Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


sexta-feira, 20 de maio de 2016

Caixa 'Três tons de MPB-4' revitaliza álbuns de fase áurea do politizado grupo

Resenha de caixa de CDs
Título: Três tons de MPB-4
Artista: MPB-4
Gravadora: Universal Music
Cotação da caixa: * * * * *
Cotação dos álbuns: 10 anos depois (* * * * *) Canto dos homens (* * * * ) Vira virou (* * * 1/2)

Uma das célebres parcerias de Chico Buarque com Francis Hime, Passaredo ganhou registro de Chico em 1976 e deu nome ao álbum lançado por Francis em 1977. Mas a gravação original foi feita pelo MPB-4 - com arranjo orquestrado pelo próprio Francis - em 10 anos depois (Philps, 1975), décimo álbum do grupo fluminense cujas origens remontam a 1962 no Centro Popular de Cultura de Niterói (RJ). O título 10 anos depois aludia à década de atividades oficiais do quarteto que debutara em disco com compacto simples editado em 1964 e que se profissionalizara no ano seguinte, 1965. A edição da caixa Três tons de MPB-4 é fundamental para a preservação da memória musical brasileira. De 1966 a 1984, o grupo lançou - pelas gravadoras Elenco, Philips, Ariola e Barclay - 20 álbuns pautados pela coerência e consciência social aguçada já na época do CPC. A rigor, todos estes 20 álbuns mereciam estar sendo reeditados em caixa para que o supra-sumo da discografia do grupo fosse preservada no formato de CD. Por ora, é um alento a edição de três relevantes álbuns do grupo - o já citado 10 anos depois (Philips, 1975), Canto dos homens (Philips, 1976) e Vira virou (Ariola, 1980) - na caixa da série Tons, produzida por Alice Soares (profissional do departamento de marketing da Universal Music) com seleção de títulos e textos do produtor Thiago Marques Luiz. A caixa Três tons de MPB-4 mantém o alto padrão de qualidade da série que recupera títulos do acervo da Universal Music que estavam fora de catálogo e que, no caso dos três álbuns do MPB-4, permaneciam inéditos no formato de CD. Além da reprodução da arte gráfica dos LPs originais, a remasterização - feita por Luigi Hoffer e Carlos Savalla no estúdio DMS  (Digital Mastering Solutions) - deixa o som tinindo como se os álbuns estivesse saindo neste ano de 2016. E que álbuns! O repertório em si é de bom nível. Mas o trunfo do MPB-4 residia nos arranjos vocais de Antônio José Waghabi Filho (14 de novembro de 1943 - 8 de agosto de 2012), o Magro, integrante da formação original do quarteto. Sofisticados, mas não a ponto de tornar o som do quarteto inacessível para o chamado grande público, os arranjos vocais de Magro tornavam irrelevantes o fato de a música ser ou não inédita quando gravada pelo MPB-4. Manhã de Carnaval (Luiz Bonfá e Antonio Maria, 1959), por exemplo, ressurge com outra luz no álbum 10 anos depois por conta dos surpreendentes acordes do arranjo vocal de Magro. Mas a melodia e a letra estão todas lá na gravação de Aquiles, Magro, Miltinho e Ruy Faria (que sairia do grupo em 2004). Porque o MPB-4 sempre dava o pessoal toque vocal às músicas sem desfigurar as melodias. Alguns temas soam arrepiantes, caso de Canto triste (Edu Lobo e Vinicius de Moraes, 1966), ouvido a capella em 10 anos depois. Com menor cota de clássicos da MPB no repertório, Canto dos homens é disco que deu o recado político do grupo - através de letras de músicas de Chico Buarque, Ivan Lins, João Bosco & Aldir Blanc, entre outros compositores engajados - e lançou composições como Moreno (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1976), que vem a ser versão com letra do instrumental Tema de Tostão (Milton Nascimento, 1970), apresentado por Milton Nascimento seis anos antes em gravação feita para a trilha sonora de filme sobre o jogador de futebol. No todo, Canto dos homens soa sem o frescor do antecessor 10 anos depois sem deixar de ser álbum contundente. Bola ou búlica (João Bosco e Aldir Blanc, 1975) desce redonda ao cair no suingue do samba sincopado típico da dupla de compositores. Terceiro título da caixa, Vira virou - primeiro álbum do MPB-4 na então recém-aberta (no Brasil) gravadora Ariola - acenou com mudança no som e nos arranjos vocais. O som ficou mais elétrico e mais vibrante, afinado com a revolução estética que desembocaria no tecnopop, tônica dos discos da década de 1980. Os vocais ganharam outros tons e harmonias, já sob a influência da chegada do Boca Livre, sensação da cena musical brasileira de 1979. A lua (Renato Rocha, 1980) foi o maior sucesso de um repertório abordado com pegada mais pop pelo MPB-4. Em Vira virou, disco batizado com a canção de inspiração lusitana (de autoria de Kleiton Ramil) que fez mais sucesso nas vozes da dupla gaúcha Kleiton & Kledir, o grupo lançou o xote Por toda lã - do então emergente Alceu Valença (já na estrada ao longo dos anos 1970, mas em momento de ampliação de púbico)  - e Bilhete (Ivan Lins e Vitor Martins, 1980), doída canção de separação que somente encontraria a voz certa e o sucesso ao ser gravada por Fafá de Belém em 1982. Ao longo da década de 1980, o MPB-4 teria dificuldades mercadológicas para manter o nível de discografia que atingiu o auge justamente entre 1966 e 1984. Nesse período, os tons do MPB-4 foram muitos e todos foram relevantes. Que outros tons do grupo sejam revitalizados, pois!

