Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


sábado, 18 de junho de 2016

Entre altos e baixos, Dorina expõe a força poética dos sambas de Aldir Blanc

Resenha de show
Título: Sambas de Aldir e ouvir - 70 anos de Aldir Blanc
Artista: Dorina (em foto de Rodrigo Goffredo - https://www.instagram.com/rodrigogoffredo/)
Local: Teatro Ziembinski (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 16 de junho de 2016
Cotação: * * *

Em texto ouvido em off na abertura do show em que Dorina aborda os 70 anos de Aldir Blanc, o compositor carioca chama a cantora de "guerreira". Blanc sabe o que diz. Aos 20 anos de carreira fonográfica, iniciada com a edição de álbum que já demarcou no título o território musical da artista, Eu canto samba (Leblon Records, 1996), Dorina vem comendo pelas beiradas de um mercado fonográfico em decomposição. Caminhando pelas margens, a cantora fincou pé e nome no terreirão do samba. A ponto de o próprio Blanc estar finalizando com Moyseis Marques um samba, Pretinho básico, para essa antecipada celebração do 70º aniversário do compositor, a ser festejado somente em 2 de setembro deste ano de 2016. Pretinho básico vai entrar nas próximas apresentações de Sambas de Aldir e ouvir, show estreado por Dorina na noite de anteontem, 16 de junho de 2016, no Teatro Ziembinski, situado na Tijuca, bairro carioca que incorpora a Muda, espécie de sub-bairro que abriga Blanc há anos. Arquitetado sob direção artística de Édio Nunes, Sambas de Aldir e ouvir é o show mais refinado de Dorina no que fiz respeito à luz, cenografia (de Renata Sussekind) e figurino (dois, sendo que a mudança é feita no número instrumental em que a banda toca Choro pro Zé, tema de Guinga e Blanc lançado em 1993). A direção musical de Paulão Sete Cordas também contribui para enquadrar os sambas (e eventuais choros e boleros) em moldura correta no toque do trio que forma com o violonista Ramon Araújo e com o percussionista Rodrigo Reis. Se o show oscila, é por conta das ousadias estilísticas da cantora na construção e na interpretação de roteiro feito com pérolas raras pescadas no vasto baú do compositor. Abrir o show com o obscuro samba Cravo e ferradura (Cristóvão Bastos, Clarisse Grova e Aldir Blanc, 1997) - tema que lembra como a pátria pariu o samba - é como ler uma carta de princípios. Dorina canta samba. Ponto. Com tal conhecimento de causa, a sambista-guerreira desfila majestosa pela avenida melódica em que pisa O mestre-sala dos mares (João Bosco e Aldir Blanc, 1974), põe o bloco político na rua em Plataforma (João Bosco e Aldir Blanc, 1977) - número em que, na estreia, pediu a interação da plateia e acabou provocando um coro de "Fora, Temer" que tirou o foco do fim do show -  e fecha a roda com desenvoltura e samba no pé ao terminar o bis com Cabô, meu pai (Moacyr Luiz, Luiz Carlos da Vila e Aldir Blanc, 2003). Em contrapartida, Dorina ainda pode afiar o corte afetivo de Navalha (João Bosco e Aldir Blanc, 2009), pode fazer girar com mais força a crença valente de O cavaleiro e os moinhos (João Bosco e Aldir Blanc, 1975), pode acentuar o desvario de A louca (Maurício Tapajós e Aldir Blanc, 1984) - uma das maiores obscuridades do roteiro - e pode adensar mais Altos e baixos (Sueli Costa e Aldir Blanc, 1979), canção elevada aos céus e infernos do amor na voz soberana de Elis Regina (1945 - 1982). Dorina canta Aldir sem seguir os caminhos mais fáceis. Ao contrário, aposta em músicas já associadas a grandes cantoras como Elis e Nana Caymmi, intérprete original do mediano bolero Suave veneno (Cristóvão Bastos e Aldir Blanc, 1999), gravado por Nana para a abertura da homônima novela da TV Globo e ora revivido por Dorina sem sabor especial. Ao se recusar ao dar voz a um best of do cancioneiro de Blanc, Dorina paga o preço de ver o show Sambas de Aldir e ouvir oscilar na medida da popularidade dos sambas e do acerto das interpretações. É claro que a comunicação com a plateia se estabelece de forma mais fácil quando Dorina canta dois sambas populares lançados na voz de Simone, De frente pro crime (João Bosco e Aldir Blanc, 1974) e O ronco da cuíca (João Bosco e Aldir Blanc, 1975). Entrecortado por textos ditos por Blanc e ouvidos em off, alguns espirituosos como o texto em que o poeta versa sobre a Tijuca e o tijucano, o roteiro do show Sambas de Aldir e ouvir é valente como a sambista-guerreira, saudando Nelson Sargento em Flores em vida (Moacyr Luz e Aldir Blanc, 1995) e reverenciando a Serrinha no feitio de oração de Imperial (Wilson das Neves e Aldir Blanc, 2004). No pique veloz de Mandingueiro (Moacyr Luz e Aldir Blanc, 1992), Dorina mostra que está em cena para valorizar a brasilidade da obra de Aldir Blanc. Nesse sentido, o show cumpre o objetivo. Entre altos e baixos de melodias e interpretações, a cantora expõe a inabalável força poética dos versos dos sambas de Aldir.

