Mauro Ferreira no G1

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sábado, 12 de março de 2016

Disco de universo paralelo põe Lobão entre rigor político e auto-misericórdia

Resenha de álbum
Título: O rigor e a misericórdia
Artista: Lobão
Gravadora: Independente / Tratore (distribuição)
Cotação: * * *

Lobão alinha 14 canções autorais feitas dentro da noite escura no 17º álbum da carreira, O rigor e a misericórdia, cuja edição física em CD está sendo posta nas lojas neste mês de março de 2016 com distribuição da Tratore. Por noite escura, entenda-se um universo interior - solitário pela própria natureza da alma humana - em que o disco foi criado em processo recluso no estúdio caseiro do artista carioca no Sumaré, bairro da cidade de São Paulo (SP). É nesse universo paralelo que Lobão alterna músicas em que vocifera contra os políticos - caso da Marcha dos infames, conduzida em apropriada batida marcial - com composições feitas de reais emoções pessoais, como Ação fantasmagórica à distância, póstumo acerto de contas com o pai. Disponível nas plataformas digitais desde 1º de janeiro deste ano de 2016, O rigor e a misericórdia é álbum extremamente pessoal, mas não íntimo, como sinaliza na abertura Overture, tema instrumental urdido com sintetizadas cordas de aura sinfônica. O disco por vezes é pautado pela inspiração do rock da década de 1970. Basta ouvir Os vulneráveis e Dilacerar para perceber a veia do rock pulsando forte na veia do velho Lobo. Contudo, O rigor e a misericórdia alcança pico de beleza numa canção entoada em espanhol, O que es la soledade en sermos nosostros, uma das mais belas baladas da lavra do artista de alma roqueira. "...O medo do silêncio é a lembrança de ser só", sentencia Lobão em verso do refrão dessa canção em espanhol. No processo solitário de criação deste álbum, Lobão encarou silêncios e a lembrança de Alguma coisa qualquer, feita para Cássia Eller (1962 - 2001), mas nunca gravada pela cantora carioca. Em O rigor e a misericórdia, Lobão enfim registra esta música que fica entre o rock e a balada com toque bluesy - e que realmente parece talhada para a voz visceral de Cássia. No todo, o disco situa Lobão entre o rigor político de temas como A posse dos impostores - faixa que se refere ao governo do PT e que reaviva tradição em discografia de artista que já afiou as garras contra políticos de outros partidos em músicas como O eleito (Lobão e Bernardo Vilhena, 1988) e Presidente Mauricinho (Lobão e Tavinho Paes, 1991), petardos disparados contra os então presidentes José Sarney e Fernando Collor, respectivamente - e a auto-misericórdia que parece ter guiado a criação do disco. Como mostrou o relato da gestação do álbum, feito por Lobão no livro Entre o rigor e a misericórdia - Reflexões de um ermitão urbano (Record, 2015),  o artista tem paixão desmedida pelas músicas que criou ao longo do disco. Nem todas fazem jus a tanta paixão. Mesmo com inspiração pinkfloydiana, Profunda e deslumbrante como o sol parece fazer sentido somente no universo particular e peculiar habitado por Lobão. Em contrapartida, Uma ilha na lua é canção de amor e vocação popular, conduzida pelo violão e por sons cortantes (bem) tirados de um sintetizador. De todo modo, o álbum O rigor e a misericórdia transborda emoções reais em canções como A esperança é a praia de um outro mar, nascida da dor da perda de uma cunhada do artista. Dilacerante solo de guitarra de João Puig - filho de Mônica, a cunhada que inspirou a composição - valoriza a faixa, a única que tem sons não tocados pelo próprio Lobão, ermitão urbano que desperta amores e ódios por conta do discurso apaixonado feito na vida e na música ouvida em  O rigor e a misericórdia, álbum criado em universo paralelo.

