Mauro Ferreira no G1

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terça-feira, 10 de maio de 2016

Sai de cena João Palma, baterista que levou o ritmo do Brasil para o mundo

♪ Carioca, João Palma (1943 - 2016) exportou o ritmo do Brasil no toque da bateria. Basta dizer que o genial músico - que saiu de cena aos 74 anos neste mês de maio de 2016, tendo sido encontrado morto esta semana no apartamento em que morava na cidade natal do Rio de Janeiro (RJ) - tocou bateria em álbuns gravados por Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994) nos Estados Unidos como Stone flower (CTI Records, 1970), Tide (CTI Records, 1970) e Urubu (Warner Music, 1975). Baterista associado à leveza cosmopolita da Bossa Nova, Palma - em foto de Celso Brando - começou a tocar profissionalmente em 1960, aos 17 anos, integrando o Conjunto Roberto Menescal. Em 1965, já reverenciado no Brasil pelo toque magistral da bateria que havia posto na gravação de álbuns de artistas como a cantora Maysa (1936 - 1977), Palma foi para os Estados Unidos. Lá, integrou o grupo Brasil '66, do pianista fluminense Sergio Mendes. A célebre gravação de Mas que nada (Jorge Ben Jor, 1963) feita por Mendes em 1966 tinha o toque da bateria de João Palma, músico que tocaria com o cantor norte-americano Frank Sinatra (1915 - 1998) no álbum Sinatra & company (Reprise, 1971). Desde então, João Palma se dividiu entre os Estados Unidos e o Brasil, país onde foi aplaudido por todos os músicos diplomados na escola universal da Bossa Nova.

5 comentários:

Mauro Ferreira disse...

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Luca disse...

nunca tinha ouvido falar, mas se gravou com Tom era fera

Larissa Pereira Gouveia disse...

Que pena uma homenagem tão compacta;Palma merecia muito,muito mais.Todas as palmas que recebeu, mesmo as (flores) que laureadas em vida lhe foram infinitamente menores do que sua genialidade insólita e personalidade sui generis mereciam - sumamente honrado pelos deuses da arte/ sumariamente ignorado pelo grande público.
Foi um dos bateristas mais extraordinários que já ouvi na vida inteira.Era, de longe, meu favorito entre os brazucas - sim,mesmo tendo no meu altar particular das baquetas aquela entidade divinal(ou até mais de acordo com a sua furiosa bateria,essa entidade infernal) chamada Edison Machado.Pero Palma, diferentemente do Edison, que foi nosso Buddy Rich tupiniquim,tinha um estilo sofisticado e detalhista que não acho um parâmetro exato gringo para corresponder.

O homem era capaz de colocar uma orquestra inteira aos seus pés,sob a tônica de sua bateria;ao toque preci(o)so dos seus míticos pratos - como o fez na faixa Mantiqueira Range(primor de autoria do Paulinho Jobim) no totêmico Matita Pere do Tom.Palma era um metrônomo em forma de baterista e só seus recursos técnicos apuradíssimos e precisão matemática podiam merecer figurar num álbum tão complexo que misturava propostas eruditas com populares como o foi o Matita(onde Tom experimentou até o dodecafonismo,aka vide a faixa titulo).
[Tom só chamaria mesmo o melhor pra gravar o álbum da sua vida,o álbum que ele se referia dizendo:’Se não tivesse gravado o ‘Matita’ acho que iria morrer empalhado no meio de uma floresta asfaltada,sendo sempre lembrado(referendado) apenas por ‘Garota de Ipanema’.O álbum onde o maestro prestou tributo aos gênios de seu altar particular:Guimarães Rosa,Villa Lobos e Drummond.]

Palma, mais que um ser impressionantemente rítmico e de sonoridade personalíssima,tinha um evidente domínio profundo de aspectos técnicos...Um rigor de detalhes pra apaixonar grandes e detalhistas criadores musicais,como se deu de fato com o próprio Maestro Soberano;ele que sempre dava um jeito de colocá-lo em destaque,de lhe oferecer o protagonismo e cito exemplos concretos disso que digo,a ver:
O dialogo sublime e jocoso que o maestro faz com o Palma em 'Tema Jazz',no 'Tide',parece que ele não quer nem cortar o take 2(se ouvirmos esse take altrernativo,nos bônus do cd,se nota as pampas a alegria pueril de Tom de compartilhar com um musico tão bom,tão inspirador;Tom se transcende nele.E eu os ouço batendo palminhas infantis, como se comemorasse um gol de Pelé no passe de Coutinho,e vice versa)...Outra ainda,nos seus momentos de gloria maestra na já citada Mantiqueira Range:Onde a orquestra do deus Ogerman se rende de joelhos as finesses técnicas desse maestro das baquetas, enquanto ele audaciosamente improvisa sobre a orquestra e não sob ela...E ainda além, na chave do Paraiso que Tom ofereceu a ele na faixa ‘Brasil’ do ‘Stone Flower’,se prestando a mero coadjuvante com as doces linhas melódicas de um então seu piano elétrico.Enquanto Palma costurava soberanamente as etéreas nuvens Jobinianas e ganhava o céu,confeccionando um denso manto anil e verde e amarelo – batuqueiro redentor,entre a sofisticação de couro macio da Bossa Nova e o sangue e suor do samba.Brasil brasileiro,que não se entrega, não.