7 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Em texto ouvido em off na abertura do show em que Dorina aborda os 70 anos de Aldir Blanc, o compositor carioca chama a cantora de "guerreira". Blanc sabe o que diz. Aos 20 anos de carreira fonográfica, iniciada com a edição de álbum que já demarcou no título o território musical da artista, Eu canto samba (Leblon Records, 1996), Dorina vem comendo pelas beiradas de um mercado fonográfico em decomposição. Caminhando pelas margens, a cantora fincou pé e nome no terreirão do samba. A ponto de o próprio Blanc estar finalizando com Moyseis Marques um samba, Pretinho básico, para essa antecipada celebração do 70º aniversário do compositor, a ser festejado somente em 2 de setembro deste ano de 2016. Pretinho básico vai entrar nas próximas apresentações de Sambas de Aldir e ouvir, show estreado por Dorina na noite de anteontem, 16 de junho de 2016, no Teatro Ziembinski, situado na Tijuca, bairro carioca que incorpora a Muda, espécie de sub-bairro que abriga Blanc há anos. Arquitetado sob direção artística de Édio Nunes, Sambas de Aldir e ouvir é o show mais refinado de Dorina no que fiz respeito à luz, cenografia (de Renata Sussekind) e figurino (dois, sendo que a mudança é feita no número instrumental em que a banda toca Choro pro Zé, tema de Guinga e Blanc lançado em 1993). A direção musical de Paulão Sete Cordas também contribui para enquadrar os sambas (e eventuais choros e boleros) em moldura correta no toque do trio que forma com o violonista Ramon Araújo e com o percussionista Rodrigo Reis. Se o show oscila, é por conta das ousadias estilísticas da cantora na construção e na interpretação de roteiro feito com pérolas raras pescadas no vasto baú do compositor. Abrir o show com o obscuro samba Cravo e ferradura (Cristóvão Bastos, Clarisse Grova e Aldir Blanc, 1997) - tema que lembra como a pátria pariu o samba - é como ler uma carta de princípios. Dorina canta samba. Ponto. Com tal conhecimento de causa, a sambista-guerreira desfila majestosa pela avenida melódica em que pisa O mestre-sala dos mares (João Bosco e Aldir Blanc, 1974), põe o bloco político na rua em Plataforma (João Bosco e Aldir Blanc, 1977) - número em que, na estreia, pediu a interação da plateia e acabou provocando um coro de "Fora, Temer" que tirou o foco do fim do show - e fecha a roda com desenvoltura e samba no pé ao terminar o bis com Cabô, meu pai (Moacyr Luiz, Luiz Carlos da Vila e Aldir Blanc, 2003). Em contrapartida, Dorina ainda pode afiar o corte afetivo de Navalha (João Bosco e Aldir Blanc, 2009), pode fazer girar com mais força a crença valente de O cavaleiro e os moinhos (João Bosco e Aldir Blanc, 1975), pode acentuar o desvario de A louca (Maurício Tapajós e Aldir Blanc, 1984) - uma das maiores obscuridades do roteiro - e pode adensar mais Altos e baixos (Sueli Costa e Aldir Blanc, 1979), canção elevada aos céus e infernos do amor na voz soberana de Elis Regina (1945 - 1982). Dorina canta Aldir sem seguir os caminhos mais fáceis. Ao contrário, aposta em músicas já associadas a grandes cantoras como Elis e Nana Caymmi, intérprete original do mediano bolero Suave veneno (Cristóvão Bastos e Aldir Blanc, 1999), gravado por Nana para a abertura da homônima novela da TV Globo e ora revivido por Dorina sem sabor especial.