4 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Lobão alinha 14 canções autorais feitas dentro da noite escura no 17º álbum da carreira, O rigor e a misericórdia, cuja edição física em CD está sendo posta nas lojas neste mês de março de 2016 com distribuição da Tratore. Por noite escura, entenda-se um universo interior - solitário pela própria natureza da alma humana - em que o disco foi criado em processo recluso no estúdio caseiro do artista carioca no Sumaré, bairro da cidade de São Paulo (SP). É nesse universo paralelo que Lobão alterna músicas em que vocifera contra os políticos - caso da Marcha dos infames, conduzida em apropriada batida marcial - com composições feitas de reais emoções pessoais, como Ação fantasmagórica à distância, póstumo acerto de contas com o pai. Disponível nas plataformas digitais desde 1º de janeiro deste ano de 2016, O rigor e a misericórdia é álbum extremamente pessoal, mas não íntimo, como sinaliza na abertura Overture, tema instrumental urdido com sintetizadas cordas de aura sinfônica. O disco por vezes é pautado pela inspiração do rock da década de 1970. Basta ouvir Os vulneráveis e Dilacerar para perceber a veia do rock pulsando forte na veia do velho Lobo. Contudo, O rigor e a misericórdia alcança pico de beleza numa canção entoada em espanhol, O que es la soledade en sermos nosostros, uma das mais belas baladas da lavra do artista de alma roqueira. "...O medo do silêncio é a lembrança de ser só", sentencia Lobão em verso do refrão dessa canção em espanhol. No processo solitário de criação deste álbum, Lobão encarou silêncios e a lembrança de Alguma coisa qualquer, feita para Cássia Eller (1962 - 2001), mas nunca gravada pela cantora carioca. Em O rigor e a misericórdia, Lobão enfim registra esta música que fica entre o rock e a balada com toque bluesy - e que realmente parece talhada para a voz visceral de Cássia. No todo, o disco situa Lobão entre o rigor político de temas como A posse dos impostores - faixa que se refere ao governo do PT e que reaviva tradição em discografia de artista que já afiou as garras contra políticos de outros partidos em músicas como O eleito (Lobão e Bernardo Vilhena, 1988) e Presidente Mauricinho (Lobão e Tavinho Paes, 1991), petardos disparados contra os então presidentes José Sarney e Fernando Collor, respectivamente - e a auto-misericórdia que parece ter guiado a criação do disco. Como mostrou o relato da gestação do álbum, feito por Lobão no livro Entre o rigor e a misericórdia - Reflexões de um ermitão urbano (Record, 2015), o artista tem paixão desmedida pelas músicas que criou ao longo do disco. Nem todas fazem jus a tanta paixão. Mesmo com inspiração pinkfloydiana, Profunda e deslumbrante como o sol parece fazer sentido somente no universo particular e peculiar habitado por Lobão. Em contrapartida, Uma ilha na lua é canção de amor e vocação popular, conduzida pelo violão e por sons cortantes (bem) tirados de um sintetizador. De todo modo, o álbum O rigor e a misericórdia transborda emoções reais em canções como A esperança é a praia de um outro mar, nascida da dor da perda de uma cunhada do artista. Dilacerante solo de guitarra de João Puig - filho de Mônica, a cunhada que inspirou a composição - valoriza a faixa, a única que tem sons não tocados pelo próprio Lobão, ermitão urbano que desperta amores e ódios por conta do discurso apaixonado feito na vida e na música ouvida em O rigor e a misericórdia, álbum criado em universo paralelo.

italo vinicius disse...

eu recebi o áudio das musicas desde o começo do ano pois participei do kikante,
considero um bom álbum, mais uma coisa tenho que falar a qualidade do som é imensa coisa difícil de ver em outros discos por ai, fato o tal também conseguido no ao vivo de 2012 que tbn tem qualidade de vídeo imensa, uma ressalva pra mim ele tinha que deixar um pouco esse lance politico de lado ou melhor dizendo separar um pouco as coisas, Mais queria sim parabenizá-lo Pois é um dos poucos que faz rock no brasil com paudurecencia mesmo, com sangue na veia e nos olhos, e faz isso tudo e bem dizer SOZINHO né. Salve Lobão

Luca disse...

esse álbum tem faixas que se salvam mas não me convenceu, sei lá, não desceu bem

Bernardo Barroso Neto disse...

Eu gostei do cd. Podem criticar o Lobão por não concordarem com suas posições políticas mas é inegável que ele continua fazendo grandes músicas num nível melhor do que muitos outros no Brasil hoje em dia. O cd está muto bom, rock and roll de verdade.