Mauro Ferreira no G1

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segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Reedições de discos de Djavan ganham no som e perdem na arte gráfica

Resenha de caixa de CDs
Título: Djavan
Artista: Djavan
Gravadora: Sony Music
Cotação: * * * 1/2

 Mais do que oportuna, a produção de caixa com reedições da obra de Djavan era necessária, pois, embora todos os álbuns do artista alagoano já tivessem sido disponibilizados no formato de CD, as reedições pecavam pela qualidade insatisfatória do som e oscilavam na questão gráfica. Recém-posta nas lojas pela gravadora Sony Music, a caixa Djavan corrige totalmente a questão do som, mas decepciona na parte gráfica. A caixa embala 18 álbuns do cantor e compositor - lançados originalmente entre 1976 e 2010 - e duas coletâneas com fonogramas avulsos da discografia de Djavan. O som dos álbuns resulta exemplar. Remasterizados por André Dias de março de 2013 a agosto deste ano de 2014, a partir dos tapes originais (restaurados por Sidney Costa), os álbuns soam com o frescor dos dias de hoje, mas com total devoção ao som das edições originais (com exceção de Matizes, álbum de 2007 remixado por Djavan por conta da insatisfação do artista com a mixagem da edição original do CD). Nesse quesito sonoro, a caixa Djavan figura entre os melhores produtos do gênero lançados no mercado fonográfico brasileiro, justificando a substituição dos CDs no caso dos colecionadores que já possuem a discografia do artista neste formato. Em contrapartida, a perda de parte da arte gráfica dos álbuns originais vai frustrar colecionadores de discos que valorizam as reproduções de encartes e capas internas. Os 18 álbuns são embalados na caixa em capas fabricadas no formato de miniatura de LPs. As capas e contracapas originais estão lá, mas não a parte gráfica complementar, sendo que todos os discos de Djavan têm encartes luxuosos. Como os álbuns não possuem encartes próprios nas atuais reedições, a caixa concentra as informações e fichas técnicas dos discos no libreto de 210 páginas que traz fotos do cantor e letras das músicas. Houve capricho na reprodução das fichas técnicas, algumas até estendidas com informações relevantes não constantes no álbum original. No libreto, cada disco é contextualizado na obra de Djavan por texto escrito pelo jornalista Hugo Sukman. São versões resumidas dos precisos textos escritos por Sukman para os três volumes do apurado songbook A música de Djavan (2008), editado pelo próprio Djavan, também o produtor da atual caixa. Ou seja, houve até ganho de informação. O que não justifica a supressão dos encartes e capas duplas. Feita a ressalva das perdas na parte gráfica, a caixa Djavan concentra a quase totalidade de uma das obras de assinatura mais pessoal e intransferível da música brasileira (em que pesem os imitadores do artista). O seminal A voz, o violão, a música de Djavan (Som Livre, 1976, * * * *) apresentou essa obra autoral ao mercado fonográfico, tendo sido direcionado para o samba por decisão do produtor Aloysio Oliveira (1914 - 1995). Com leque rítmico mais diversificado do que seu antecessor, Djavan (EMI-Odeon, 1978, * * * * 1/2) - álbum já reeditado em CD com sua capa dupla original na caixa da série Portfolio, fabricada pela EMI Music em 1997 - foi o disco que sedimentou a marca desse cancioneiro que djavaneia samba, balada, blues, música africana e jazz com toque personalíssimo. Também já encaixotado na série PortfolioAlumbramento (EMI-Odeon, 1980, * * * * 1/2) abriu parcerias - com Aldir Blanc, Cacaso (1944 - 1987) e Chico Buarque - em obra de criação até então solitária sem abrir mão da marca autoral do compositor. Síntese da fase inicial da discografia do artista, Seduzir (EMI-Odeon, 1981, * * * * *)  preparou o clima para a explosão pop de Luz (CBS, 1982, * * * * *), álbum que transformou Djavan em superstar com vendas expressivas, sucessão de hits