Mauro Ferreira no G1

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sexta-feira, 24 de abril de 2015

Ivan refaz cantoria em 'América, Brasil' para celebrar seu encontro com Vitor

Resenha de CD
Título: América, Brasil
Artista: Ivan Lins
Gravadora: Som Livre
Cotação: * * * 1/2

Ivan Lins está repondo seu bloco na rua. América, Brasil – álbum ora lançado pela gravadora Sony Music – é título com baixo teor de novidade para colecionadores da discografia do cantor e compositor carioca. A rigor, o CD apresenta uma única música inédita em disco, o samba Luxo do lixo, composto em 1981 por Ivan com Vitor Martins para bloco carioca que não chegou a desfilar. Mas a grande maioria das 14 músicas do álbum vai soar como inédita porque trata-se - como o próprio Ivan caracteriza - de “canções perdidas” em discos promovidos com outras músicas. Ou então gravadas sem grande repercussão por cantoras como Simone e Leny Andrade, intérprete original de Cantor da noite (1984), samba-canção – até então inédito na voz de seu compositor - que se ajusta à tonalidade aconchegante do arranjo criado por Ivan com o pianista Marco Brito, produtor do álbum ao lado do próprio Ivan. Com perdas que se transformam em ganhos, América, Brasil – disco idealizado em 2014 – celebra os 40 anos da parceria de Ivan com o letrista paulista Vitor Martins, parceiro de todas as 14 músicas. Foi a partir do encontro de Ivan com Vitor, em 1974, que o cancioneiro desse compositor carioca ganhou relevância e amplitude na MPB engajada dos anos 1970. Essa obra guarda joias raras no baú. Tanto que o disco presta favor à memória nacional em reavivar pérolas como Joana dos Barcos (1975) e  Cantoria (1978), uma das composições da dupla que resistiu por meio de metáforas ao autoritarismo do regime militar instaurado no Brasil em 1964. Ao reencontrar suas canções perdidas, Ivan busca outros (ricos) caminhos harmônicos, recriando a criação com requinte intimista. Que quer de mim? (1993) tem acento bluesy acentuado pelo toque da guitarra do uruguaio Leo Amuedo sem perder a ternura que pauta os arranjos. Por seu tom mais íntimo, América, Brasil favorece canções mais densas como E aí? (Ivan Lins e Vitor Martins, 1991), tema lançado em disco na voz de Selma Reis e que, com Ivan, cai em tom jazzy no toque do piano de Marco Brito enquanto lembra que o amor é a coisa mais triste quando se desfaz. De romantismo sensual, Voar (2004) também alcança boa altitude no álbum, assim como a plácida Água doce (1993). Já os temas de maior brasilidade, caso do congado Do Oiapoque ao Chuí (1984), carecem por vezes de maior vivacidade, pela natureza expansiva. Nessa seara, o destaque é o samba Enquanto a gente batuca (1982), única parceria de Ivan e Vitor com Nei Lopes, promovida por Beth Carvalho para seu álbum Traço de união (RCA, 1982). Até inédito na voz de Ivan, o samba soa atual. Já Coragem, mulher (1980) sobressai no disco por juntar dois traços marcantes do cancioneiro da dupla nos anos 1970: a politização e a feminilidade. Tal como Chico Buarque, Ivan Lins e Vitor Martins sempre souberam compor músicas para vozes de mulheres com alma de mulher. Enfim, América, Brasil é um disco de lados B, que ignora o luxo do luxo. Mas o B de Ivan Lins e Vitor Martins sempre ostentou qualidade A - como prova a bela canção De nosso amor tão sincero (1988), adornada com o toque da gaita do suíço Gregoire Maret em medley que culmina com citações de Vitoriosa (1985) e Depende de nós (1981). Ou seja, não há lixo nesse cancioneiro já quarentão. O que justifica a reposição (de parte...) do bloco na rua no revisionista CD América, Brasil.

