Mauro Ferreira no G1

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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Mundo de Tatit renasce com palavras picadas no som do sexto CD do artista

Resenha de álbum
Título: Palavras e sonhos
Artista: Luiz Tatit
Gravadora: Dabliú Discos
Cotação: * * * 1/2

A inédita música autoral que dá título ao sexto álbum solo de Luiz Tatit, Palavras e sonhos, embute a senha para a decodificação de universo particular que renasce neste disco do cantor e compositor paulistano, projetado no Grupo Rumo no início da década de 1980. É tateando a musicalidade das palavras que Tatit parte para a construção de obra musical que conserva frescor no álbum produzido por Jonas Tatit - filho do artista - e posto no mercado fonográfico neste mês de fevereiro de 2016 pela Dabliú Discos, gravadora tão identificada com a produção musical da cidade de São Paulo (SP) quanto o cancioneiro do artista. "Uso palavras picadas no som", admite o artesão linguístico em Palavras e sonhos (Luiz Tatit, 2016), a última das 13 músicas do álbum. Fiel a si mesmo, sem querer mudar o rumo da música que produz há quatro décadas, Tatit reitera o estilo próprio. A safra - composta por músicas feitas por Tatit após o lançamento do último álbum solo, Sem destino (Dabliú Discos, 2010), lançado há seis anos - é interessante. Mais útil (Luiz Tatit, 2016) é uma das pérolas para quem gosta de tatiar. Um verso vai levando naturalmente ao outro em encandeamento que conduz à oposição dos universos existenciais de Palmira, a que suspira com a mente coberta por nuvem negra, e de Elvira, a que inspira, com ações e visões positivas diante da existência. "É mais útil se inspirar", receita Tatit, ao toque do próprio violão e da sanfona de Gabriel Levy em arranjo que se alterna entre o universo urbano e o mundo caipira que Tristeza do Zé (José Miguel Wisnik e Luiz Tatit, 2011) evoca diretamente tanto pela alusão no título ao seminal clássico sertanejo Tristeza do Jeca (Angelino Oliveira, 1924) quanto pela disposição das vozes de Tatit e Juçara Marçal, convidada para fazer a segunda voz deste tema segue a toada moderna da obra do parceiro José Miguel Wisnik. Música escolhida para ser o primeiro single (já disponível nas plataformas digitais desde janeiro), Diva Silva Reis (Luiz Tatit, 2016) é bafejada com leve sopro pop por conta do refrão bem delineado na gravação e dos metais orquestrados por Gabriel Milliet. Na letra, Tatit perfila a personagem-título de caráter ambíguo com o mundo surreal delineado pelo compositor em Feitiço da fila (Luiz Tatit, 2015). Novamente com o toque ruralista da sanfona de Gabriel Levy, Tatit inventaria amores e dores provocadas por mulheres com nomes de flores em Das flores e das dores (Emerson Leal e Luiz Tatit, 2012), música já gravada pelo parceiro baiano do compositor no tema, Emerson Leal. Já Musa da música (Dante Ozzetti e Luiz Tatit, 2013) - composição já registrada pela voz límpida da cantora e compositora Ná Ozzetti - se ajusta bem ao fraseado vocal do autor dos versos. O vocal de Juçara Marçal evoca a mãe África citada no refrão e representada também pela vigorosa voz da cantora moçambiquense Lenna Bahule, presença recorrente ao longo do disco, mas especialmente destacada nesta faixa bem marcada pelo ritmo da bateria de Sérgio Reze. Já Musa cruza (Luiz Tatit, 2016) se diferencia pela disposição inusual das cordas orquestradas por Fábio Tagliaferri enquanto a balada Estrela cruel ilumina a conexão de Tatit com o sempre inspirado Marcelo Jeneci, coautor e convidado do tema, gravado somente com a voz de Jeneci (extremamente grave, quase soturna, na primeira parte da música), a voz de Tatit e o piano tocado pelo próprio Jeneci. Cantados no fim a duas vozes, os versos poéticos da balada sinalizam mundo musical distante da prosódia experimentada por Tatit desde os tempos do Grupo Rumo, evocados na dicotomia entre sim e não exposta nos versos de Do meu jeito (Vanessa Bumagny e Luiz Tatit, 2014). O renascido mundo de Tatit parece evocar outra galáxia, de atmosfera onírica, em Planeta e borboleta (Luiz Tatit, 2016), faixa solada pelas vozes de Ná Ozzetti. Sim, vozes. A cantora se desdobra no canto desta que é uma das músicas mais belas do disco. Matusalém (Arthur Nestrovsky e Luiz Tatit, 2016) faz ode à vida, reiterada pela sede de viver que arde em Quantos desejos (Luiz Tatit, 2015), música menor do que a gana posta nos versos. Enfim, sem querer impressionar e ser muderno, Luiz Tatit apresenta Palavras e sonhos com a coerência que rege obra pavimentada com versos picados no som. A música está a serviço das palavras e dos sonhos embutidos nessas palavras cheias de som e de vida.

