Mauro Ferreira no G1

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domingo, 19 de abril de 2015

Filme ressalta o faro e a pilantragem musical de Imperial sem passar açúcar

Resenha de documentário
Título: Eu sou Carlos Imperial
Direção: Renato Terra e Ricardo Calil
Roteiro: Denilson Monteiro, Renato Terra e Ricardo Calil
Produção: Afinal filmes
Cotação: * * * *
 Filme em exibição na 20ª edição do festival É tudo verdade

Carlos Eduardo Corte Imperial (24 de novembro de 1935 - 4 de novembro de 1992) nasceu há 80 anos na mesma cidade capixaba em que Roberto Carlos veio ao mundo, Cachoeiro de Itapemirim (ES). Mas foi na cidade do Rio de Janeiro (RJ) que os caminhos de Imperial se cruzaram com o do então iniciante cantor. Foi Imperial - marqueteiro artista multimídia que se tornou compositor, produtor musical, jornalista, ator, cineasta e apresentador de TV ao longo de sua lendária vida profissional - quem abriu as portas da indústria do disco para o Rei, então mero plebeu em busca de lugar ao sol no universo pop nacional. Em depoimento dado aos diretores Renato Terra e Ricardo Calil para o filme Eu sou Carlos Imperial, documentário exibido na 20ª edição do festival É tudo verdade, Roberto reconhece a importância de Imperial nessa fase inicial, sobretudo para sua entrada na CBS, gravadora em que, a partir de 1961, o cantor construiu uma das discografias de maior relevância e sucesso na história da indústria fonográfica do Brasil. Com a habitual diplomacia, Roberto Carlos atesta a importância do produtor sem opinar sobre o temperamento controvertido de Imperial. Cabem a outros entrevistados - como os cantores Erasmo Carlos, Eduardo Araújo e Tony Tornado - perfilarem com doses de humor o artista de caráter dúbio enfocado pelo filme de Terra e Calil (diretores do fundamental Uma noite em 1967, documentário de 2010 sobre o histórico III Festival da música popular brasileira). Com risos em vez de mágoas, Araújo repõe em pauta casos de apropriação indébita de músicas, como Meu limão, meu limoeiro, tema de domínio público que Imperial registrou em seu nome antes de dar à música para o cantor carioca Wilson Simonal (1938 - 2000). Sem ressentimentos aparentes, o próprio Araújo revela que foi vítima das ações cafajestes de Imperial, já que jamais levou crédito pela coautoria de seu sucesso O bom (1967), assinado oficialmente apenas por Imperial. São tantas as histórias e os causos que envolvem Carlos Imperial que a narrativa do documentário transcorre leve, ágil, sempre envolvente. Sem julgar a (excelente por si só) personagem que retratam no filme, os diretores acertam ao documentar Imperial de forma objetiva, sem protecionismo, mas tampouco sem a preocupação moralizante de condenar o artista. A simples deliciosa exposição dos fatos, contradições e depoimentos - em contraponto à reprodução de trechos de entrevistas concedidas pelo próprio Imperial (sobretudo uma dada ao historiador Paulo César de Araújo em 1992) - faz com que o espectador do filme tire suas próprias conclusões. E o fato é que Eu sou Carlos Imperial documenta para a posteridade o faro de descobridor de talentos como Elis Regina (1945 - 1982), o tino comercial (evidente em composições autorais como Mamãe passou açúcar em mim, hit na voz de Simonal em 1966) e a pilantragem musical (e social) que tornou Carlos Imperial uma lenda no showbiz nativo. Um marqueteiro capaz de forjar fatos na mídia para transformar em sucesso uma música que se insinuava retumbante fracasso, caso de A praça (Carlos Imperial, 1967), marcha-rancho gravada (a contragosto, fato omitido no roteiro do filme) por Ronnie Von, cantor fluminense de criação paulista, então em evidência no reino encantado da Jovem Guarda. Imperial era capaz de disseminar mentiras com tamanha crença que elas quase se tornavam verdades na era pré-cibernética, caso do boato de que o grupo inglês The Beatles havia gravado a toada Asa Branca (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, 1969). O roteiro de Eu sou Carlos Imperial se sustenta com essas impagáveis histórias. Mas Terra e Calil jamais passam açúcar na história de Imperial para adocicar a personagem aos olhos do espectador ou para torná-lo herói. Nem os filhos maquiam o temperamento do pai, embora, ao fim, fique no ar certa simpatia de todos os entrevistados por personagem incrível, improvável, viável (somente) em tempos politicamente incorretos como as décadas de 1960 e de 1970.

