Mauro Ferreira no G1

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sábado, 20 de dezembro de 2014

Vid brilha ao subverter dez temas de Chico para o idioma do rock pesado

Resenha de álbum digital
Título: Rock 'n Chico
Artista: Sergio Vid
Gravadora: Edição digital independente
Cotação: * * * 1/2

 O cancioneiro de Chico Buarque nunca foi regravado com o peso que Sergio Vid dá às dez músicas do compositor carioca recriadas no disco Rock 'n Chico, recém-lançado em formato digital. É um peso literal. Vid (sub)verte as composições - lançadas entre 1968 e 1989 - para o inglês e para o idioma do rock pesado. Neste que é seu melhor disco, Vid vai além do trivial. Em bom português, Vid jamais se limitou a fazer sobressair uma guitarra no arranjo para dar mera pegada roqueira às músicas de Chico. A transformação é radical, mas encanta porque Vid preserva a arquitetura melódica das músicas, sobretudo às das canções. Mulheres de Atenas (Chico Buarque e Augusto Boal, 1976), por exemplo, vira balada à moda do grupo inglês Led Zeppelin com o título de Women of Athens. Olhos nos olhos (1976) gera Eye to eye no registro que remete ao som do trio canadense Rush. Já Retrato em branco e preto (Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque, 1968) fica sombria e com o título Portrait in black and white. O cancioneiro soberano de Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994) nunca soou tão dark. Mas o que cativa em Rock 'n Chico é que houve respeito pela obra do compositor. Em atividade na cena roqueira nacional desde o fim dos anos 1970, década em que foi admitido pelo guitarrista Celso Blues Boy (1956 - 2012) como vocalista da banda Legião Estrangeira, Vid (sub)verte Chico sem que sua desconstrução torne irreconhecível o cancioneiro do artista. Todo ouvinte vai identificar de imediato que I forgive you é Mil perdões (1983), por exemplo. Essa habilidade de desconstruir sem destruir é que torna sedutor esse projeto coerente com a trajetória de um roqueiro carioca que fez sua história ao longo da década de 1980, tendo integrado as bandas Sangue da Cidade (de 1981 a 1983), Bixo da Seda e Vid & Sangue Azul (com a qual sobreviveu aos anos 1990). Surgida em 1999, quando Vid gravou Hino de Duran (1979) em tom pauleira para songbook dedicado à obra de Chico, a ideia de Rock 'n Chico começou a ser concretizada em 2007. Sete anos depois, Vid apresenta este disco em que brilha, inclusive por preservar o sentido original das letras de Chico nas criteriosas versões em inglês. Cálice (Gilberto Gil e Chico Buarque, 1973), por exemplo, se transforma em Grail com naturalidade para uma música já em si imponente e que já tem todo um peso entranhado em sua natureza contestatória. De modo geral, as canções se prestam mais às subversões para o idioma do hard rock. Já o samba Partido alto (1972), por exemplo, parece soar fora do tom e da ordem na versão intitulada If you konw who you are, embora a letra em inglês seja respeitosa. Brejo da cruz (1984), que virou Swamp of the Cross, também perdeu parte de sua força neste disco produzido e arranjado por PH Castanheira (baixo, teclados e Hammond) com Ricardo Marins (guitarra, violão e Hammond). Assim como desaba a beleza harmônica de Morro Dois Irmãos (1989), apresentada como Two brothers hill. Em contrapartida, é impressionante como Deus lhe pague (1971) - vertida para o inglês com o título (May) God reward you - se enquadra com naturalidade na moldura do hard rock. A raiva embutida em seus versos já tem um peso todo próprio. No ano em que o Brasil celebra os 70 anos de vida do compositor, Sergio Vid expande o horizonte dessa obra ao abordar o cancioneiro de Chico Buarque sob um prisma realmente original.