e uso primoroso dos recursos tecnológicos da época. Já o eletrônico Lilás (CBS, 1984, * * *) se lambuzou com esses recursos, embora tenha gerado dois clássicos para o cancioneiro de Djavan (Esquinas e a música-título Lilás). Meu lado (CBS, 1986, * * * 1/2) tentou conciliar a brasilidade da fase inicial da discografia do artista com o sotaque pop entranhado em quase toda a música brasileira gravada nos anos 1980. Não é azul, mas é mar (CBS, 1987, * * *) acenou com mais força para o pop globalizado enquanto Djavan (CBS, 1989, * * * 1/2) reconduziu o artista às paradas a reboque da balada-blockbuster Oceano. Coisa de acender (Sony Music, 1991, * * * *) emplacou outro sucesso radiofônico (a balada Se...) e destacou a pungente parceria de Djavan com Orlando Morais, A rota do indíviduo (Ferrugem), que abriu este disco marcado por conexões com outros compositores. Na contramão, o reflexivo e interiorizado Novena (Sony Music, 1994, * * * 1/2) fechou o leque de parceiros enquanto seu sucessor, o exteriorizado Malásia (Sony Music, 1996, * * * *), abriu espaço para o exercício de interpretação de músicas alheias, incluindo no repertório abordagens de músicas de Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994), Charles Chaplin (1889 - 1977) e Paulinho da Viola (embora o maior sucesso do álbum tenha sido a balada autoral Nem um dia). Bicho solto o XIII (Sony Music, 1998, * * * 1/2) fez a festa pop em tentativa bem-sucedida de rejuvenescer o som e o público de Djavan. A balada Eu te devoro - cuja letra inclui citação do ator norte-americano Leonardo Di Caprio, então sensação mundial entre as adolescentes por conta do filme Titanic - sintetizou e guiou essa nova guinada pop de Djavan, à qual se seguiu a explosão de popularidade e vendas do retrospectivo álbum duplo Djavan ao vivo (Sony Music, 1999, * * * * 1/2). Surpreendentemente, o posterior Milagreiro (Sony Music, 2001, * * * *) se desviou da rota pop, sinalizando volta do artista às origens nordestinas. O dueto com a cantora Cássia Eller (1962 - 2001) na flamenca música-título Milagreiro já valeu o disco por si só. Vaidade (Luanda Records, 2004, * * *) marcou a independência artística de Djavan, então senhor de si na sua própria gravadora, enquanto Matizes (Luanda Records, 2007, * * *) manteve inalterados os tons do cancioneiro do compositor (a remixagem do disco preserva a percepção inicial de que se trata de álbum de inspiração irregular). Já Ária (Luanda Records / Biscoito Fino, 2010, * * * 1/2) repôs em cena o crooner, remetendo ao início da trajetória do artista, na fase pré-fama em que o (ainda desconhecido) cantor gravava músicas para trilhas sonoras de novelas da TV Globo. Duas dessas músicas - o samba Presunçosa (Antonio Carlos & Jocáfi) e a nordestina Calmaria e vendaval (Toquinho & Vinicius de Moraes), gravadas em 1974 para as novelas Supermanoela e Fogo sobre terra, respectivamente - foram incluídas na coletânea Raridades produzida para a caixa. Mas não são creditadas nem na contracapa da compilação e tampouco no libreto (as faixas alinhadas na ficha técnica nos seus lugares são Melodia sentimental e Sorriso de luz, mas elas não estão no CD). Outro erro - que aponta desleixo na produção da coletânea - é o fato de a contracapa indicar que a nona faixa é Eu te amo quando, na realidade, ouve-se Aboio blues (André Luiz), fonograma de 1998 corretamente creditado no libreto. Cabe ressaltar ainda a ausência na seleção do primeiro registro fonográfico de Djavan - Qual é? (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle), música gravada pelo cantor em 1973 para a trilha sonora da novela Os ossos do barão - e de outros temas gravados para novelas da TV Globo. Enfim, mesmo que tenha alguns deslizes na produção, a caixa Djavan é valorizada pelo som primoroso dos álbuns originais do artista. Mesmo que faltem pedaços da arte gráfica dos discos, a música em si é (re)ouvida em toda sua plenitude.