4 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Ivan Lins está repondo seu bloco na rua. América, Brasil – álbum ora lançado pela gravadora Sony Music – é título com baixo teor de novidade para colecionadores da discografia do cantor e compositor carioca. A rigor, o CD apresenta uma única música inédita em disco, o samba Luxo do lixo, composto em 1981 por Ivan com Vitor Martins para bloco carioca que não chegou a desfilar. Mas a grande maioria das 14 músicas do álbum vai soar como inédita porque trata-se - como o próprio Ivan caracteriza - de “canções perdidas” em discos promovidos com outras músicas. Ou então gravadas sem grande repercussão por cantoras como Simone e Leny Andrade, intérprete original de Cantor da noite (1984), samba-canção – até então inédito na voz de seu compositor - que se ajusta à tonalidade aconchegante do arranjo criado por Ivan com o pianista Marco Brito, produtor do álbum ao lado do próprio Ivan. Com perdas que se transformam em ganhos, América, Brasil – disco idealizado em 2014 – celebra os 40 anos da parceria de Ivan com o letrista paulista Vitor Martins, parceiro de todas as 14 músicas. Foi a partir do encontro de Ivan com Vitor, em 1974, que o cancioneiro desse compositor carioca ganhou relevância e amplitude na MPB engajada dos anos 1970. Essa obra guarda joias raras no baú. Tanto que o disco presta favor à memória nacional em reavivar pérolas como Joana dos Barcos (1975) e Cantoria (1978), uma das composições da dupla que resistiu por meio de metáforas ao autoritarismo do regime militar instaurado no Brasil em 1964. Ao reencontrar suas canções perdidas, Ivan busca outros (ricos) caminhos harmônicos, recriando a criação com requinte intimista. Que quer de mim? (1993) tem acento bluesy acentuado pelo toque da guitarra do uruguaio Leo Amuedo sem perder a ternura que pauta os arranjos. Por seu tom mais íntimo, América, Brasil favorece canções mais densas como E aí? (Ivan Lins e Vitor Martins, 19??), que cai em tom jazzy no toque do piano de Marco Brito enquanto lembra que o amor é a coisa mais triste quando se desfaz. De romantismo sensual, Voar (2004) também alcança boa altitude no álbum, assim como a plácida Água doce (1993). Já os temas de maior brasilidade, caso do congado Do Oiapoque ao Chuí (1984), carecem por vezes de maior vivacidade, pela natureza expansiva. Nessa seara, o destaque é o samba Enquanto a gente batuca (1982), única parceria de Ivan e Vitor com Nei Lopes, promovida por Beth Carvalho para seu álbum Traço de união (RCA, 1982). Até inédito na voz de Ivan, o samba soa atual. Já Coragem, mulher (1980) sobressai no disco por juntar dois traços marcantes do cancioneiro da dupla nos anos 1970: a politização e a feminilidade. Tal como Chico Buarque, Ivan Lins e Vitor Martins sempre souberam compor músicas para vozes de mulheres com alma de mulher. Enfim, América, Brasil é um disco de lados B, que ignora o luxo do luxo. Mas o B de Ivan Lins e Vitor Martins sempre ostentou qualidade A - como prova a bela canção De nosso amor tão sincero (1988), adornada com o toque da gaita do suíço Gregoire Maret em medley que culmina com citações de Vitoriosa (1985) e Depende de nós (1981). Ou seja, não há lixo nesse cancioneiro já quarentão. O que justifica a reposição (de parte...) do bloco na rua no revisionista América, Brasil.

Rafael M. disse...

Tenho esse disco e o mesmo é ótimo, mostra que Ivan continua em plena forma ainda como cantautor.

Sid disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sid disse...

Excelente crítica!
Eu como colecionador da discografia realmente senti falta de novidade, mas ainda assim gostei do cd...

Só uma correção Mauro: ˜Enquanto a gente batuca", na verdade não é inédita na voz do Ivan. Foi gravada no terceiro cd do grupo mineiro "Lúdica Música",em 2005 se não me engano.