Mauro Ferreira no G1

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sexta-feira, 3 de abril de 2015

Fiel ao suingue 'Black Rio', Dafé volta ao baile (e ao seu passado) em CD

Resenha de CD
Título: Bem-vindo ao baile
Artista: Carlos Dafé
Gravadora: Atração Fonográfica
Cotação: * * * *

Sétimo álbum do soulman Carlos Dafé, Bem-vindo ao baile tem tido trajetória errática como a carreira deste cantor e compositor carioca batizado José Carlos de Souza. Foi gravado em 2009 com azeitada produção de Felipe Pinaud e Marlon Sette e, embora desde então promovido em shows pelo artista, o disco somente chegou efetivamente ao mercado fonográfico brasileiro em 2014 por gravadora sem grande poder de marketing, Atração fonográfico. Mas o injusto silêncio em torno do disco tem sido quebrado por eventuais resenhas publicadas na mídia impressa neste ano de 2015. Bem-vindo ao baile merece atenção. É álbum à altura do legado deste artista que se alinhou, no início dos anos 1970, com os cantores e músicos que introduziram a soul music norte-americana no Brasil. Dafé passou brevemente pelo seminal grupo Abolição, tocou na banda de Tim Maia (1942 - 1998) - cantor carioca que abriu as portas do sucesso para a geração soul dos anos 1970 - e, entre um feito e outro, debutou no mercado fonográfico em 1972 com a gravação de compacto sem repercussão. O estouro viria somente em 1977, ano em que - no embalo da explosão do movimento Black Rio - Dafé lançou o primeiro dos sete álbuns que gravou num período de 20 anos que vai de 1977 a 1997. Pra que vou recordar o que chorei? (Warner Music, 1977) emplacou em escala nacional a música-título, um sambalada de alma soul que foi parar em trilha de novela (Dona Xepa, TV Globo, 1977). Mas o fato é que, embora tenha lançado um segundo cultuado álbum em 1978, editado também via Warner Music, Dafé nunca mais bisou o sucesso do disco de 1977. Bem-vindo ao baile é oportuna tentativa de reintroduzir Dafé na cena. Tanto que a faixa-título, Bem-vindo ao baile, é intro de 34 segundos em que o compositor e músico carioca Marcelo Yuka saúda Dafé. "Respeito, positividade e atenção. No coração até os gestos: minha influência e de outras gerações. Música com a verdade que é - com vocês: Carlos Dafé", dá as boas-vindas Yuka, que volta ao disco, oito faixas depois, para dizer a fala da regravação de A cruz (Carlos Dafé e Tania Mara, 1977), música do primeiro álbum de Dafé. A propósito, no atual disco, Dafé faz novas conexões com nomes como o maranhense Zeca Baleiro - parceiro e convidado de Sigo só, faixa na qual tudo acaba em samba - sem romper com o repertório do passado. Parceria com o carioca Nelson Motta, Escorpião já tinha revelado sua picada soul no segundo álbum de Dafé, Venha matar saudades (Warner Music, 1978), batizado com o nome de canção soul ora revivida por Dafé em dueto com Toni Garrido (à vontade nesse ambiente soul). Mas muitas músicas vão soar como inéditas, caso de Quando o amor chegar, inspirada balada da lavra de outro soulman carioca, Hyldon, lançada na voz de seu compositor em compacto de 1984 com o título de Novas emoções. Bem-vindo ao baile é disco fiel ao suingue do movimento Black Rio, evocado nos metais que fazem a pulsação da regravação de Da alegria raiou o dia (Carlos Dafé e Dom Mita, 1977), faixa turbinada com a participação de Da Ghama. É um universo musical já amalgamado com o rap, o que justifica a entrada em cena de MC Marechal, convidado de Cantar com o coração (Georgemari Dafé, William Félix, Toninho Lemos e Marechal). E é na cadência de um bonito samba que o artista se autoperfila em Dafé, música do compositor carioca Jorge Aragão. "Faço parte dessa história, eu sei / ... / Eu vim da glória, eu vim da fama / Eu vim matar saudades", anuncia Carlos Dafé, orgulhoso de fazer parte de uma história parcialmente recontada neste azeitado CD que se equilibra entre presente e passado. Bem-vindo (de novo) ao baile, Dafé!

