Mauro Ferreira no G1

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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Sem papo cabeça, Partimpim volta a ser criança entre a fauna de 'Tlês'

Resenha de CD
Título: Partimpim Tlês
Artista: Adriana Partimpim
Gravadora: Sony Music
Cotação: * * * *

Adriana Partimpim cresceu e ensaiou inteligente papo cabeça em Dois, disco de 2009 cujo repertório incluía músicas de caudalosos versos de compositores como Bob Dylan e Caetano Veloso. Nas lojas neste mês de outubro de 2012, o CD Partimpim Tlêreaviva o espírito lúdico e a leveza do seminal Adriana Partimpim (2004). A produção de Daniel Carvalho irmana temas inéditos e músicas antigas sob os barulhinhos bons urdidos pela turma habitual de Partimpim. O time de coleguinhas é formado por músicos como o baterista Domenico Lancellotti, o baixista Alberto Continentino, o multi-instrumentista Kassin (pilotando os sintetizadores) e Berna Ceppas (em algumas das guitarras, assumidas também por Davi Moraes, Pedro Sá e Rodrigo Amarante). Na fauna de Partimpim Tlês, O Pato (Jayme Silva e Neusa Teixeira, 1959) - sucesso de João Gilberto - cai moderninho no samba, com direito à reprodução da voz do próprio, esboçada por Adriana Calcanhotto (a criadora da sapeca criatura Partimpim) com o auxílio do pistom cretino idealizado por Walter Smetak. Menos envolvente, Passaredo (Francis Hime e Chico Buarque, 1975) alerta com leveza que o Homem vem aí em recado ecológico realçado pelas flautas de Felipe Pinaud e ignorado pela onça sonsa que protagoniza o enredo ruralista de Criança Crionça (Cid Campos e Augusto de Campos, 2012), faixa pontuada pela viola caipira de Rodrigo Amarante. A trama de sintetizadores desenvolvida por Berna e Kassin em Por que Os Peixes Falam Francês? (Alberto Continentino e Domenico Lancellotti, 2012) cria a ilusão sensorial de que Partimpim transita pelo fundo do mar. Em Lindo Lago do Amor (Gonzaguinha, 1984), o mergulho é mais raso, mas nem por isso tem menos frescor. Partimpim é mais sedutora quando fica mais levada - como, por exemplo, quando revolve o barro original que sustenta De Onde Vem o Baião (Gilberto Gil, 1977) para mostrar outras possibilidades rítmicas para o tema de Gil em arranjo que evoca até a batida do samba de roda pelas palmas (dos músicos) e pelo prato e faca percutidos por Moreno Veloso. Já Tia Nastácia (Dorival Caymmi, 1977 - em adaptação de História pro Sinhozinho, tema de 1945) conta a mesma história que Mariene de Castro acabou de recordar - com maior propriedade e maior vivacidade rítmica -  no álbum Tabaroinha (2012). Da lavra terna do recorrente Dorival Caymmi (1914 - 2008), Acalanto (1957) embala com sensibilidade o fecho de Partimpim Tlêem registro que conta com o contracanto emblemático de Alice Caymmi, neta do patriarca do clã, e que se alinha com o acalanto mais heterodoxo que o precede no álbum, Também Vocês, parceria de Partimpim / Calcanhotto com o compositor João Callado. A propósito, Partimpim Tlês estabelece outra nova conexão de Partimpim / Calcanhotto - no caso, com Paula Toller, parceira da deliciosa Salada Russa. Com versos como "Na Rússia não tem salada russa / Na Grécia não tem arroz à grega / Milão não tem bife à milanesa / Na França ninguém sai à francesa", Salada Russa tempera Partimpim Tlês com a leveza indie que pauta também Taj Mahal (Jorge Ben Jor, 1972). O suingue pessoal e intransferível das gravações de Ben Jor sempre ofuscou que, em essência, Taj Mahal narra de forma simples e sucinta uma "linda história de amor" que Partimpim reconta com sintetizadores e coro infantil no "dê dê dê dê rê dê". A faixa é trunfo de Tlês, disco que preserva o alto nível de seus dois antecessores, mas descarta o papo cabeça do CD Dois, fazendo Partimpim ser criança de novo.

9 comentários:

Mauro Ferreira disse...

