Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


quinta-feira, 16 de junho de 2016

'Hóspede da natureza' abriga a obra humanista de Cátia entre campo e cidade

Resenha de álbum
Título: Hóspede da natureza
Artista: Cátia de França
Gravadora: Porangareté
Cotação: * * * 1/2

"Não há honra que não caia debaixo da tamarineira", sentencia Cátia de França, no tom veloz e sagaz dos cantadores nordestinos. O verso-sentença é dado em Debaixo da tamarineira (Cátia de França), repente que se transforma em aboio, desembocando em Ô, Mateu (Cátia de França), tema lúdico gravado com a captação de vozes de quatro crianças. As duas músicas estão unidas em faixa de Hóspede da natureza, sexto álbum da espaçada discografia da cantora, compositora e multi-instrumentista paraibana Cátia de França. O disco vai chegar ao mercado fonográfico no segundo semestre deste ano de 2016 em edição do selo Porangareté viabilizada por patrocínio obtido no projeto Natura musical. Produzido por Rodrigo Garcia, Hóspede da natureza sucede No bagaço da cana / Um Brasil adormecido (Independente, 2012) na obra fonográfica da artista. Contudo, se levada em conta a ordem de gestação e feitura, Hóspede de natureza seria a rigor o quinto álbum da artista, pois foi gravado entre dezembro de 2005 e fevereiro de 2006 no estúdio Luperan, situado em São Pedro da Serra, em Nova Friburgo (RJ). Hóspede da natureza abriga o discurso humanista de Cátia de França, cantora e compositora que despontou no mercado fonográfico há 37 anos com a edição do álbum 20 palavras ao redor do sol (Epic / CBS, 1979). As letras geralmente imagéticas transitam entre áreas rurais e urbanas. Se Rio Capibaribe (Cátia de França) - tema levado nas flautas arranjadas por Marcelo Bernardes - louva as águas pernambucanas que são fonte de trabalho e lazer, Tramas da cidade (Cátia de França) é protesto - feito no toque bluesy da guitarra de Walter Villaça - contra a automação do bicho homem nas metrópoles. Hóspede da natureza oscila entre o campo e a cidade com a força de um discurso que se sobrepõe ao próprio canto rústico da artista. Situada na selva das cidades, Rua do Ouvidor (Cátia de França) soa como brisa leve soprada pela chegada do amor e pelos sopros serenos do arranjo de Mariana Bernardes e Marcelo Bernardes. Ainda dentro do formato urbano, Evidências (Cátia de França e Mônica Dantas) discorre sobre um amor que ainda resta, em clima de fim de festa. Em área rural, Grandezas pantaneiras (Sombra boa) louva a vida nas matas do Centro do Brasil com letra escrita por Cátia de França a partir de obras do poeta mato-grossense Manoel de Barros (1916 - 2014). Já Luvana (Cátia de França) - tema sem letra, cantado pela artista com vocalises - evoca toda uma ancestralidade negra no toque dos tambores e no ritmo marcado pelas palmas de Alessandra Monteiro e Reinaldo Queiroz. Atualmente com 68 anos, a artista - nascida em dezembro de 1947, em João Pessoa (PB) - começou a gravar o álbum em dezembro de 2005, mês em que completava 58 anos. A voz já soa mais rudimentar, por vezes mais frágil. Mas Cátia de França tem o que dizer através da música. E diz. "Todo tempo é ouro / A hora é sagrada", avisa em Lagarto ao sol (Cátia de França), música calorosa - repleta de latinidade sul-americana no arranjo criado por Rodrigo Garcia com base em toque de violões - em que a artista presta homenagem à obra do conterrâneo Zé Ramalho. A origem nordestina da valente paraibana também salta aos ouvidos no passo agalopado de Minha vida é uma rede (Cátia de França, 1985), música gravada com o triângulo percutido pela própria Cátia de França e encorpada com os vocais do quarteto feminino formado por Alessandra Monteiro, Júlia Vargas, Juliana Linhares e Mariana Bernardes. Minha vida é uma rede é composição lançada originalmente pela autora em álbum pouco ouvido, Feliz demais (Continental, 1985), disco do qual Hóspede da natureza também rebobina - com o toque afro da percussão tocada por Lan Lan e pela própria Cátia de França - Geração (Cátia de França, 1985). Entretanto, o repertório inteiramente autoral é majoritariamente inédito e apresenta parceria da compositora com Júlio Sortica, poeta andarilho de quem a artista musicou os versos de Pra doer após encontro casual na calçada de uma grande cidade. "Deixe qualquer coisa antes de bater a porta / Talvez um resto de perfume / Para enlouquecer essa sala / Aquele seu jeito de dobrar roupa na mala", canta Cátia de França com boa dose de urbanidade na faixa conduzida pela guitarra de Walter Villaça. Gaivota (Cátia de França) voa mais leve no disco, em clima marítimo, com sons de mar embutidos na faixa. E Trator (Cátia de França) passa por cima de qualquer artifício, no toque do tambor, para conduzir o ouvinte somente à voz da cantora, ouvida sem acompanhamento instrumental em As águas que correram dos meus oió (Cátia de França), tema acoplado a Trator na arquitetura do álbum. Mesmo sem arrebatar, Hóspede da natureza expõe a coerência que habita a obra ainda relevante de Cátia de França, compositora humanista que sobrevive na selva das cidades com música envolvida em belezas naturais.