2 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Sétimo álbum do soulman Carlos Dafé, Bem-vindo ao baile tem tido trajetória errática como a carreira deste cantor e compositor carioca batizado José Carlos de Souza. Foi gravado em 2009 com azeitada produção de Felipe Pinaud e Marlon Sette e, embora desde então promovido em shows pelo artista, o disco somente chegou efetivamente ao mercado fonográfico brasileiro em 2014 por gravadora sem grande poder de marketing, Atração fonográfico. Mas o injusto silêncio em torno do disco tem sido quebrado por eventuais resenhas publicadas na mídia impressa neste ano de 2015. Bem-vindo ao baile merece atenção. É álbum à altura do legado deste artista que se alinhou, no início dos anos 1970, com os cantores e músicos que introduziram a soul music norte-americana no Brasil. Dafé passou brevemente pelo seminal grupo Abolição, tocou na banda de Tim Maia (1942 - 1998) - cantor carioca que abriu as portas do sucesso para a geração soul dos anos 1970 - e, entre um feito e outro, debutou no mercado fonográfico em 1972 com a gravação de compacto sem repercussão. O estouro viria somente em 1977, ano em que - no embalo da explosão do movimento Black Rio - Dafé lançou o primeiro dos sete álbuns que gravou num período de 20 anos que vai de 1977 a 1997. Pra que vou recordar o que chorei? (Warner Music, 1977) emplacou em escala nacional a música-título, um sambalada de alma soul que foi parar em trilha de novela (Dona Xepa, TV Globo, 1977). Mas o fato é que, embora tenha lançado um segundo cultuado álbum em 1978, editado também via Warner Music, Dafé nunca mais bisou o sucesso do disco de 1977. Bem-vindo ao baile é oportuna tentativa de reintroduzir Dafé na cena. Tanto que a faixa-título, Bem-vindo ao baile, é intro de 34 segundos em que o compositor e músico carioca Marcelo Yuka saúda Dafé. "Respeito, positividade e atenção. No coração até os gestos: minha influência e de outras gerações. Música com a verdade que é - com vocês: Carlos Dafé", dá as boas-vindas Yuka, que volta ao disco, oito faixas depois, para dizer a fala da regravação de A cruz (Carlos Dafé e Tania Mara, 1977), música do primeiro álbum de Dafé. A propósito, no atual disco, Dafé faz novas conexões com nomes como o maranhense Zeca Baleiro - parceiro e convidado de Sigo só, faixa na qual tudo acaba em samba - sem romper com o repertório do passado. Parceria com o carioca Nelson Motta, Escorpião já tinha revelado sua picada soul no segundo álbum de Dafé, Venha matar saudades (Warner Music, 1978), batizado com o nome de canção soul ora revivida por Dafé em dueto com Toni Garrido (à vontade nesse ambiente soul). Mas muitas músicas vão soar como inéditas, caso de Quando o amor chegar, inspirada balada da lavra de outro soulman carioca, Hyldon, lançada na voz de seu compositor em compacto de 1984 com o título de Novas emoções. Bem-vindo ao baile é disco fiel ao suingue do movimento Black Rio, evocado nos metais que fazem a pulsação da regravação de Da alegria raiou o dia (Carlos Dafé e Dom Mita, 1977), faixa turbinada com a participação de Da Ghama. É um universo musical já amalgamado com o rap, o que justifica a entrada em cena de MC Marechal, convidado de Cantar com o coração (Georgemari Dafé, William Félix, Toninho Lemos e Marechal). E é na cadência de um bonito samba que o artista se autoperfila em Dafé, música do compositor carioca Jorge Aragão. "Faço parte dessa história, eu sei / ... / Eu vim da glória, eu vim da fama / Eu vim matar saudades", anuncia Carlos Dafé, orgulhoso de fazer parte de uma história parcialmente recontada neste azeitado CD que se equilibra entre presente e passado. Bem-vindo (de novo) ao baile, Dafé!

Rafael M. disse...

Grande Carlos Dafé, voltando com tudo!!!