Mauro Ferreira no G1

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quinta-feira, 11 de junho de 2015

26º Prêmio é viagem do centro de Bethânia ao seu 'recôncavo aconchegante'

Resenha da cerimônia de entrega do 26º Prêmio da Música Brasileira
Título: 26º Prêmio da Música Brasileira - Homenagem a Maria Bethânia
Artista: vários
Local: Theatro Municipal do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 10 de junho de 2015
Direção geral: José Maurício Machline
Direção musical: Cristóvão Bastos
Roteiro: Zélia Duncan
Fotos: Rodrigo Gofffredo
Cotação: * * * 1/2

Foi sintomático que, ao fim da cerimônia de entrega do 26º Prêmio da Música Brasileira, todos os artistas convidados a interpretar músicas e textos tenham retornado ao palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro para cumprimentar Maria Bethânia com beijos e abraços ao som de Imbelezô eu (Roque Ferreira, 2014) num ritual de beija-mão que demarcou o território ocupado pela cantora baiana na noite de 10 de junho de 2015. No belo texto em que saudou na abertura o poder da voz, instrumento de cantores como Bethânia, o ator paulistano Juca de Oliveira disse - pelas belas palavras de Zélia Duncan, autora do roteiro - que a emissão de uma voz poderosa como a de Bethânia é uma viagem do âmago de um intérprete "ao centro de nós", o público. No caso da cerimônia do 26º Prêmio da Música Brasileira, a festa-show pareceu também e sobretudo uma viagem do centro da própria Bethânia ao seu "recôncavo aconchegante", para citar outra expressão incluída no texto muito bem interpretado pelo ator. É como se o 26º Prêmio da Música Brasileira tivesse sido uma homenagem de Bethânia a si própria pelos coerentes 50 anos de carreira festejados neste ano de 2015. A própria escolha das músicas do roteiro musical - não necessariamente as mais representativas da discografia da cantora, mas as que a tocam mais - corroborou a sensação que Bethânia estava ali se auto-homenageando, reiterando mais uma vez o seu poder de diva das divas, como conceituou a amiga Alcione em discurso bem-humorado e improvisado que quebrou o protocolo da noite. Bethânia pouco falou. Mas agradeceu por meio da interpretação do texto que escreveu para seu show Abraçar e agradecer (2015). E cantou, abrindo os números musicais com a dobradinha Missa agrária (Carlos Lyra e Gianfrancesco Guarnieri, 1965) e Carcará (João do Vale e José Cãndido, 1965). Sim, onde queres mistério, Bethânia é a luz. E, assim, abrindo a cerimônia com sua voz magnética, a cantora atingiu logo o centro de nós e impediu o gran finale com a expectativa que poderia ter sido criada em torno de sua aparição no palco no (des)fecho da festa. Mas Bethânia é Bethânia. Afirmou convicções até quando errou a letra de O quereres (Caetano Veloso, 1984) - "Tinha que errar", disse de pronto - e, na sequência, cantou Fera ferida (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1982). Finda a entrada triunfal de sua alteza, os atores Alexandre Nero e Dira Paes assumiram os postos de apresentadores e se revezaram nas apresentações dos números musicais e da entrega dos troféus aos vencedores das 16 categorias da premiação. O medley do pernambucano Lenine - que juntou O último pau de arara (José Guimarães, Corumbá e Venâncio, 1956) com Pau de arara (Luiz Gonzaga e Guio de Moraes, 1952) - é o melhor exemplo de como nem todos os números musicais traduziram o canto de Bethânia. O de Lenine faria mais sentido num tributo