem negar essa andança festiva da artista, o show Do meu olhar pra fora repõe em cena Do jeito que a gente gosta (Severo e Jaguar, 1984) - música título de álbum lançado há 31 anos pela cantora, então no auge da popularidade e das vendas de discos - no arretado medley  que faz a festa forrozeira com a lembrança de dois sucessos do cantor e compositor paraibano Jackson do Pandeiro (1919 - 1982), Sebastiana (Rosil Cavalcanti, 1953) e Na base da chinela (Jackson do Pandeiro e Rosil Cavalcanti, 1962). A vinda dos sete músicos para a frente do palco, juntos e misturados com Elba, é o sopro de novidade que impede o número de soar déjà vu. Antes, Patchuli (Chico César) perfuma o baile com a essência de uma nordestinidade pop que também pauta a funkeada Só pra lembrar (Dani Black e Zélia Duncan). Banhada por músicas de várias latitudes, a nação nordestina propaga tanto um baião como Estrela miúda (João do Valle e Luiz Vieira, 1955) - iluminado pela vivacidade de Elba - quanto um reggae made in Bahia como Árvore (Edson Gomes, 1991), música fincada na positividade irradiada pelo disco e show Do meu olhar pra fora. Este título se afina na discografia da cantora - pelo arrojo, pela diversidade e pela sonoridade pop - com o antenado álbum Qual o assunto que mais lhe interessa? (Ramax / Brazimúsica!, 2007). Deste disco (mal) lançado há oito anos, Elba sagazmente pinça músicas como Dois pra sempre (Lula Queiroga, 2007), Noite severina (Pedro Luís e Lula Queiroga, 2001) - composição inspirada, valorizada em cena pela projeção de paisagem lunar - e Gaiola da saudade (Jam da Silva e Maciel Salú, 2007), música revivida com arranjo fiel ao do disco. Dois pra sempre é - com ressaltou a cantora em cena - balada com a cara das canções românticas de Dominguinhos (1941 - 2013), cuja obra é uma das referências da música nordestina. A presença eterna de Seu Domingos ronda o show, sobretudo em Contrato de separação (Dominguinhos e Anastácia, 1979) - número em que sobressai o acordeom de Meninão - e nas duas músicas que Elba amalgama em Do meu olhar pra fora em travessia atlântica que começa pelo fado Nos ares da Lisboa e voa direto até o Nordeste nas asas de Um passarinho enganador.  Parcerias de Dominguinhos com o compositor cearense Fausto Nilo, essas duas músicas foram gravadas simultaneamente por Elba e por Nilo, que as registrou no disco comemorativo de seus 70 anos de idade, Palavras abandonadas (Pão e poesia, 2014). No céu da vibração, Elba alça altos voos como cantora em Do meu olhar pra fora. Os graves encorparam sua voz agreste, que atinge os mesmos tons de outrora em Marim dos Caetés (Alceu Valença, 1983). Enfim, após discos e shows de menor ambição artística, Elba Ramalho vive novamente fase de plenitude, iniciada com seu projeto anterior Cordas, Gonzaga e afins. Do meu olhar pra fora é grande show à altura do disco que o inspirou, um (farto) banquete de signos e de sons que expõem a Flor da Paraíba em novo desabrochar.

7 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Lançado em março de 2015 com distribuição da gravadora Coqueiro Verde, o 33º álbum de Elba Ramalho, Do meu olhar pra fora, é marco na discografia da cantora paraibana pela coesão do repertório e, sobretudo, pela sonoridade pop contemporânea formatada pelos produtores Luã Mattar e Yuri Queiroga. Intérprete de carga teatral, Elba consegue transpor para o palco - habitat natural dessa cantora que já foi atriz - a inquietude, a pressão e a coesão do disco. Em plena forma vocal, a cantora abre mão da teatralidade que regeu seu majestoso espetáculo anterior - Cordas, Gonzaga e afins (2014), gravado ao vivo para ser lançado em ainda inédito DVD - neste show igualmente primoroso, calcado mais na musicalidade do que na dramaticidade, ainda que o canto maturado da Leoa do Norte já embuta naturalmente a teatralidade depurada em 40 anos de palco. Do meu olhar pra fora exterioriza visões de uma artista que tem propagado sua fé na paz e no amor. O show repõe em pauta assuntos que interessam a Elba, mas sem cair em tom panfletário. Em cena, Elba oferece banquete de sons e signos harmonizados pela pegada pop do disco. Aberto com a récita do poema Feitio de oração (Waly Salomão, 2000), o segundo ato resulta especialmente antológico. É quando Nossa Senhora da Paz (Clayton Barros, Emerson Calado, José Paes Lira, Nego Henrique e Rafael Almeida, 2002) - música do repertório do desativado grupo pernambucano Cordel do Fogo Encantado (1997 - 2010) - traz toda luz que há no céu e brilha, acionando o motor do show com pressão. Na sequência desse número emocionante, Ave anjo angelis (Jorge Ben Jor, 1964) - título menor do cancioneiro do Zé Pretinho - se afina em compasso próximo do rap com a aura desse momento de temas sagrados e sons profanos. Elba canta os mistérios do céu com a pegada da terra. Iguaria do roteiro, Banquete de signos (Zé Ramalho, 1980) é música jogada na lama do Mangue Beat, revolvendo o som icônico da Nação Zumbi e preparando o clima para o maracatu Nó cego (Pedro Osmar) - outra música gravada por Elba no seu segundo álbum, Capim do vale (CBS, 1980) - e para o oportuno revival de Caranguejo dance (Moraes Moreira, 1995), grande (e até então esquecida) música do álbum Paisagem (PolyGram, 1995). E também para Risoflora (Chico Science, 1994), declaração de amor de caranguejo apaixonado. Nesse vibrante segundo ato, encerrado com o rock-repente Fazê o quê? (Pedro Luís, 1997), Elba junta rock e maracatu, revolvendo as raízes nordestinas de seu repertório com as antenas parabolicamarás ligadas nas maravilhas contemporâneas do universo pop planetário. E o andar de Elba pelo mundo sempre foi aonde tem um forró, como ela já explicita na música que abre o primeiro ato, Olhando o coração (Dominguinhos e Climério Ferrreira, 2014).

