Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


terça-feira, 10 de maio de 2016

Sem economizar notas, Hamilton ignora barzinhos ao tocar sambas de Chico

Resenha de álbum
Título: Samba de Chico
Artista: Hamilton de Holanda
Gravadora: Biscoito Fino
Cotação: * * * 1/2

Se por acaso alguém começar a ouvir o álbum em que o Hamilton de Holanda toca o repertório de Chico Buarque de Hollanda pela faixa-bônus, a gravação da marchinha A banda (1966), poderá ter a impressão de que o bandolinista de origem carioca (mas criação brasiliense) se utilizou da obra magistral do compositor carioca fez um disco para ser fundo musical do coro popular dos barzinhos. Tal impressão seria, no caso, totalmente equivocada. Em Samba de Chico, Hamilton - bandolinista extraordinário do tipo que jamais economiza notas -  toca Chico com boa dose de reinvenção, como mostram as abordagens dos sambas Piano na Mangueira (Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque, 1992) e Quem te viu, quem te vê (1967). Como o próprio Hamilton explica em texto reproduzido no encarte da edição física em CD, o objetivo foi encontrar "um novo caminho" ao tocar os sambas de Chico Buarque. De fato, Hamilton imprime o próprio toque ao longo de quase todo o disco. Por seguir por rotas próprias, o músico também pega eventuais trilhas acidentadas. O bandolinista esbarra na tensão de Deus lhe pague (1971) e a dilui no medley que une a composição à engenhosa Construção (1971). Por mais que Hamilton seja gênio-virtuose do bandolim, toda a engrenagem de Roda viva (1967) também parece desabar em Samba de Chico. É o preço (alto) que se paga pela recriação da criação alheia, pela intenção de se afastar do lugar-comum. Como o álbum é essencialmente instrumental, e nem todas as melodias são de Chico (caso do já citado samba Piano na Mangueira), há certa estranheza em ouvir o samba-canção Trocando em miúdos (Francis Hime e Chico Buarque, 1977) sem a letra, por exemplo. Nesse momento, Hamilton toca a rigor o samba de Francis Hime. O que justifica o convite feito à cantora espanhola Sílvia Pérez Cruz para dar voz aos versos dilacerados de outro magistral samba-canção composto por Chico com Francis, Atrás da porta (1972). Cruz também dá voz aos versos de O meu amor (1977), bolero trazido para o universo do samba. Em ambas as interpretações, a cantora dribla bem a pouca intimidade com a língua portuguesa, mas não consegue transmitir a sensualidade de O meu amor e tampouco a dramaticidade afetiva de Atrás da porta. Mais à vontade, obviamente, soa o próprio Chico ao cantar mais uma vez os sambas Vai trabalhar vagabundo (1976) e A volta do malandro (1985). É quando o canto do compositor guia o músico pelos caminhos mais convencionais de obra já em si perfeita - ainda que Hamilton vez por outra escape dessa trilha nas duas gravações com Chico. É assim também quando o músico pega outras vielas sem deixar de desembocar na estrada afro que conduz a vivaz Morena de Angola (1980). Aos 40 anos, Hamilton de Holanda vive momento áureo em que se exercita com segurança no toque do bandolim. E, mesmo inventando e explorando caminhos, o músico reproduz o clima original de Samba e amor (1969) e a levada sedutora do Samba do grande amor (1983). De quebra, ainda há celebra o compositor com o sinuoso Samba de Chico, tema inédito que dá nome ao álbum. Definitivamente, Samba de Chico não é álbum para se ouvir em barzinhos. Sem malandragem, Hamilton retrabalhou a obra de Chico.

5 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Se por acaso alguém começar a ouvir o álbum em que o Hamilton de Holanda toca o repertório de Chico Buarque de Hollanda pela faixa-bônus, a gravação da marchinha A banda (1966), poderá ter a impressão de que o bandolinista de origem carioca (mas criação brasiliense) se utilizou da obra magistral do compositor carioca fez um disco para ser fundo musical do coro popular dos barzinhos. Tal impressão seria, no caso, totalmente equivocada. Em Samba de Chico, Hamilton - bandolinista extraordinário do tipo que jamais economiza notas - toca Chico com boa dose de reinvenção, como mostram as abordagens dos sambas Piano na Mangueira (Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque, 1992) e Quem te viu, quem te vê (1967). Como o próprio Hamilton explica em texto reproduzido no encarte da edição física em CD, o objetivo foi encontrar "um novo caminho" ao tocar os sambas de Chico Buarque. De fato, Hamilton imprime o próprio toque ao longo de quase todo o disco. Por seguir por rotas próprias, o músico também pega eventuais trilhas acidentadas. O bandolinista esbarra na tensão de Deus lhe pague (1971) e a dilui no medley que une a composição à engenhosa Construção (1971). Por mais que Hamilton seja gênio-virtuose do bandolim, toda a engrenagem de Roda viva (1967) também parece desabar em Samba de Chico. É o preço (alto) que se paga pela recriação da criação alheia, pela intenção de se afastar do lugar-comum. Como o álbum é essencialmente instrumental, e nem todas as melodias são de Chico (caso do já citado samba Piano na Mangueira), há certa estranheza em ouvir o samba-canção Trocando em miúdos (Francis Hime e Chico Buarque, 1977) sem a letra, por exemplo. Nesse momento, Hamilton toca a rigor o samba de Francis Hime. O que justifica o convite feito à cantora espanhola Sílvia Pérez Cruz para dar voz aos versos dilacerados de outro magistral samba-canção composto por Chico com Francis, Atrás da porta (1972). Cruz também dá voz aos versos de O meu amor (1977), bolero trazido para o universo do samba. Em ambas as interpretações, a cantora dribla bem a pouca intimidade com a língua portuguesa, mas não consegue transmitir a sensualidade de O meu amor e tampouco a dramaticidade afetiva de Atrás da porta. Mais à vontade, obviamente, soa o próprio Chico ao cantar mais uma vez os sambas Vai trabalhar vagabundo (1976) e A volta do malandro (1985). É quando o canto do compositor guia o músico pelos caminhos mais convencionais de obra já em si perfeita - ainda que Hamilton vez por outra escape dessa trilha nas duas gravações com Chico. É assim também quando o músico pega outras vielas sem deixar de desembocar na estrada afro que conduz a vivaz Morena de Angola (1980). Aos 40 anos, Hamilton de Holanda vive momento áureo em que se exercita com segurança no toque do bandolim. E, mesmo inventando e explorando caminhos, o músico reproduz o clima original de Samba e amor (1969) e a levada sedutora do Samba do grande amor (1983). De quebra, ainda há celebra o compositor com o sinuoso Samba de Chico, tema inédito que dá nome ao álbum. Definitivamente, Samba de Chico não é álbum para se ouvir em barzinhos. Sem malandragem, Hamilton retrabalhou a obra de Chico.

Rafael M. disse...

Esse disco do Hamilton dedicado a Chico é um óasis no meio de tanta porcaria que está sendo lançado no meio musical ultimamente. Salve a boa música brasileira!

Renato barbosa de castro disse...

Mauro,leio a sua coluna no jornal o dia e não encontro há duas segundas-feiras.O jornal não publicou o motivo.Aguardo resposta é grato pela sua atenção!

Mauro Ferreira disse...

Renato, por conta da crise econômica, eu fui dispensado do jornal 'O Dia' ao fim do mês de abril. A coluna 'Estúdio' não existe mais. Abs, MauroF

Luca disse...

Hamilton é um gênio, agora o Mauro só resenha disco dele quando é com o Diogo Nogueira ou cantando o Chico, tem que falar dos discos instrumentais dele