10 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Uma das célebres parcerias de Chico Buarque com Francis Hime, Passaredo ganhou registro de Chico em 1976 e deu nome ao álbum lançado por Francis em 1977. Mas a gravação original foi feita pelo MPB-4 - com arranjo orquestrado pelo próprio Francis - em 10 anos depois (Philps, 1975), décimo álbum do grupo fluminense cujas origens remontam a 1963 no Centro Popular de Cultura de Niterói (RJ). O título 10 anos depois aludia à década de atividades oficiais do quarteto que debutara em disco com compacto simples editado em 1964 e que se profissionalizara no ano seguinte, 1965. A edição da caixa Três tons de MPB-4 é fundamental para a preservação da memória musical brasileira. De 1966 a 1984, o grupo lançou - pelas gravadoras Elenco, Philips, Ariola e Barclay - 19 álbuns pautados pela coerência e consciência social aguçada já na época do CPC. A rigor, todos estes 19 álbuns mereciam estar sendo reeditados em caixa para que o supra-sumo da discografia do grupo fosse preservada no formato de CD. Por ora, é um alento a edição de três relevantes álbuns do grupo - o já citado 10 anos depois (Philips, 1975), Canto dos homens (Philips, 1976) e Vira virou (Ariola, 1980) - na caixa da série Tons, produzida por Alice Soares (profissional do departamento de marketing da Universal Music) com seleção de títulos e textos do produtor Thiago Marques Luiz. A caixa Três tons de MPB-4 mantém o alto padrão de qualidade da série que recupera títulos do acervo da Universal Music que estavam fora de catálogo e que, no caso dos três álbuns do MPB-4, permaneciam inéditos no formato de CD. Além da reprodução da arte gráfica dos LPs originais, a remasterização - feita por Luigi Hoffer e Carlos Savalla no estúdio DMS (Digital Mastering Solutions) - deixa o som tinindo como se os álbuns estivesse saindo neste ano de 2016. E que álbuns! O repertório em si é de bom nível. Mas o trunfo do MPB-4 residia nos arranjos vocais de Antônio José Waghabi Filho (14 de novembro de 1943 - 8 de agosto de 2012), o Magro, integrante da formação original do quarteto. Sofisticados, mas não a ponto de tornar o som do quarteto inacessível para o chamado grande público, os arranjos vocais de Magro tornavam irrelevantes o fato de a música ser ou não inédita quando gravada pelo MPB-4. Manhã de Carnaval (Luiz Bonfá e Antonio Maria, 1959), por exemplo, ressurge com outra luz no álbum 10 anos depois por conta dos surpreendentes acordes do arranjo vocal de Magro. Mas a melodia e a letra estão todas lá na gravação de Aquiles, Magro, Miltinho e Ruy Faria (que sairia do grupo em 2004). Porque o MPB-4 sempre dava o pessoal toque vocal às músicas sem desfigurar as melodias. Alguns temas soam arrepiantes, caso de Canto triste (Edu Lobo e Vinicius de Moraes, 1966), ouvido a capella em 10 anos depois.