Mauro Ferreira disse...

Sem negar essa andança festiva da artista, o show Do meu olhar pra fora repõe em cena Do jeito que a gente gosta (Severo e Jaguar, 1984) - música título de álbum lançado há 31 anos pela cantora, então no auge da popularidade e das vendas de discos - no arretado medley que faz a festa forrozeira com a lembrança de dois sucessos do cantor e compositor paraibano Jackson do Pandeiro (1919 - 1982), Sebastiana (Rosil Cavalcanti, 1953) e Na base da chinela (Jackson do Pandeiro e Rosil Cavalcanti, 1962). A vinda dos sete músicos para a frente do palco, juntos e misturados com Elba, é o sopro de novidade que impede o número de soar déjà vu. Antes, Patchuli (Chico César) perfuma o baile com a essência de uma nordestinidade pop que também pauta a funkeada Só pra lembrar (Dani Black e Zélia Duncan). Banhada por músicas de várias latitudes, a nação nordestina propaga tanto um baião como Estrela miúda (João do Valle e Luiz Vieira, 1955) - iluminado pela vivacidade de Elba - quanto um reggae made in Bahia como Árvore (Edson Gomes, 1991), música fincada na positividade irradiada pelo disco e show Do meu olhar pra fora. Este título se afina na discografia da cantora - pelo arrojo, pela diversidade e pela sonoridade pop - com o antenado álbum Qual o assunto que mais lhe interessa? (Ramax / Brazimúsica!, 2007). Deste disco (mal) lançado há oito anos, Elba sagazmente pinça músicas como Dois pra sempre (Lula Queiroga, 2007), Noite severina (Pedro Luís e Lula Queiroga, 2001) - composição inspirada, valorizada em cena pela projeção de paisagem lunar - e Gaiola da saudade (Jam da Silva e Maciel Salú, 2007), música revivida com arranjo fiel ao do disco. Dois pra sempre é - com ressaltou a cantora em cena - balada com a cara das canções românticas de Dominguinhos (1941 - 2013), cuja obra é uma das referências da música nordestina. A presença eterna de Seu Domingos ronda o show, sobretudo em Contrato de separação (Dominguinhos e Anastácia, 1979) - número em que sobressai o acordeom de Meninão - e nas duas músicas que Elba amalgama em Do meu olhar pra fora em travessia atlântica que começa pelo fado Nos ares da Lisboa e voa direto até o Nordeste nas asas de Um passarinho enganador. Parcerias de Dominguinhos com o compositor cearense Fausto Nilo, essas duas músicas foram gravadas simultaneamente por Elba e por Nilo, que as registrou no disco comemorativo de seus 70 anos de idade, Palavras abandonadas (Pão e poesia, 2014). No céu da vibração, Elba alça altos voos como cantora em Do meu olhar pra fora. Os graves encorparam sua voz agreste, que atinge os mesmos tons de outrora em Marim dos Caetés (Alceu Valença, 1983). Enfim, após discos e shows de menor ambição artística, Elba Ramalho vive novamente fase de plenitude, iniciada com seu projeto anterior Cordas, Gonzaga e afins. Do meu olhar pra fora é show à altura do disco que o inspirou, banquete de signos e de sons que expõem a Flor da Paraíba em novo desabrochar.

Rafael M. disse...

Roteiro inspiradíssimo. Cada canção melhor que a outra... A voz de Elba melhora a cada dia que passa... Clichê dizer isso, mas é como vinho...

lurian disse...

"Cordas, Gonzaga e afins" foi um show lindo!!! Espero que saia em DVD. Se ela conseguir manter aquele veio esse também estará. Apesar de não ter gostado tanto assim do disco Elba cresce mesmo é no palco.

italo vinicius disse...

Ave anjo Angelis tem no you tube cantado pela Elba a quem interessar fico muito muito boa a interpretação

Rafael M. disse...

Bem que "Cordas, Gonzaga E Afins" poderia ganhar uma edição em DVD. Seria demais!!!

Gabriel Loureiro de Lima disse...

Parabéns pela crítica do show Mauro. Tive o prazer de assistir as três apresentações em São Paulo e é realmente um espetáculo imperdível, forte, emocionante e que está a altura do talento de Elba.

Rafael M., o show Cordas, Gonzaga e Afins será lançado em dvd no segundo semestre.