Mauro Ferreira disse...

Ao se recusar ao dar voz a um best of do cancioneiro de Blanc, Dorina paga o preço de ver o show Sambas de Aldir e ouvir oscilar na medida da popularidade dos sambas e do acerto das interpretações. É claro que a comunicação com a plateia se estabelece de forma mais fácil quando Dorina canta dois sambas populares lançados na voz de Simone, De frente pro crime (João Bosco e Aldir Blanc, 1974) e O ronco da cuíca (João Bosco e Aldir Blanc, 1975). Entrecortado por textos ditos por Blanc e ouvidos em off, alguns espirituosos como o texto em que o poeta versa sobre a Tijuca e o tijucano, o roteiro do show Sambas de Aldir e ouvir é valente como a sambista-guerreira, saudando Nelson Sargento em Flores em vida (Moacyr Luz e Aldir Blanc, 1995) e reverenciando a Serrinha no feitio de oração de Imperial (Wilson das Neves e Aldir Blanc, 2004). No pique veloz de Mandingueiro (Moacyr Luz e Aldir Blanc, 1992), Dorina mostra que está em cena para valorizar a brasilidade da obra de Aldir Blanc. Nesse sentido, o show cumpre o objetivo. Entre altos e baixos de melodias e interpretações, a cantora expõe a inabalável força poética dos versos dos sambas de Aldir.

Bia disse...

Fui na sexta feira com mais cinco amigos e todos amamos o show. Navalha pra mim, discordando, foi um dos pontos altos do show, assim como achou meu grupo de amigos... o show como um todo é bem emocionante e não só pelas letras brilhantes de Aldir, mas também pela força da interpretação de Dorina. Mestre sala dos mares foi outro Grande momento. A moça é ousada e foi ovacionada pelo público ao final da canção. Que interpretação!!!

Marisa Silva disse...

Fui ao show de abertura e senti uma emoção enorme ao ouvir Dorina cantar sambas que eu desconhecia de Aldir. Pegando carona em seu comentário "Dorina canta Aldir sem seguir os caminhos mais fáceis" e talvez,por isso, ou justamente por isso, o que aparentemente pode ser chamado de "oscilação" , eu chamaria de "ousadia " e até mesmo de "coragem".
E não tenho dúvidas da potência do show, que com certeza vai encantar muitos palcos e corações e o que vi em cena, foi uma cantora entregue e intensa em cada nota, cada melodia. Amei!

ADEMAR AMANCIO disse...

Adoro Aldir,mas o show devia se chamar 'Nem tudo é samba'.

Thiago Miranda disse...

Dorina é força genuína! É a voz feminina do samba! Aldir um dos mais brilhantes poetas que esse país já teve! Quero muito ver esse show!

Marisa Santana disse...

Dorina canta com sentimento, com alma, ninguém sai igual depois de ouvi-la e nem ileso a essa sensibilidade. Ouvir Dorina nos torna mais humanos...