Mauro Ferreira no G1

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domingo, 19 de junho de 2016

Musical navega em vários sentidos da obra de Gil no tempo e espaço cênicos

Resenha de musical de teatro
Título: Gilberto Gil - Aquele abraço - O musical - O poeta, a canção e o tempo
Dramaturgia e direção geral: Gustavo Gasparani
Músicas e letras: Gilberto Gil
Direção musical e arranjos: Nando Duarte
Elenco: Alan Rocha, Cristiano Gualda, Gabriel Manita, Daniel Carneiro, Jonas Hammar, Luiz 
             Nicolau, Rodrigo Lima e Pedro Lima (em foto de Ag. News)
Cotação: * * * *
Espetáculo em cartaz no Teatro Clara Nunes, no Rio de Janeiro (RJ), até 14 de agosto de 2016


Recém-estreado na cidade do Rio de Janeiro (RJ), após temporada em São Paulo (SP), o musical criado e dirigido por Gustavo Gasparani com base na obra de Gilberto Gil segue a fórmula vitoriosa de Samba futebol clube, espetáculo de 2014 que marcou golaço na cena carioca, arrebatando público, crítica e elevando a cotação de Gasparani na volátil bolsa do teatro. Com o mesmo elenco, diretor musical (Nando Duarte) e coreógrafo (Renato Vieira), Gasparani criou outro musical vivaz, de graciosa teatralidade, que navega em vários sentidos do cancioneiro plural do compositor baiano, reagrupando a longa obra por temas no tempo e no espaço cênicos. Tal vivacidade salta aos olhos e ouvidos já no primeiro número do espetáculo, De onde vem o baião? (Gilberto Gil, 1977). Gilberto Gil - Aquele abraço não se enquadra na moldura do musical biográfico. No bloco sertanejo, um dos primeiros quadros do espetáculo, ator travestido de retirante se refere nominalmente a Gil para deixar claro, no subtexto, que o painel cênico foi montado com signos ficcionais. A ideia foi mesmo reapresentar as canções do poeta na dimensão do tempo. Para tal, Gasparani se vale de um excepcional elenco - Alan Rocha, Cristiano Gualda, Gabriel Manita (ausente em cena por questões de saúde na apresentação vista pelo editor de Notas Musicais), Daniel Carneiro, Jonas Hammar, Luiz Nicolau, Rodrigo Lima e Pedro Lima - de atores que se revezam no papel de cantores, músicos e dançarinos, às vezes fazendo tudo ao mesmo tempo agora. A força do espetáculo reside na união do elenco. Mas brilhos individuais emanam em cena quando, por exemplo, Daniel Ribeiro sola Se eu quiser falar com Deus (Gilberto Gil, 1980), nu com a música e a guitarra. Contudo, é da coletividade que brotam instantes vigorosos na cena de Aquele abraço, espetáculo que costura números musicais com declamações de trechos de letras de músicas de Gil. Entoada à frente de painel que expõe fotos de militantes mortos pela ditadura militar instaurada em 1964, Cálice (Gilberto Gil e Chico Buarque, 1973) deixa em cena o gosto amargo da opressão. Há neste número a teatralidade que escasseia quando Cristiano Gualda sola a canção A linha e o linho (Gilberto Gil, 1983) e quando o musical entra na zona zen da obra de Gil, reverberando a filosofia zen-budista de canções como A paz (João Donato e Gilberto, 1987) e Esotérico (Gilberto Gil, 1976) em clima de um barzinho, um violão. Nessa zona zen, O seu amor (Gilberto Gil, 1976) ganha conotação explicitamente gay e política no duo terno entre os atores Daniel Carneiro e Jonas Hammar. A teatralidade vivaz é retomada no bloco que expõe a negritude e a fé da obra de Gil e, sobretudo, no quadro futurista em que Gasparani arma odisseia no espaço cênico para acentuar o sentido filosófico-cientifico-metafísico embutido em músicas como Raça humana (Gilberto Gil, 1984) e Parabolicamará (Gilberto Gil, 1992). Ainda nesse bloco, A gaivota - raro lado B da obra de Gil incluído no roteiro - alça voo no solo em que o ator Jonas Hammar, com figurino alado, evoca número feito pelo cantor Ney Matogrosso, intérprete original da canção, no show Bandido (1976). No todo bem feita, a costura do musical parece desalinhar quando o ator Cristiano Gualda discorre sobre impressões que teve sobre a obra de Gil no processo de criação do espetáculo. Sempre nos trilhos, a direção musical de Nando Duarte envolve Pai e mãe (Gilberto Gil, 1975) em ambiente seresteiro. Mais para o fim, Alan Rocha puxa o samba Aquele abraço (Gilberto Gil, 1969) no toque do cavaquinho, armando o clima festivo do fim do musical. Em Aquele abraço, a bola nem sempre rola redonda como no antológico Samba futebol clube (todos os textos que citam Gil embolam o meio de campo cênico), mas o resultado roça a excelência, deixando pairar, acima de tudo e de todos, a grandeza rítmica, melódica e poética da vasta obra de Gilberto Passos Gil Moreira, grande nome na arte da composição.

