Mauro Ferreira no G1

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segunda-feira, 1 de junho de 2015

Afetivo, Continentino expõe rica musicalidade no solo 'Ao som dos planetas'

Resenha de CD
Título: Ao som dos planetas
Artista: Alberto Continentino
Gravadora: Edição independente do artista / Tratore 
Cotação: * * * 1/2

Embora seu nome seja menos badalado na mídia musical do que seus colegas de profissão e geração Domenico Lancellotti e Kassin, Alberto Continentino é músico fundamental na construção da cena contemporânea carioca. O toque de seu baixo tem valorizado os melhores discos dessa cena da mesma forma que sua produção como compositor - feita geralmente em parceria com Domenico - tem colaborado substancialmente para abastecer os repertórios de álbuns de Adriana Partimpim, Silvia Machete e Zabelê, entre muitos outros nomes. Projeto acalentado por Continentino desde 2013, Ao som dos planetas é o primeiro álbum solo do artista carioca. Lançado hoje, 1º de junho de 2015, em edição física em CD e nas plataformas digitais, o disco chama atenção mais pela rica musicalidade - "assustadora", na caracterização feita pelo parceiro e amigo Domenico no entusiasmado texto que escreveu para apresentar o álbum aos formadores de opinião - do que pelas canções em si, embora haja canções dignas de atenção ao longo de 11 faixas que incluem exuberantes temas instrumentais como Double dip (Alberto Continentino) e Coragem (Alberto Continentino). Temas gravados com uma banda de sonhos - formada por Altair Martins (trompete), Arthur Dutra (vibrafone), Donatinho (piano) Guilherme Monteiro (guitarra), Kassin (produtor do disco ao lado de Continentino e piloto de vários instrumentos), Leo Gandelman (sax), Marlon Sette (trombone) e Stéphane San Juan (bateria), além evidentemente do dono do disco - que ajuda a expor a musicalidade multifacetada de Continentino, virtuose com vasta militância na cena instrumental nacional e que também fala a língua do jazz, mas com groove. Contudo, Ao som dos planetas é também - e principalmente - um disco de amor. Sem vocação nata para o canto, Continentino optou por dividir as interpretações da maior parte das canções com sua mulher, Vivian Miller, a Biboh, partner dos duetos afetivos que pautam o disco tanto quanto os temas instrumentais. Tanto que, por mais que Ao som dos planetas gravite na galáxia de timbres modernos produzidos por Kassin e cia., o disco abre com canção, Tic tac (Alberto Continentino com letra de Moreno Veloso), que exprime ternura antiga, fazendo ode ao tempo dos casais. Tudo (Alberto Continentino e Domenico Lancellotti) - do sintomático verso "Tudo se parece com você" - também dá corda (e percussão) a esse romantismo, sintetizando de certa forma o disco por ambientar uma letra apaixonada no clima viajante do arranjo. O amor é tratado em Ao som dos planetas com pureza infantil. O que explica o tom lúdico de Náufrago (Alberto Continentino e Domenico Lancellotti) - cujos sons do arranjo parecem vir em ondas como o mar - e o título Hora do lanchinho para um tema instrumental que ecoa influências benéficas das obras de João Donato e (sobretudo) Marcos Vale, tal como Sessão da tarde (Alberto Continentino), tema sem letra levado pelos vocalises harmoniosos do casal Alberto e Vivian (grávida de Yan na época da gestação do disco). Mas o som é sempre de adulto, como atesta o arranjo espacial de Sistema de som (Alberto Continentino e Domenico Lancellotti), música que deu nome ao primeiro álbum solo de Stéphane San Juan, Système de son (Maravilha 8, Pommello Distribuições, 2014), com os versos em francês escritos por Juan. Enfim, disco no qual se detectam ecos da obra de Hermeto Pascoal e da música negra norte-americana, entre outras honrosas referências, Ao som do planeta dá a Continentino o merecido papel de protagonista, mantendo o status de um compositor e músico excepcional que - vale repetir - tem tido papel fundamental na solidificação da cena musical contemporânea carioca.