4 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Carlos Eduardo Corte Imperial (24 de novembro de 1935 - 4 de novembro de 1992) nasceu há 80 anos na mesma cidade capixaba em que Roberto Carlos veio ao mundo, Cachoeiro de Itapemirim (ES). Mas foi na cidade do Rio de Janeiro (RJ) que os caminhos de Imperial se cruzaram com o do então iniciante cantor. Foi Imperial - marqueteiro artista multimídia que se tornou compositor, produtor musical, jornalista, ator, cineasta e apresentador de TV ao longo de sua lendária vida profissional - quem abriu as portas da indústria do disco para o Rei, então mero plebeu em busca de lugar ao sol no universo pop nacional. Em depoimento dado aos diretores Renato Terra e Ricardo Calil para o filme Eu sou Carlos Imperial, documentário exibido na 20ª edição do festival É tudo verdade, Roberto reconhece a importância de Imperial nessa fase inicial, sobretudo para sua entrada na CBS, gravadora em que, a partir de 1961, o cantor construiu uma das discografias de maior relevância e sucesso na história da indústria fonográfica do Brasil. Com a habitual diplomacia, Roberto Carlos atesta a importância do produtor sem opinar sobre o temperamento controvertido de Imperial. Cabem a outros entrevistados - como os cantores Erasmo Carlos, Eduardo Araújo e Tony Tornado - perfilarem com doses de humor o artista de caráter dúbio enfocado pelo filme de Terra e Calil (diretores do fundamental Uma noite em 1967, documentário de 2010 sobre o histórico III Festival da música popular brasileira). Com risos em vez de mágoas, Araújo repõe em pauta casos de apropriação indébita de músicas, como Meu limão, meu limoeiro, tema de domínio público que Imperial registrou em seu nome antes de dar à música para o cantor carioca Wilson Simonal (1938 - 2000). Sem ressentimentos aparentes, o próprio Araújo revela que foi vítima das ações cafajestes de Imperial, já que jamais levou crédito pela coautoria de seu sucesso O bom (1967), assinado oficialmente apenas por Imperial. São tantas as histórias e os causos que envolvem Carlos Imperial que a narrativa do documentário transcorre leve, ágil, sempre envolvente. Sem julgar a (excelente por si só) personagem que retratam no filme, os diretores acertam ao documentar Imperial de forma objetiva, sem protecionismo, mas tampouco sem a preocupação moralizante de condenar o artista. A simples deliciosa exposição dos fatos, contradições e depoimentos - em contraponto à reprodução de trechos de entrevistas concedidas pelo próprio Imperial (sobretudo uma dada ao historiador Paulo César de Araújo em 1992) - faz com que o espectador do filme tire suas próprias conclusões. E o fato é que Eu sou Carlos Imperial documenta para a posteridade o faro de descobridor de talentos como Elis Regina (1945 - 1982), o tino comercial (evidente em composições autorais como Mamãe passou açúcar em mim, hit na voz de Simonal em 1966) e a pilantragem musical (e social) que tornou Carlos Imperial uma lenda no showbiz nativo. Um marqueteiro capaz de forjar fatos na mídia para transformar em sucesso uma música que se insinuava retumbante fracasso, caso de A praça (Carlos Imperial, 1967), marcha-rancho gravada (a contragosto, fato omitido no roteiro do filme) por Ronnie Von, cantor fluminense de criação paulista, então em evidência no reino encantado da Jovem Guarda. Imperial era capaz de disseminar mentiras com tamanha crença que elas quase se tornavam verdades na era pré-cibernética, caso do boato de que o grupo inglês The Beatles havia gravado a toada Asa Branca (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, 1969). O roteiro de Eu sou Carlos Imperial se sustenta com essas impagáveis histórias. Mas Terra e Calil jamais passam açúcar na história de Imperial para adocicar a personagem aos olhos do espectador ou para torná-lo herói. Nem os filhos maquiam o temperamento do pai, embora, ao fim, fique no ar certa simpatia por personagem incrível, improvável, viável apenas em tempos politicamente incorretos como os anos 1960 e 1970.

Rafael M. disse...

Imperial criou grandes clássicos da música brasileira, merecia esta homenagem... Um fanfarrão da música de boa qualidade!

ADEMAR AMANCIO disse...

Eu nasci sabendo que o ser humano é terrível,nunca me surpreendi com a maldade de ninguém.

Eduardo disse...

Finalmente o filme estreou neste março de 2016. É mesmo imperdível!