3 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ A inédita música autoral que dá título ao sexto álbum solo de Luiz Tatit, Palavras e sonhos, embute a senha para a decodificação do mundo musical que renasce neste disco do cantor e compositor paulistano, projetado no Grupo Rumo no início da década de 1980. É tateando a musicalidade das palavras que Tatit parte para a construção de obra musical que conserva frescor no álbum produzido por Jonas Tatit - filho do artista - e posto no mercado fonográfico neste mês de fevereiro de 2016 pela Dabliú Discos, gravadora tão identificada com a produção musical da cidade de São Paulo (SP) quanto o cancioneiro do artista. "Uso palavras picadas no som", admite o artesão linguístico em Palavras e sonhos (Luiz Tatit, 2016), a última das 13 músicas do álbum. Fiel a si mesmo, sem querer mudar o rumo da música que produz há quatro décadas, Tatit reitera o estilo próprio. A safra - composta por músicas feitas por Tatit após o lançamento do último álbum solo, Sem destino (Dabliú Discos, 2010), lançado há seis anos - é interessante. Mais útil (Luiz Tatit, 2016) é uma das pérolas para quem gosta de tatiar. Um verso vai levando naturalmente ao outro em encandeamento que conduz à oposição dos universos existenciais de Palmira, a que suspira com a mente coberta por nuvem negra, e de Elvira, a que inspira, com ações e visões positivas diante da existência. "É mais útil se inspirar", receita Tatit, ao toque do próprio violão e da sanfona de Gabriel Levy em arranjo que se alterna entre o universo urbano e o mundo caipira que Tristeza do Zé (José Miguel Wisnik e Luiz Tatit, 2011) evoca diretamente tanto pela alusão no título ao seminal clássico sertanejo Tristeza do Jeca (Angelino Oliveira, 1924) quanto pela disposição das vozes de Tatit e Juçara Marçal, convidada para fazer a segunda voz deste tema segue a toada moderna da obra do parceiro José Miguel Wisnik. Música escolhida para ser o primeiro single (já disponível nas plataformas digitais desde janeiro), Diva Santos Flores (Luiz Tatit, 2016) tem leve sopro pop por conta do refrão bem delineado na gravação e dos metais orquestrados por Gabriel Milliet. Na letra, Tatit perfila a personagem-título de caráter ambíguo com o mundo surreal delineado pelo compositor em Feitiço da fila (Luiz Tatit, 2015). Novamente com o toque ruralista da sanfona de Gabriel Levy, Tatit inventaria amores e dores provocadas por mulheres com nomes de flores em Das flores e das dores (Emerson Leal e Luiz Tatit, 2012), música já gravada pelo parceiro baiano do compositor no tema, Emerson Leal.

Mauro Ferreira disse...

Já Musa da música (Dante Ozzetti e Luiz Tatit, 2013) - composição já registrada pela voz límpida da cantora e compositora Ná Ozzetti - se ajusta bem ao fraseado vocal do autor dos versos. O vocal de Juçara Marçal evoca a mãe África citada no refrão e representada também pela vigorosa voz da cantora moçambiquense Lenna Bahule, presença recorrente ao longo do disco, mas especialmente destacada nesta faixa bem marcada pelo ritmo da bateria de Sérgio Reze. Já Musa cruza (Luiz Tatit, 2016) se diferencia pela disposição inusual das cordas orquestradas por Fábio Tagliaferri enquanto a balada Estrela cruel ilumina a conexão de Tatit com o sempre inspirado Marcelo Jeneci, coautor e convidado do tema, gravado somente com a voz de Jeneci (extremamente grave, quase soturna, na primeira parte da música), a voz de Tatit e o piano tocado pelo próprio Jeneci. Cantados no fim a duas vozes, os versos poéticos da balada sinalizam mundo musical distante da prosódia experimentada por Tatit desde os tempos do Grupo Rumo, evocados na dicotomia entre sim e não exposta nos versos de Do meu jeito (Vanessa Bumagny e Luiz Tatit, 2014). O renascido mundo de Tatit parece evocar outra galáxia, de atmosfera onírica, em Planeta e borboleta (Luiz Tatit, 2016), faixa solada pelas vozes de Ná Ozzetti. Sim, vozes. A cantora se desdobra no canto desta que é uma das músicas mais belas do disco. Matusalém (Arthur Nestrovsky e Luiz Tatit, 2016) faz ode à vida, reiterada pela sede de viver que arde em Quantos desejos (Luiz Tatit, 2015), música menor do que a gana posta nos versos. Enfim, sem querer impressionar e ser muderno, Luiz Tatit apresenta Palavras e sonhos com a coerência que rege obra pavimentada com versos picados no som. A música está a serviço das palavras e dos sonhos embutidos nessas palavras cheias de som e de vida.

Rafael M. disse...

Disco primoroso do Tatit. O cara é sensacional!!!