4 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Recém-estreado na cidade do Rio de Janeiro (RJ), após temporada em São Paulo (SP), o musical criado e dirigido por Gustavo Gasparani com base na obra de Gilberto Gil segue a fórmula vitoriosa de Samba futebol clube, espetáculo de 2014 que marcou golaço na cena carioca, arrebatando público, crítica e elevando a cotação de Gasparani na volátil bolsa do teatro. Com o mesmo elenco, diretor musical (Nando Duarte) e coreógrafo (Renato Vieira), Gasparani criou outro musical vivaz, de graciosa teatralidade, que navega em vários sentidos do cancioneiro plural do compositor baiano, reagrupando a longa obra por temas no tempo e no espaço cênicos. Tal vivacidade salta aos olhos e ouvidos já no primeiro número do espetáculo, De onde vem o baião? (Gilberto Gil, 1978). Gilberto Gil - Aquele abraço não se enquadra na moldura do musical biográfico. No bloco sertanejo, um dos primeiros quadros do espetáculo, ator travestido de retirante se refere nominalmente a Gil para deixar claro, no subtexto, que o painel cênico foi montado com signos ficcionais. A ideia foi mesmo reapresentar as canções do poeta na dimensão do tempo. Para tal, Gasparani se vale de um excepcional elenco - Alan Rocha, Cristiano Gualda, Gabriel Manita (ausente em cena por questões de saúde na apresentação vista pelo editor de Notas Musicais), Daniel Carneiro, Jonas Hammar, Luiz Nicolau, Rodrigo Lima e Pedro Lima - de atores que se revezam no papel de cantores, músicos e dançarinos, às vezes fazendo tudo ao mesmo tempo agora. A força do espetáculo reside na união do elenco. Mas brilhos individuais emanam em cena quando, por exemplo, Rodrigo Lima sola Se eu quiser falar com Deus (Gilberto Gil, 1980), nu com a música e a guitarra. Contudo, é da coletividade que brotam instantes vigorosos na cena de Aquele abraço, espetáculo que costura números musicais com declamações de trechos de letras de músicas de Gil. Entoada à frente de painel que expõe fotos de militantes mortos pela ditadura militar instaurada em 1964, Cálice (Gilberto Gil e Chico Buarque, 1973) deixa em cena o gosto amargo da opressão. Há neste número a teatralidade que escasseia quando Cristiano Gualda sola a canção A linha e o linho (Gilberto Gil, 1983) e quando o musical entra na zona zen da obra de Gil, reverberando a filosofia zen-budista de canções como A paz (João Donato e Gilberto, 1987) e Esotérico (Gilberto Gil, 1976) em clima de um barzinho, um violão. Nessa zona zen, O seu amor (Gilberto Gil, 1976) ganha conotação explicitamente gay e política no duo terno entre os atores Daniel Carneiro e Jonas Hammar. A teatralidade vivaz é retomada no bloco que expõe a negritude e a fé da obra de Gil e, sobretudo, no quadro futurista em que Gasparani arma odisseia no espaço cênico para acentuar o sentido filosófico-cientifico-metafísico embutido em músicas como Raça humana (Gilberto Gil, 1984) e Parabolicamará (Gilberto Gil, 1992). Ainda nesse bloco, A gaivota - raro lado B da obra de Gil incluído no roteiro - alça voo no solo em que o ator Jonas Hammar, com figurino alado, evoca número feito pelo cantor Ney Matogrosso, intérprete original da canção, no show Bandido (1976). No todo bem feita, a costura do musical parece desalinhar quando o ator Cristiano Gualda discorre sobre impressões que teve sobre a obra de Gil no processo de criação do espetáculo. Sempre nos trilhos, a direção musical de Nando Duarte envolve Pai e mãe (Gilberto Gil, 1975) em ambiente seresteiro. Mais para o fim, Alan Rocha puxa o samba Aquele abraço (Gilberto Gil, 1969) no toque do cavaquinho, armando o clima festivo do fim do musical. Em Aquele abraço, a bola nem sempre rola redonda como no antológico Samba futebol clube (todos os textos que citam Gil embolam o meio de campo cênico), mas o resultado roça a excelência, deixando pairar, acima de tudo e de todos, a grandeza rítmica, melódica e poética da vasta obra de Gilberto Passos Gil Moreira, grande nome na arte da composição.

maroca disse...

Augusto Flávio (Petrolina-Pe/Juazeiro-Ba)

A gravação original "De onde vem o baião?" é de Anastácia 1977 e não 1978 a qual Gal regravou.

Mauro Ferreira disse...

Tem razão, Augusto. Grato pelo toque. Abs, MauroF

Blog do Nicolau Copernico disse...

Obrigado pelas palavras Mauro!
Aquele abraço!
Luiz Nicolau