3 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Embora seu nome seja menos badalado na mídia musical do que seus colegas de profissão e geração Domenico Lancellotti e Kassin, Alberto Continentino é músico fundamental na construção da cena contemporânea carioca. O toque de seu baixo tem valorizado os melhores discos dessa cena da mesma forma que sua produção como compositor - feita geralmente em parceria com Domenico - tem colaborado substancialmente para abastecer os repertórios de álbuns de Adriana Partimpim, Silvia Machete e Zabelê, entre muitos outros nomes. Projeto acalentado por Continentino desde 2013, Ao som dos planetas é o primeiro álbum solo do artista carioca. Lançado hoje, 1º de junho de 2015, em edição física em CD e nas plataformas digitais, o disco chama atenção mais pela rica musicalidade - "assustadora", na caracterização feita pelo parceiro e amigo Domenico no entusiasmado texto que escreveu para apresentar o álbum aos formadores de opinião - do que pelas canções em si, embora haja canções dignas de atenção ao longo de 11 faixas que incluem exuberantes temas instrumentais como Double dip (Alberto Continentino) e Coragem (Alberto Continentino). Temas gravados com uma banda de sonhos - formada por Altair Martins (trompete), Arthur Dutra (vibrafone), Donatinho (piano) Guilherme Monteiro (guitarra), Kassin (produtor do disco ao lado de Continentino e piloto de vários instrumentos), Leo Gandelman (sax), Marlon Sette (trombone) e Stéphane San Juan (bateria), além evidentemente do dono do disco - que ajuda a expor a musicalidade multifacetada de Continentino, virtuose com vasta militância na cena instrumental nacional e que também fala a língua do jazz, mas com groove. Contudo, Ao som dos planetas é também - e principalmente - um disco de amor. Sem vocação nata para o canto, Continentino optou por dividir as interpretações da maior parte das canções com sua mulher, Vivian Miller, a Biboh, partner dos duetos afetivos que pautam o disco tanto quanto os temas instrumentais. Tanto que, por mais que Ao som dos planetas gravite na galáxia de timbres modernos produzidos por Kassin e cia., o disco abre com canção, Tic tac (Alberto Continentino com letra de Moreno Veloso), que exprime ternura antiga, fazendo ode ao tempo dos casais. Tudo (Alberto Continentino e Domenico Lancellotti) - do sintomático verso "Tudo se parece com você" - também dá corda (e percussão) a esse romantismo, sintetizando de certa forma o disco por ambientar uma letra apaixonada no clima viajante do arranjo. O amor é tratado em Ao som dos planetas com pureza infantil. O que explica o tom lúdico de Náufrago (Alberto Continentino e Domenico Lancellotti) - cujos sons do arranjo parecem vir em ondas como o mar - e o título Hora do lanchinho para um tema instrumental que ecoa influências benéficas das obras de João Donato e (sobretudo) Marcos Vale, tal como Sessão da tarde (Alberto Continentino), tema sem letra levado pelos vocalises harmoniosos do casal Alberto e Vivian (grávida de Yan na época da gestação do disco). Mas o som é de adulto, como atesta o arranjo espacial de Sistema de som (Alberto Continentino e Domenico Lancellotti), música que deu nome ao primeiro álbum solo de Stéphane San Juan, Système de son (Maravilha 8, Pommello Distribuições, 2014), com os versos em francês escritos por Juan. Enfim, disco no qual se detectam ecos da obra de Hermeto Pascoal e da música negra norte-americana, entre outras honrosas referências, Ao som do planeta dá a Continentino o merecido papel de protagonista, mantendo o status de um compositor e músico excepcional que - vale repetir - tem tido papel fundamental na solidificação da cena musical contemporânea carioca.

ADEMAR AMANCIO disse...

É mais um que desconheço.Vale repetir:Já tem mais artista que plateia.

Ronaldo Muniz disse...

Achei incoerente a sua cotação perante ao texto. Na primeira audição concordei contigo. Mas na segunda discordei, pois já estava discordando, e dei repeat novamente. O melhor do ano que escutei (Marcos Valle + Stereolab)