a Elba Ramalho, já que o Nordeste cantado por Bethânia gravita cada vez mais em torno de seu Recôncavo Baiano. Já o número que juntou Adriana Calcanhotto, Arnaldo Antunes e Chico César - que belamente deram voz a Âmbar (Adriana Calcanhotto, 1996), Lua vermelha (Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, 1996) e Estado de poesia (Chico César, 2013), respectivamente - poderia ter investido mais na interação entre os artistas. De todo modo, os três não foram farejados por Bethânia, como deu a entender o texto do roteiro. Quando entraram na discografia da intérprete, a partir do álbum Âmbar (EMI Music, 1996), os três já eram famosos em escala nacional. Presença arisca na cena nacional, o compositor baiano Roque Ferreira mostrou a cara e a voz opaca em número dividido com a cantora Fabiana Cozza. O medley com Imbelezô eu (Roque Ferreira, 2014), Coroa do mar (Roque Ferreira, 2009) e Santo Amaro (Roque Ferreira e Délcio Carvalho, 2006) se embelezou mesmo quando a voz de Cozza tomou a dianteira do número. Segura, Zélia Duncan fez Rosa dos ventos (Chico Buarque, 1971) girar com intensidade crescente, mas sem buscar um caminho excessivamente dramático que a faria se chocar com a interpretação definitiva de Bethânia. Majestosa, Alcione mereceu os aplausos de pé quando entortou e encarou Negue (Adelino Moreira e Enzo Almeida Passos, 1960) se deliciando com os versos desse samba-canção regravado por Bethânia no álbum Álibi (Philips, 1978). O número, que ilustrou o gosto de Bethânia por temas de tom passional, teve sequência com a récita ofegante do texto Quando o amor vacila (2002) pela atriz Letícia Sabatella e com o artificialismo over de Johnny Hooker em outro samba-canção, Lama (Paulo Marques e Alice Chaves, 1952). Na sequência dos números musicais, os irmãos Dori Caymmi e Nana Caymmi confirmaram a afinidade e a maestria no dueto de Pra dizer adeus (Edu Lobo e Torquato Neto, 1967). Sem erro ou pose, Caetano Veloso também brilhou ao cantar o samba De manhã (Caetano Veloso, 1965) introduzido sagazmente por Queda d'água (Caetano Veloso, 1979), música em que cita a "presença toda sã" de sua irmã e que foi gravada por Bethânia no disco Mel (Philips, 1979). Também sem erro e sem pose, Mônica Salmaso entrou em cena para lembrar músicas do álbum Brasileirinho (Biscoito Fino, 2003) - entre elas Sussuarana (Hekel Tavares e Luiz Peixoto, 1928) e o samba Padroeiro do Brasil (Ary Monteiro e Irany de Oliveira, 1953) - ao lado de Jackson Antunes, ator que encarnou em cena o sertanejo nacional. Na sequência, ressoaram os tambores para Mariene de Castro fazer o santo baixar - em número que teve bailarinos e intervenções de Elisa Lucinda - com interpretações luminosas de músicas como Iansã (Caetano Veloso e Gilberto Gil, 1972) e As Ayabás (Caetano Veloso e Gilberto Gil, 1976).  Da plateia, de onde assistiu à cerimônia que expôs fotos raras de várias fases de sua carreira, Bethânia parecia ratificar que, sim, a dona do terreiro era ela. Tanto que voltou para ocupar seu lugar central no palco - após o ator Matheus Nachtergaele recitar, na íntegra, o Poema do menino Jesus (Fernando Pessoa, 1914) - e interpretou um de seus maiores hits, Explode coração (Gonzaguinha, 1978), e balançou ao som de Vento de lá (Roque Ferreira, 2007). Em noite de reverências e autorreferências, Maria Bethânia - cantora-orixá - comandou os ventos e a força dos elementos que compuseram a festa-show do 26º Prêmio da Música Brasileira.