9 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Mais do que oportuna, a produção de caixa com reedições da obra de Djavan era necessária, pois, embora todos os álbuns do artista alagoano já tivessem sido disponibilizados no formato de CD, as reedições pecavam pela qualidade insatisfatória do som e oscilavam na questão gráfica. Recém-posta nas lojas pela gravadora Sony Music, a caixa Djavan corrige totalmente a questão do som, mas decepciona na parte gráfica. A caixa embala 18 álbuns do cantor e compositor - lançados originalmente entre 1976 e 2010 - e duas coletâneas com fonogramas avulsos da discografia de Djavan. O som dos álbuns resulta exemplar. Remasterizados por André Dias de março de 2013 a agosto deste ano de 2014, a partir dos tapes originais (restaurados por Sidney Costa), os álbuns soam com o frescor dos dias de hoje, mas com total devoção ao som das edições originais (com exceção de Matizes, álbum de 2007 remixado por Djavan por conta da insatisfação do artista com a mixagem da edição original do CD). Nesse quesito sonoro, a caixa Djavan figura entre os melhores produtos do gênero lançados no mercado fonográfico brasileiro, justificando a substituição dos CDs no caso dos colecionadores que já possuem a discografia do artista neste formato. Em contrapartida, a perda de parte da arte gráfica dos álbuns originais vai frustrar colecionadores de discos que valorizam as reproduções de encartes e capas internas. Os 18 álbuns são embalados na caixa em capas fabricadas no formato de miniatura de LPs. As capas e contracapas originais estão lá, mas não a parte gráfica complementar, sendo que todos os discos de Djavan têm encartes luxuosos. Como os álbuns não possuem encartes próprios nas atuais reedições, a caixa concentra as informações e fichas técnicas dos discos no libreto de 210 páginas que traz fotos do cantor e letras das músicas. Houve capricho na reprodução das fichas técnicas, algumas até estendidas com informações relevantes não constantes no álbum original. No libreto, cada disco é contextualizado na obra de Djavan por texto escrito pelo jornalista Hugo Sukman. São versões resumidas dos precisos textos escritos por Sukman para os três volumes do apurado songbook A música de Djavan (2008), editado pelo próprio Djavan, também o produtor da atual caixa. Ou seja, houve até ganho de informação. O seminal A voz, o violão, a música de Djavan (Som Livre, 1976, * * * *) - disco que apresentou a obra autoral de Djavan ao mercado fonográfico, tendo sido direcionado para o samba por decisão do produtor Aloysio Oliveira (1914 - 1995) - volta ao catálogo com os créditos dos músicos, omitidos na ficha técnica do LP original. O que não justifica a supressão dos encartes e capas duplas. Feita a ressalva das perdas na parte gráfica, a caixa Djavan concentra a quase totalidade de uma das obras de assinatura mais pessoal e intransferível da música brasileira (em que pesem os imitadores do artista). Com leque rítmico mais diversificado do que seu antecessor, Djavan (EMI-Odeon, 1978, * * * * 1/2) - álbum já reeditado em CD com sua capa dupla original na caixa da série Portfolio, fabricada pela EMI Music em 1997 - foi o disco que sedimentou a marca desse cancioneiro que djavaneia samba, balada, blues, música africana e jazz com toque personalíssimo. Também já encaixotado na série Portfolio, Alumbramento (EMI-Odeon, 1980, * * * * 1/2) abriu parcerias - com Aldir Blanc, Cacaso (1944 - 1987) e Chico Buarque - em obra de criação até então solitária sem abrir mão da marca autoral do compositor. Síntese da fase inicial da discografia do artista, Seduzir (EMI-Odeon, 1981, * * * * *) preparou o clima para a explosão pop de Luz (CBS, 1982, * * * * *), álbum que transformou Djavan em superstar com vendas expressivas, sucessão de hits e uso primoroso dos recursos tecnológicos da época. Já o eletrônico Lilás (CBS, 1984, * * *) se lambuzou com esses recursos, embora tenha gerado dois clássicos para o cancioneiro de Djavan (Esquinas e a música-título Lilás).