Adriana Partimpim cresceu e ensaiou inteligente papo cabeça em Dois, disco de 2009 cujo repertório incluía músicas de caudalosos versos de compositores como Bob Dylan e Caetano Veloso. Nas lojas neste mês de outubro de 2012, o CD Partimpim Tlês reaviva o espírito lúdico e a leveza do seminal Adriana Partimpim (2004). A produção de Daniel Carvalho irmana temas inéditos e músicas antigas sob os barulhinhos bons urdidos pela turma habitual de Partimpim. O time de coleguinhas é formado por músicos como o baterista Domenico Lancellotti, o baixista Alberto Continentino, o multi-instrumentista Kassin (pilotando os sintetizadores) e Berna Ceppas (em algumas das guitarras, assumidas também por Davi Moraes, Pedro Sá e Rodrigo Amarante). Na fauna de Partimpim Tlês, O Pato (Jayme Silva e Neusa Teixeira, 1959) - sucesso de João Gilberto - cai moderninho no samba, com direito à reprodução da voz do próprio, esboçada por Adriana Calcanhotto (a criadora da sapeca criatura Partimpim) com o auxílio do pistom cretino idealizado por Walter Smetak. Menos envolvente, Passaredo (Francis Hime e Chico Buarque, 1975) alerta com leveza que o Homem vem aí em recado ecológico realçado pelas flautas de Felipe Pinaud e ignorado pela onça sonsa que protagoniza o enredo ruralista de Criança Crionça (Cid Campos e Augusto de Campos, 2012), faixa pontuada pela viola caipira de Rodrigo Amarante. A trama de sintetizadores desenvolvida por Berna e Kassin em Por que Os Peixes Falam Francês? (Alberto Continentino e Domenico Lancellotti, 2012) cria a ilusão sensorial de que Partimpim transita pelo fundo do mar. Em Lindo Lago do Amor (Gonzaguinha, 1984), o mergulho é mais raso, mas nem por isso tem menos frescor. Partimpim é mais sedutora quando fica mais levada - como, por exemplo, quando revolve o barro original que sustenta De Onde Vem o Baião (Gilberto Gil, 1977) para mostrar outras possibilidades rítmicas para o tema de Gil em arranjo que evoca até a batida do samba de roda pelas palmas (dos músicos) e pelo prato e faca percutidos por Moreno Veloso. Já Tia Nastácia (Dorival Caymmi, 1977 - em adaptação de História pro Sinhozinho, tema de 1945) conta a mesma história que Mariene de Castro acabou de recordar - com maior propriedade e maior vivacidade rítmica - no álbum Tabaroinha (2012). Da lavra terna do recorrente Dorival Caymmi (1914 - 2008), Acalanto (1957) embala com sensibilidade o fecho de Partimpim Tlês em registro que conta com o contracanto emblemático de Alice Caymmi, neta do patriarca do clã, e que se alinha com o acalanto mais heterodoxo que o precede no álbum, Também Vocês, parceria de Partimpim / Calcanhotto com o compositor João Callado. A propósito, Partimpim Tlês estabelece outra nova conexão de Partimpim / Calcanhotto - no caso, com Paula Toller, parceira da deliciosa Salada Russa. Com versos como "Na Rússia não tem salada russa / Na Grécia não tem arroz à grega / Milão não tem bife à milanesa / Na França ninguém sai à francesa", Salada Russa tempera Partimpim Tlês com a leveza indie que pauta também Taj Mahal (Jorge Ben Jor, 1972). O suingue pessoal e intransferível das gravações de Ben Jor sempre ofuscou que, em essência, Taj Mahal narra de forma simples e sucinta uma "linda história de amor" que Partimpim reconta com sintetizadores e coro infantil no "dê dê dê dê rê dê". A faixa é trunfo de Tlês, disco que preserva o alto nível de seus dois antecessores, mas descarta o papo cabeça do CD Dois, fazendo Partimpim ser criança de novo.

Anônimo disse...

Realmente o disco retoma a essência do primeiro Partimpim, e soa simples, bonito e sincero. A excelente versão de "Lindo lago do amor',de Gonzaguinha, pra mim é o grande destaque do disco. Adriana é demais.

nazzos disse...

Partimpim encerra uma trilogia esperta com TlÊs. O disco é ótimo!

Maria disse...

Não apoiei a continuação desse projeto, apesar de ter gostado do primeiro disco acho que já deu! de qualquer forma, muito melhor mostrar isso para minhas sobrinhas do que uma Xuxa da vida sem dúvida. Ahhh, ando ouvindo bastante "O Micróbio do Samba".

Rafael M. disse...

Também adorei a versão que ela fez para "Lindo Lago do Amor". Ficou sensível. Mas também gostei muito de "Taj Mahal". O disco em geral é bom, mas ainda assim não é tão impactante quanto o primeiro.

lurian disse...

Não gostei muito das regravações. Pra mim o trunfo sensorial-sinestésico delicioso do disco está em Porquê os peixes falam francês, e nos versos ritmados de Criança crionça. Melhor que o 2 sem dúvidas.

Rafael M. disse...

Adorei tamém desse disco "Também Vocês". Uma canção muito singela e bonita.

Betha Medeiros disse...

Eu já adoro o 2! Uso direto com meus alunos. Não ouvi ainda esse 3. Acho esse projeto Partimpim a melhor coisa q AC fez na sua carreira. Gosto da Partimpim e detesto a Calcanhoto. Vá entender!

Eduardo Vieira disse...

tb uso bastante o primeiro com meus alunos e sempre acaba no claudinho e bochecha...o segundo eu senti com um presente pra mim mesmo.. kkkkk com alexandre e na massa, minha predileta( que ainda vou usar com meus alunos) ...estou ouvindo e adoro por que os peixes falam...e lindo lago do amor...música por qual eu sou apaixonado....parabéns!!