11 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Foi sintomático que, ao fim da cerimônia de entrega do 26º Prêmio da Música Brasileira, todos os artistas convidados a interpretar músicas e textos tenham retornado ao palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro para cumprimentar Maria Bethânia com beijos e abraços ao som de Imbelezou eu (Roque Ferreira, 2014) num ritual de beija-mão que demarcou o território ocupado pela cantora baiana na noite de 10 de junho de 2015. No belo texto em que saudou na abertura o poder da voz, instrumento de cantores como Bethânia, o ator paulistano Juca de Oliveira disse - pelas belas palavras de Zélia Duncan, autora do roteiro - que a emissão de uma voz poderosa como a de Bethânia é uma viagem do âmago de um intérprete "ao centro de nós", o público. No caso da cerimônia do 26º Prêmio da Música Brasileira, a festa-show pareceu também e sobretudo uma viagem do centro da própria Bethânia ao seu "recôncavo aconchegante", para citar outra expressão incluída no texto muito bem interpretado pelo ator. É como se o 26º Prêmio da Música Brasileira tivesse sido uma homenagem de Bethânia a si própria pelos coerentes 50 anos de carreira festejados neste ano de 2015. A própria escolha das músicas do roteiro musical - não necessariamente as mais representativas da discografia da cantora, mas as que a tocam mais - corroborou a sensação que Bethânia estava ali se auto-homenageando, reiterando mais uma vez o seu poder de diva das divas, como conceituou a amiga Alcione em discurso bem-humorado e improvisado que quebrou o protocolo da noite. Bethânia pouco falou. Mas agradeceu por meio da interpretação do texto que escreveu para seu show Abraçar e agradecer (2015). E cantou, abrindo os números musicais com a dobradinha Missa agrária (Carlos Lyra e Gianfrancesco Guarnieri, 1964) e Carcará (João do Vale e José Cãndido, 1964). Sim, onde queres mistério, Bethânia é a luz. E, assim, abrindo a cerimônia com sua voz magnética, a cantora atingiu logo o centro de nós e impediu o gran finale com a expectativa que poderia ter sido criada em torno de sua aparição no palco no (des)fecho da festa. Mas Bethânia é Bethânia. Afirmou convicções até quando errou a letra de O quereres (Caetano Veloso, 1984) - "Tinha que errar", disse de pronto - e, na sequência, cantou Fera ferida (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1982). Finda a entrada triunfal de sua alteza, os atores Alexandre Nero e Dira Paes assumiram os postos de apresentadores e se revezaram nas apresentações dos números musicais e da entrega dos troféus aos vencedores das 16 categorias da premiação. O medley do pernambucano Lenine - que juntou O último pau de arara (José Guimarães, Corumbá e Venâncio, 1956) com Pau de arara (Luiz Gonzaga e Guio de Moraes, 1952) - é o melhor exemplo de como nem todos os números musicais traduziram o canto de Bethânia. O de Lenine faria mais sentido num tributo a Elba Ramalho, já que o Nordeste cantando por Bethânia gravita cada vez mais em torno de seu Recôncavo Baiano. Já o número que juntou Adriana Calcanhotto, Arnaldo Antunes e Chico César - que interpretaram Âmbar (Adriana Calcanhotto, 1996), Lua vermelha (Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, 1996) e Estado de poesia (Chico César, 2013), respectivamente - poderia ter investido mais na interação entre os artistas. De todo modo, os três não foram farejados por Bethânia, como deu a entender o texto do roteiro. Quando entraram na discografia da intérprete, a partir do álbum Âmbar (EMI Music, 1966), os três já eram famosos em escala nacional. Presença arisca na cena nacional, o compositor baiano Roque Ferreira mostrou a cara e a voz opaca em número dividido com a cantora Fabiana Cozza. O medley com Imbelezou eu (Roque Ferreira, 2014), Coroa do mar (Roque Ferreira, 2009) e Santo Amaro (Roque Ferreira e Délcio Carvalho, 2009) se embelezou mesmo quando a voz de Cozza tomou a dianteira do número. Segura, Zélia Duncan fez Rosa dos ventos (Chico Buarque, 1971) girar com intensidade crescente, mas sem buscar um caminho excessivamente dramático que a faria se chocar com a interpretação definitiva de Bethânia.