6 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ "Não há honra que não caia debaixo da tamarineira", sentencia Cátia de França, no tom veloz e sagaz dos cantadores nordestinos. O verso-sentença é dado em Debaixo da tamarineira (Cátia de França), repente que se transforma em aboio, desembocando em Ô, Mateu (Cátia de França), tema lúdico gravado com a captação de vozes de quatro crianças. As duas músicas estão unidas em faixa de Hóspede da natureza, sexto álbum da espaçada discografia da cantora, compositora e multi-instrumentista paraibana Cátia de França. O disco vai chegar ao mercado fonográfico no segundo semestre deste ano de 2016 em edição do selo Porangareté viabilizada por patrocínio obtido no projeto Natura musical. Produzido por Rodrigo Garcia, Hóspede da natureza sucede No bagaço da cana / Um Brasil adormecido (Independente, 2012) na obra fonográfica da artista. Contudo, se levada em conta a ordem de gestação e feitura, Hóspede de natureza seria a rigor o quinto álbum da artista, pois foi gravado entre dezembro de 2005 e fevereiro de 2006 no estúdio Luperan, situado em São Pedro da Serra, em Nova Friburgo (RJ). Hóspede da natureza abriga o discurso humanista de Cátia de França, cantora e compositora que despontou no mercado fonográfico há 37 anos com a edição do álbum 20 palavras ao redor do sol (Epic / CBS, 1979). As letras geralmente imagéticas transitam entre áreas rurais e urbanas. Se Rio Capibaribe (Cátia de França) - tema levado nas flautas arranjadas por Marcelo Bernardes - louva as águas pernambucanas que são fonte de trabalho e lazer, Tramas da cidade (Cátia de França) é protesto - feito no toque bluesy da guitarra de Walter Villaça - contra a automação do bicho homem nas metrópoles. Hóspede da natureza oscila entre o campo e a cidade com a força de um discurso que se sobrepõe ao próprio canto rústico da artista. Situada na selva das cidades, Rua do Ouvidor (Cátia de França) soa como brisa leve soprada pela chegada do amor e pelos sopros serenos do arranjo de Mariana Bernardes e Marcelo Bernardes. Ainda dentro do formato urbano, Evidências (Cátia de França e Mônica Dantas) discorre sobre um amor que ainda resta, em clima de fim de festa. Em área rural, Grandezas pantaneiras (Sombra boa) louva a vida nas matas do Centro do Brasil com letra escrita por Cátia de França a partir de obras do poeta mato-grossense Manoel de Barros (1916 - 2014). Já Luvana (Cátia de França) - tema sem letra, cantado pela artista com vocalises - evoca toda uma ancestralidade negra no toque dos tambores e no ritmo marcado pelas palmas de Alessandra Monteiro e Reinaldo Queiroz. Atualmente com 68 anos, a artista - nascida em dezembro de 1947, em João Pessoa (PB) - começou a gravar o álbum em dezembro de 2005, mês em que completava 58 anos. A voz já soa mais rudimentar, por vezes mais frágil. Mas Cátia de França tem o que dizer através da música. E diz. "Todo tempo é ouro / A hora é sagrada", avisa em Lagarto ao sol (Cátia de França), música calorosa - repleta de latinidade sul-americana no arranjo criado por Rodrigo Garcia com base em toque de violões - em que a artista presta homenagem à obra do conterrâneo Zé Ramalho. A origem nordestina da valente paraibana também salta aos ouvidos no passo agalopado de Minha vida é uma rede (Cátia de França, 1985), música gravada com o triângulo percutido pela própria Cátia de França e encorpada com os vocais do quarteto feminino formado por Alessandra Monteiro, Júlia Vargas, Juliana Linhares e Mariana Bernardes.