CONT.

Larissa Pereira Gouveia disse...

PARTE 2
Aliás,se João tivesse registrado "apenas" sua absurda colaboração nessa faixa ‘Brazil’, do Stone, já mereceria o céu;já mereceria figurar no panteão do deuses da bateria...Ouçam-na novamente,busquem e ressignifiquem o que é ‘dar no couro.’Brazil’ são 9 minutos(na melhor masterização,7 e pouco nas demais) de uma sublime súmula de (quase) todos os ritmos de Brasil;todos acochambrados numa estrutura rítmica finíssima,que vai pendulando como uma bandeira hasteada no mais alto do mastro pela alma brasilis.A mais sólida cozinha rítmica que um mestre cuca como Tom poderia sonhar,ou nem ousaria sonhá-la tão boa.
Se quiserem ao menos uma mensura possível do tamanho do talento do Palma,ouçam essa faixa do Stone,insisto:Imaginem como se a bateria gourmet da Bossa Nova abrisse uma bocarra enorme e faminta para então deglutir samba,baião,maracatu tudo numa só interpretação...Pensem,ouçam uma batera que se transcende das finesses de cocções e contenções decorativas da Bossa,pra ir desembocar naquele epicentro furioso de uma bateria gulosa e carnal de uma escola de samba - lá onde o ritmo é infinito e acachapante... É enfim isso que o Palma faz ,sem precisar se exceder.E a cada precisa pancada modulada, pinta um cenário brasileiro através de seu respectivo ritmo;uma ode sobre a ode do Ary.Acho essa gravação lapidar,o melhor epitáfio vivo que posso imputar a ele.

Pois então respeitável publico:Um baterista extremamente sofisticado,pra ouvidos refinados;muito longe de piruetas over e mesmo de mágicos virtuosismos mais óbvios.E outra,era milimétrico mas não era um domesticado discípulo da Bossa Nova apenas – um certo Oscar Bolão,no seu blog ”alô,bateria”, sabe bem ao que me refiro.Pois então:Palma devia bem saber que como ficou chato ser moderno,ele escolhera ser eterno...Ou ainda,Bossa Nova mesmo é ser resiliente:E seu som o é,e assim sobreviveu autoral a todo e qualquer modismo estilístico de tocar a batera.
Insisto - Jobinete e Palmete de carteirinha que sou:Não a toa Tom o convocou pra registrar sua ‘santa trindade’ composta de seus 3 melhores álbuns - aka Matita,Stone e Urubu.Não a toa que mereceu ser citado/louvado no livro de arranjos(uma das bíblias para arranjadores) do famigerado Henry Mancini:Dele Mancini disse algo como ‘um baterista como Palma podia mudar toda a concepção de uma música com uma simples pratada de bateria - o prato percutido na hora certa, com o feeling certo, como João o fazia’.Imagina um arranjador desse quilate valorizar assim a preponderancia dum musico que pertence a sobrevalorizada denominada cozinha rítmica.Sinatra,Tom,Mancini – as melhores honras advindas dos melhores.
A ver:Pra não esquecer, ele atuou ainda com outro mestre brasilis,nosso genial Dori.
CONT.

Larissa Pereira Gouveia disse...

FINAL

Enfim,no fim...Era meu grande ídolo das baquetas! E eu mal conhecia seu rosto,mais recentemente quase sempre adornado por a inconfundível boina de couro - lembro que inicialmente jurava que ele fosse negro...Seu ritmo,time, seu aprouch me falavam/me sugeriam um pé na gente mais rítmica que já existiu,a gente negra.Se a pele não era negra, a alma decerto foi.
E por falar ainda na sua sublime participação na faixa Brasil,interpretação que já trago entranhada na minha alma - tamanha é minha paixão por...É preciso merecermos esse Brasil das mãos de Palma.Esse que encantou o mundo,que embasbacou gringos - e não to falando dessa brasilidade com z, refém dos caprichos mercenários do Sergio Mendes...Mas desse Brasil Joãozistico que nos restituiu a nossa melhor face,a nossa mais autentica e competente imagem.Uma imagem venerável mundo a fora,entre os melhores de lá, que torna risível nossa eterna síndrome de cachorro vira lata.

Segue em paz,Palma;segue com todos os aplausos das palmas de nossas mãos rendidas(das minhas então!).Ficaremos com saudade do (teu) Brasil.Mas te garantimos a eternidade da tua arte,que eu mesma não vou cansar nunca de não só apreciar, louvar,retomar, como também de apresentar a todos quanto eu possa.
Se o paraíso existir,ou mesmo se fosse plausível que existisse pra esta “pobre amadora” cética...E,ainda, se existente seja, nele pudéssemos ter uma extensão do melhor aqui da Terra:Que sejas recebido numa jam session tupi com Antonio Brasileiro - o Sinatra numa participação especial,quiçá.