Mauro Ferreira no G1

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terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Livro apaixonante investiga a identidade e o destino das musas da MPB

Resenha de livro
Título: Musas e músicas - A mulher por trás da canção
Autor: Rosane Queiroz
Editora: Tinta Negra Bazar Editorial
Cotação: * * * *

Musas e músicas - A mulher por trás da canção é um livro-reportagem. Sua autora - Rosane Queiroz, jornalista radicada em São Paulo (SP) que toca piano desde os sete anos de idade e que exercita a arte de cantar sem vínculos profissionais - foi atrás das mulheres que inspiraram músicas de alguns dos maiores compositores brasileiros. O resultado é um livro apaixonante porque a autora investiga não somente a identidade, mas também o destino das musas de sucessos como Anna Júlia (Marcelo Camelo, 1999) Lígia (Antonio Carlos Jobim, 1974) - música lançada por Chico Buarque, que veio a colaborar posteriormente na construção da letra - e Preta Pretinha (Luiz Galvão e Moraes Moreira, 1972). Escrito com leveza, o livro flui como uma melodia pop, pronta para ser cantarolada. A autora dedica um capítulo a cada musa real que tem seu paradeiro revelado. Ao fim, Rosane Queiroz alinha musas (supostamente) fictícias, como as mulheres que povoam o imaginário e o cancioneiro de Chico Buarque, por exemplo. Somente o capítulo dedicado a Anna Julia Werneck - musa do primeiro sucesso do grupo carioca Los Hermanos - já vale o livro. A autora mostra como a explosão da música, em 1999, alterou a vida e o status da estudante de jornalismo que, até então, circulava anônima pelos corredores e salas de aula da PUC, universidade carioca que serviu de cenário para a paixão de Alex Werner, produtor da banda, por Anna Julia. "Eu não conseguia andar na PUC sem ser apontada", rememora Anna Julia, ressaltando que, ao contrário do que faz supor a letra, o interesse de Alex era correspondido, embora ambos não chegassem às vias de fato por timidez. Outro momento relevante do livro é a entrevista da autora com a carioca Lygia Marina de Moraes, alvo da paixão platônica de Tom Jobim em 1973. Paixão que ficou no plano da imaginação pelo fato de Lygia ser então casada com o escritor Fernando Sabino (1923 - 2004), amigo de Tom. Lygia se reconheceu nos versos da canção de 1974, mas a inspiração da música sempre foi assunto delicado para o compositor, que somente admitiu a identidade da musa quando Lygia já estava separada de Sabino. Menos conhecida, a história de Risoflora (Chico Science, 1994) - música do primeiro álbum da Nação Zumbi, lançado em 1994 - é desvendada pelo livro. A musa é a jornalista pernambucana Maria Eduarda Belém, a Maria Duda, assim apelidada por Chico Science (1966 - 1997), que a namorou e compôs Risoflora - cuja letra fabulosa narra a paixão de um caranguejo por flor do mangue - após brigar com sua musa. Detalhe: rhisoflora é o nome científico de planta comum na vegetação ribeirinha. Com seu faro jornalístico, Rosane Queiroz também foi atrás da baiana Maria do Perpétuo Socorro Nogueira, namorada de Luiz Galvão e musa inspiradora de Preta Pretinha, música que se tornou o maior sucesso do melhor álbum do grupo Novos Baianos, Acabou chorare (Som Livre, 1972). Outro caso de amor vivido. Mesmo quando não consegue localizar o paradeiro da musa, a autora não deixa de contar uma boa história (real). Como a paixão de Guttemberg Guarabyra por uma menina que vendia ácidos pela noite carioca em 1973 chamada Fátima.  Fafá - que nada tem a ver com a cantora de Belém (PA) - é a musa inspiradora de Espanhola, cuja letra foi escrita por Guarabyra em estado de embriaguez sobre melodia de Flávio Venturini, em cuja casa foi pedir abrigo em noite de aguda dor de cotovelo pela paixão (até então) não concretizada. Lançada pela dupla Sá & Guarabyra em 1977, a canção fez muito sucesso na gravação feita por Flávio Venturini em seu álbum solo Nascente (EMI-Odeon, 1982). E assim, de história em história, de música em música, de caso em caso, Rosane Queiroz traça o perfil de mulheres apaixonadas e apaixonantes em livro que é - ele próprio! - apaixonante para fãs da MPB.

7 comentários:

Edimar Pereira disse...

Toda vez que pego um cd novo, de cantor, grupo novo ou já conhecido, verifico se alguma música tem nome de mulher, se tiver vou direto nela, geralmente são as melhores. E que melhor tema que a mulher?

Mauro Ferreira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
flavio ricci disse...

Bom dia Mauro...acredito que por um erro de digitação o ano de lançamento do LP Nascente de Flávio Venturini saiu errado. Não seria 1982??? Abraços

Mauro Ferreira disse...

Bom dia, Flávio! Grato pelo toque do erro de digitação. abs, MauroF

ADEMAR AMANCIO disse...

Eu sempre achei que Anna Júlia fosse musa do vocalista e compositor de Los Hermanos,e não do produtor.

Eduardo disse...

Muito legal essa resenha, daquelas que dá vontade de sair correndo pra comprar o livro! Parabéns pelo ótimo texto de sempre, Mauro. Você é quem deveria escrever livros.

Rhenan Rodrigo disse...

Adorei. Quero ler! E fiquei querendo escrever uma versão com as musas homossexuais, hehe! ;)