Mauro Ferreira disse...

Minha vida é uma rede é composição lançada originalmente pela autora em álbum pouco ouvido, Feliz demais (Continental, 1985), disco do qual Hóspede da natureza também rebobina - com o toque afro da percussão tocada por Lan Lan e pela própria Cátia de França - Geração (Cátia de França, 1985). Entretanto, o repertório inteiramente autoral é majoritariamente inédito e apresenta parceria da compositora com Júlio Sortica, poeta andarilho de quem a artista musicou os versos de Pra doer após encontro casual na calçada de uma grande cidade. "Deixe qualquer coisa antes de bater a porta / Talvez um resto de perfume / Para enlouquecer essa sala / Aquele seu jeito de dobrar roupa na mala", canta Cátia de França com boa dose de urbanidade na faixa conduzida pela guitarra de Walter Villaça. Gaivota (Cátia de França) voa mais leve no disco, em clima marítimo, com sons de mar embutidos na faixa. E Trator (Cátia de França) passa por cima de qualquer artifício, no toque do tambor, para conduzir o ouvinte somente à voz da cantora, ouvida sem acompanhamento instrumental em As águas que correram dos meus oió (Cátia de França), tema acoplado a Trator na arquitetura do álbum. Mesmo sem arrebatar, Hóspede da natureza expõe a coerência que habita a obra ainda relevante de Cátia de França, compositora humanista que sobrevive na selva das cidades com música envolvida em belezas naturais.

Mauro Silva disse...


Curioso por este novo trabalho!

A Cátia de França é ótima, tomara que as gravadoras remasterizem EM CD, seus primeiros trabalhos, que são incríveis !

Rafael M. disse...

Que notícia ótima... Adoro a Cátia, e desde já quero ouvir este teu novo trabalho...

Wagner Hardman Lima disse...

Adoro Catita. O Hóspede do Tempo já era conhecido por aqui por conta de uma gravação artesanal há uns tempos. Com todo aparato tem como ficar tão lindo quanto o quarto disco dela de carreira e primeiro CD, o 'Avatar' de 1997 pela gravadora Acácias todo inspirado na obra de Manoel de Barros. Uma obra-prima. Ansioso mesmo eu to pelo Barruada, encontro dela e da cantora e compositora paraibana Val Donato (radicada em SP) que preveem a gravação do show que elas já vem fazendo pela Paraíba esporadicamente há mais de um ano. Boa, boa, boa notícia!

Rafael M. disse...

Descobri a relação de faixas do disco... Segue abaixo:

Cátia de França

Álbum: "Hóspede da Natureza" (2016)

Gravadora: Porangareté

1. Hóspede da Natureza (Cátia de França)
2. Minha Vida É Uma Rede (Cátia de França)
3. Lagarto Ao Sol (Cátia de França)
4. Geração (Cátia de França)
5. Gaivota (Cátia de França)
6. Pra Doer (Cátia de França/Júlio Sortica)
7. Evidências (Cátia de França/Mônica Dantas)
8. Tramas da Cidade (Cátia de França)
9. Rua do Ouvidor (Cátia de França)
10. Rio Capibaribe (Cátia de França)
11. Luvana (Cátia de França)
12. Debaixo da Tamarineira (Cátia de França)
-Ô, Mateu (Cátia de França)
13. Trator (Cátia de França)
-AS Águas Que Correram dos Meus Óio (Cátia de França)
14. Sombra Boa (Cátia de França/Manoel de Barros)