4 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ O cancioneiro de Chico Buarque nunca foi regravado com o peso que Sergio Vid dá às dez músicas do compositor carioca recriadas no disco Rock 'n Chico, recém-lançado em formato digital. É um peso literal. Vid (sub)verte as composições - lançadas entre 1968 e 1989 - para o inglês e para o idioma do rock pesado. Neste que é seu melhor disco, Vid vai além do trivial. Em bom português, Vid jamais se limitou a fazer sobressair uma guitarra no arranjo para dar mera pegada roqueira às músicas de Chico. A transformação é radical, mas encanta porque Vid preserva a arquitetura melódica das músicas, sobretudo às das canções. Mulheres de Atenas (Chico Buarque e Augusto Boal, 1976), por exemplo, vira balada à moda do grupo inglês Led Zeppelin com o título de Women of Athens. Olhos nos olhos (1976) gera Eye to eye no registro que remete ao som do trio canadense Rush. Já Retrato em branco e preto (Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque, 1968) fica sombria e com o título Portrait in black and white. O cancioneiro soberano de Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994) nunca soou tão dark. Mas o que cativa em Rock 'n Chico é que houve respeito pela obra do compositor. Em atividade na cena roqueira nacional desde o fim dos anos 1970, década em que foi admitido pelo guitarrista Celso Blues Boy (1956 - 2012) como vocalista da banda Legião Estrangeira, Vid (sub)verte Chico sem que sua desconstrução torne irreconhecível o cancioneiro do artista. Todo ouvinte vai identificar de imediato que I forgive you é Mil perdões (1983), por exemplo. Essa habilidade de desconstruir sem destruir é que torna sedutor esse projeto coerente com a trajetória de um roqueiro carioca que fez sua história ao longo da década de 1980, tendo integrado as bandas Sangue da Cidade (de 1981 a 1983), Bixo da Seda e Vid & Sangue Azul (com a qual sobreviveu aos anos 1990). Surgida em 1999, quando Vid gravou Hino de Duran (1979) em tom pauleira para songbook dedicado à obra de Chico, a ideia de Rock 'n Chico começou a ser concretizada em 2007. Sete anos depois, Vid apresenta este disco em que brilha, inclusive por preservar o sentido original das letras de Chico nas criteriosas versões em inglês. Cálice (Gilberto Gil e Chico Buarque, 1973), por exemplo, se transforma em Grail com naturalidade para uma música já em si imponente e que já tem todo um peso entranhado em sua natureza contestatória. De modo geral, as canções se prestam mais às subversões para o idioma do hard rock. Já o samba Partido alto (1972), por exemplo, parece soar fora do tom e da ordem na versão intitulada If you konw who you are, embora a letra em inglês seja respeitosa. Brejo da cruz (1984), que virou Swamp of the Cross, também perdeu parte de sua força neste disco produzido e arranjado por PH Castanheira (baixo, teclados e Hammond) com Ricardo Marins (guitarra, violão e Hammond). Assim como desaba a beleza harmônica de Morro Dois Irmãos (1989), apresentada como Two brothers hill. Em contrapartida, é impressionante como Deus lhe pague (1971) - vertida para o inglês com o título (May) God reward you - se enquadra com naturalidade na moldura do hard rock. A raiva embutida em seus versos já tem um peso todo próprio. No ano em que o Brasil celebra os 70 anos de vida do compositor, Sergio Vid expande o horizonte dessa obra ao abordar o cancioneiro de Chico Buarque sob um prisma realmente original.

ADEMAR AMANCIO disse...

O Chico Buarque cantado em inglês, é uma surpresa.Principalmente pra quem acha que sua obra musical só interessa aos brasileiros,pelo seu engajamento,ritmo e pela língua em si.

André Luís Bergamaschi disse...

Olá, Mauro! Você sabe onde é possível encontrar o álbum digital?

Mauro Ferreira disse...

oi, André, não. Na verdade, recebi uma cópia física (fabricada manualmente) da assessoria do Vid. Achei que o disco estivesse nas plataformas digitais habituais. Mas, pelo seu relato, não está. Abs, MauroF