Mauro Ferreira disse...

Majestosa, Alcione mereceu os aplausos de pé quando entortou e encarou Negue (Adelino Moreira e Enzo Almeida Passos, 1960) se deliciando com os versos desse samba-canção regravado por Bethânia no seu álbum Álibi (Philips, 1978). O número, que ilustrou o gosto de Bethânia por temas de tom passional, teve sequência com a récita ofegante do texto Quando o amor vacila (2002) pela atriz Letícia Sabatella e com o artificialismo over de Johnny Hooker em outro samba-canção, Lama (Paulo Marques e Alice Chaves, 1952). Na sequência dos números musicais, os irmãos Dori Caymmi e Nana Caymmi confirmaram a afinidade e a maestria no dueto de Pra dizer adeus (Edu Lobo e Torquato Neto, 1967). Sem erro ou pose, Caetano Veloso também brilhou ao cantar o samba De manhã (Caetano Veloso, 1965) introduzido sagazmente por Queda d'água (Caetano Veloso, 1979), música em que cita a "presença toda sã" de sua irmã e que foi gravada por Bethânia no disco Mel (Philips, 1979). Também sem erro e sem pose, Mônica Salmaso entrou em cena para lembrar músicas do álbum Brasileirinho (Biscoito Fino, 2003) - entre elas Sussuarana (Hekel Tavares e Luiz Peixoto, 1928) e o samba Padroeiro do Brasil (Ary Monteiro e Irany de Oliveira, 1959) - ao lado de Jackson Antunes, ator que encarnou em cena o sertanejo nacional. Na sequência, ressoaram os tambores para Mariene de Castro fazer o santo baixar - em número que teve bailarinos e intervenções de Elisa Lucinda - com interpretações luminosas de músicas como Iansã (Caetano Veloso e Gilberto Gil, 1972) e As Ayabás (Caetano Veloso e Gilberto Gil, 1976). Da plateia, de onde assistiu à cerimônia que expôs fotos raras de várias fases de sua carreira, Bethânia parecia ratificar que, sim, a dona do terreiro era ela. Tanto que voltou para ocupar seu lugar central no palco - após o ator Matheus Nachtergaele interpretar, na íntegra, o Poema do menino Jesus (Fernando Pessoa) - e interpretou um de seus maiores hits, Explode coração (Gonzaguinha, 1978), e balançou ao som de Vento de lá (Roque Ferreira, 2007). Em noite de reverências e autorreferências, Maria Bethânia - cantora-orixá - comandou os ventos e a força dos elementos que compuseram a festa-show do 26º Prêmio da Música Brasileira.

RODRIGO SANTOS SANTANA disse...

O disco âmbar é de 1996 e não 1966.

Fernando disse...

Parabéns pela resenha do Prêmio! E a ausência de Fernanda Montenegro. O que aconteceu?

Mauro Ferreira disse...

Grato, Rodrigo, pelo toque do erro de digitação. Abs, MauroF

Mauro Ferreira disse...

Fernando, pode ser que Fernanda tenha tido compromissos com a gravação da novela 'Babilônia'. Abs, MauroF

italo vinicius disse...

Boa tarde Mauro sabe dizer o dia que passa na TV pois vi uma chamada no canal viva mais não vi dia nem.hora sera que foi ontem mesmo ?

Dona Emengarda disse...

Mauro, o medley de Bethania tem tudo a ver. Afinal faz parte do disco e show "Nossos momentos"!
E você esqueceu de comentar sobre a apresentação de Renata Sorrah!

Mauro Ferreira disse...

Italo, o Canal Viva vai transmitir a premiação no sábado. abs

italo vinicius disse...

Obg ..

Rafael M. disse...

Realmente esse prêmio é uma panelinha do sr. Machiline... É triste ver que artistas independentes quase sempre são esquecidos...