Mauro Ferreira disse...

Meu lado (CBS, 1986, * * * 1/2) tentou conciliar a brasilidade da fase inicial da discografia do artista com o sotaque pop entranhado em quase toda a música brasileira gravada nos anos 1980. Não é azul, mas é mar (CBS, 1987, * * *) acenou com mais força para o pop globalizado enquanto Djavan (CBS, 1989, * * * 1/2) reconduziu o artista às paradas a reboque da balada-blockbuster Oceano. Coisa de acender (Sony Music, 1991, * * * *) emplacou outro sucesso radiofônico (a balada Se...) e destacou a pungente parceria de Djavan com Orlando Morais, A rota do indíviduo (Ferrugem), que abriu este disco marcado por conexões com outros compositores. Na contramão, o reflexivo e interiorizado Novena (Sony Music, 1994, * * * 1/2) fechou o leque de parceiros enquanto seu sucessor, o exteriorizado Malásia (Sony Music, 1996, * * * *), abriu espaço para o exercício de interpretação de músicas alheias, incluindo no repertório abordagens de músicas de Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994), Charles Chaplin (1889 - 1977) e Paulinho da Viola (embora o maior sucesso do álbum tenha sido a balada autoral Nem um dia). Bicho solto o XIII (Sony Music, 1998, * * * 1/2) fez a festa pop em tentativa bem-sucedida de rejuvenescer o som e o público de Djavan. A balada Eu te devoro - cuja letra inclui citação do ator norte-americano Leonardo Di Caprio, então sensação mundial entre as adolescentes por conta do filme Titanic - sintetizou e guiou essa nova guinada pop de Djavan, à qual se seguiu a explosão de popularidade e vendas do retrospectivo álbum duplo Djavan ao vivo (Sony Music, 1999, * * * * 1/2). Surpreendentemente, o posterior Milagreiro (Sony Music, 2001, * * * *) se desviou da rota pop, sinalizando volta do artista às origens nordestinas. O dueto com a cantora Cássia Eller (1962 - 2001) na flamenca música-título Milagreiro já valeu o disco por si só. Vaidade (Luanda Records, 2004, * * *) marcou a independência artística de Djavan, então senhor de si na sua própria gravadora, enquanto Matizes (Luanda Records, 2007, * * *) manteve inalterados os tons do cancioneiro do compositor (a remixagem do disco preserva a percepção inicial de que se trata de álbum de inspiração irregular). Já Ária (Luanda Records / Biscoito Fino, 2010, * * * 1/2) repôs em cena o crooner, remetendo ao início da trajetória do artista, na fase pré-fama em que o (ainda desconhecido) cantor gravava músicas para trilhas sonoras de novelas da TV Globo. Duas dessas músicas - o samba Presunçosa (Antonio Carlos & Jocáfi) e a nordestina Calmaria e vendaval (Toquinho & Vinicius de Moraes), gravadas em 1974 para as novelas Supermanoela e Fogo sobre terra, respectivamente - foram incluídas na coletânea Raridades produzida para a caixa. Mas não são creditadas nem na contracapa da compilação e tampouco no libreto (as faixas alinhadas na ficha técnica nos seus lugares são Melodia sentimental e Sorriso de luz, mas elas não estão no CD). Outro erro - que aponta desleixo na produção da coletânea - é o fato de a contracapa indicar que a nona faixa é Eu te amo quando, na realidade, ouve-se Aboio blues (André Luiz), fonograma de 1998 corretamente creditado no libreto. Cabe ressaltar ainda a ausência na seleção do primeiro registro fonográfico de Djavan - Qual é? (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle), música gravada pelo cantor em 1973 para a trilha sonora da novela Os ossos do barão - e de outros temas gravados para novelas da TV Globo. Enfim, mesmo que tenha alguns deslizes na produção, a caixa Djavan é valorizada pelo som primoroso dos álbuns originais do artista. Mesmo que faltem pedaços da arte gráfica dos discos, a música em si é (re)ouvida em toda sua plenitude.

ADEMAR AMANCIO disse...

"Milagreiro,já valeu o disco por si só".Assino embaixo.

Mauro Silva disse...

Puxa vida...E eu aqui sonhando com aquele encarte maravilhoso de "Luz" de 1982 no qual aparece muitas fotos do pessoal no estudio e uma foto linda do Djavan com o Stevie Wonder. Esse encarte nunca saiu nas edições em CD. Alias "Luz" é a pior edição em CD dos discos do Djavan, por que além de não ter o encarte, vem com as faixas em ordem trocada do disco original...Minha esperança seria a edição de "Luz" neste Box, mas pelo visto...já era. A Sony Music se não caga na entrada, caga na saída :(

Telmo disse...

Tenho os discos do Djavan na versão em CD, com uma qualidade de som lamentável. Fizeram uma conversão do vinil para o CD de péssima qualidade. Apesar de lamentar o fato de desrespeitarem encartes, gostei dos discos estarem em réplica de mini-lps, é muito mais sofisticado. Também achei bacana o box ser oferecido em um material de melhor qualidade, mais duro e resistente, diferente do padrão papelão mole dos boxs da Universal.

Heber Welby disse...

Alguém sabe alguma informação sobre a gravação de "Aboio Blues" e o álbum original em que saiu?

Heber Welby disse...

Alguém sabe alguma informação sobre a gravação de "Aboio Blues" e o álbum original em que saiu?

Unknown disse...

Boa tarde Mario, tudo bem? Muito interessante a analise sobre o box do Djavan. Sou estudante de design gráfico e estou no momento desenvolvendo um trabalho de tcc sobre box de cds e como o mercado reage a isso. Como gostei muito da sua analise sobre o do Djavan, gostaria de saber se você autoriza eu usar suas informações neste trabalho. Agradeço desde já.

Revi Silva disse...

Como disse o autor: a arte grafica é muitl ruim. A começar pelas capas dos Cds.
Ta na cara que quizeram economizar espaço e sacrificar na robustez da embalagem.

Mini Lp é pra auem gosta de disco usado e riscado.
É pra enganar fã dizendo que aquilo reproduz a capa dos discos da época. Pra mim isso nunca foi verdade.

É pessimo pra guardar a midia.