Mauro Ferreira disse...

Com menor cota de clássicos da MPB no repertório, Canto dos homens é disco que deu o recado político do grupo - através de letras de músicas de Chico Buarque, Ivan Lins, João Bosco & Aldir Blanc, entre outros compositores engajados - e lançou composições como Moreno (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1976), que vem a ser versão com letra do instrumental Tema de Tostão (Milton Nascimento, 1970), apresentado por Milton Nascimento seis anos antes em gravação feita para a trilha sonora de filme sobre o jogador de futebol. No todo, Canto dos homens soa sem o frescor do antecessor 10 anos depois sem deixar de ser álbum contundente. Bola ou búlica (João Bosco e Aldir Blanc, 1975) desce redonda ao cair no suingue do samba sincopado típico da dupla de compositores. Terceiro título da caixa, Vira virou - primeiro álbum do MPB-4 na então recém-aberta (no Brasil) gravadora Ariola - acenou com mudança no som e nos arranjos vocais. O som ficou mais elétrico e mais vibrante, afinado com a revolução estética que desembocaria no tecnopop, tônica dos discos da década de 1980. Os vocais ganharam outros tons e harmonias, já sob a influência da chegada do Boca Livre, sensação da cena musical brasileira de 1979. A lua (Renato Rocha, 1980) foi o maior sucesso de um repertório abordado com pegada mais pop pelo MPB-4. Em Vira virou, disco batizado com a canção de inspiração lusitana (de autoria de Kleiton Ramil) que fez mais sucesso nas vozes da dupla gaúcha Kleiton & Kledir, o grupo lançou o xote Por toda lã - do então emergente Alceu Valença (já na estrada ao longo dos anos 1970, mas em momento de ampliação de púbico) - e Bilhete (Ivan Lins e Vitor Martins, 1980), doída canção de separação que somente encontraria a voz certa e o sucesso ao ser gravada por Fafá de Belém em 1982. Ao longo da década de 1980, o MPB-4 teria dificuldades mercadológicas para manter o nível de discografia que atingiu o auge justamente entre 1966 e 1984. Nesse período, os tons do MPB-4 foram muitos e todos foram relevantes. Que outros tons do grupo sejam revitalizados, pois!

Mauro Silva disse...


Lindos!

Que venha mais trabalhos antigos em CD's REMASTERIZADOS, desse querido e talentoso grupo. AMOOOOOOOOOOOOO :)

Rafael M. disse...

Caixa essencial pra quem gosta de boa música e do genial MPB-4!

Roberto de Brito disse...

A discografia do Mpb4 é impecável! Merece uma caixa urgente!
Mauro, com "Doída cancão de separação que somente encontraria a voz certa e o sucesso ao ser gravada por Fafá de Belém ..." você espalhou poesia!

antonio disse...

Mauro, você tem alguma notícia sobre a retomada da coleção Tons pela Universal? Há possibilidade de novas caixas?

Edu Chedid disse...

Realmente, a qualidade sonora do box é de outros mundos!

Bernardo Barroso Neto disse...

Que noticia maravilhosa! Que venha um box completo com todos os cds do MPB4

Martins disse...

Quem venham os próximos cito apenas três para lembrar: Palhaços e Reis, De palavra em Palavra e parece brincadeira o "Bons Tempos, Hein?"

Ronaldo Mendonça disse...

Faço coro ao Antonio: será que vem mais boxes por aí? Tomara que sim! :-)

Abraços a todos.
Att.,
Ronaldo Mendonça.