Mauro Ferreira no G1

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quinta-feira, 25 de junho de 2015

'Estado de poesia' não altera consciência social de Chico em CD apaixonado

Resenha de CD
Título: Estado de poesia
Artista: Chico César
Gravadora: Chita Discos / Urban Jungle / Pommelo Distribuições / Lab Fantasma
Cotação: * * * *

Quando tudo era ausência, de discos e de amor, Chico César esperou. Até que encontrou a paraibana Bárbara Santos, paixão à primeira vista que inspirou parte do repertório de seu nono álbum solo, Estado de poesia, o primeiro disco de inéditas desde o inspirado Francisco, forró y frevo (Chita Discos e EMI Music, 2008). Represada em disco há sete anos, a produção autoral inédita do compositor se (re)apresenta com vigor, derramando na calda da maioria das 14 composições autorais a polpa da paixão, mote do disco gravado pelo cantor e compositor paraibano com músicos de sua terra natal e finalizado por Chico com o guitarrista austríaco Michi Ruzitschka, produtor do disco ao lado do próprio artista. Explicitado em músicas como Museu (Chico César), esse tom apaixonado já havia sido sinalizado pelo single Da taça (Chico César), lançado em 2 de junho de 2015. Embriagante, Da taça bebe da abolerada canção sentimental com leve toque de erotismo. Mas a canção que melhor traduz o estado inebriante da paixão é a música que dá título ao disco, Estado de poesia (Chico César), a belíssima canção lançada por Maria Bethânia no show Carta de amor (2012 / 2013), entranhada no oásis sertanejo do universo da intérprete que nos últimos anos mais tem dado a voz a Chico César, artista revelado há 20 anos com CD, Aos vivos (Velas, 1995), que jogou no mercado um repertório que provocou disputas entre cantoras. Estado de poesia é a única música já conhecida de um disco que derrama paixão sem cair na breguice. Feita na ponte amorosa que ligava Caracas (cidade da Venezuela onde Chico se encontrava na ocasião) e Aracaju (onde estava a musa Bárbara), Caracajus (Chico César) faz poesia com versos que mostram a alma apaixonada saindo pela boca ("Apalpo muito pouco a pouco / Palpos dos sonhos mais loucos"). Já Caninana (Chico César) - xote de guitarra e de pegada roqueira - expele um xêro no cangote, antídoto contra o despertar do sonho amoroso vivido ao som de um acordeom. Já o reggae Palavra mágica (Chico César) entra na batida de um coração de novela. Contudo, o estado de poesia amorosa de Chico César não altera sua consciência social e política. Iluminado pela musa que atravessa a cidade para lhe fazer cidadão, como poetiza no samba-rock à Jorge Ben Jor Atravessa-me (Chico César), mas também pela experiência de ter ocupado cargo público em João Pessoa (PB), o compositor dá seus toques sociais entre as 14 composições do disco com a mesma intensidade de sua paixão pela musa do álbum. Como um trovador à moda de Bob Dylan, Chico dispara ao longo de onze minutos - munido somente de sua voz e sua guitarra - as denúncias políticas de Os reis do agronegócio (Chico César e Carlos Rennó), libelo contra a praga da agricultura sem lei e sem controle de qualidade. Alberto (Chico César) é frevo frenético que alude poeticamente à homossexualidade do aeronauta mineiro Santos Dumont (1873 - 1932) em versos como "Alado qual borboleta / Na nuvem Alberto vai". Samba à moda do compositor paulista Adoniran Barbosa (1910 - 1982), cantado por Chico em dueto com o cantor Escurinho, No Sumaré dá rasante sobre a paisagem noturna atualmente povoada por cracudos paulistanos num dos corações da cidade. Mas há vida na morte. Parceria póstuma com o poeta tropicalista Torcuato Neto (1944 - 1972), gerada a partir de show feito pelo cantor em 2011, Quero viver exala vivacidade rítmica na pulsação forrozeira do Nordeste que gerou o poeta piauiense. Já Negão é reggae que não nega a raça nem o racismo disseminado como uma praga que dizima as plantações humanas. Chico divide a interpretação provocativa de Negão com o cantor baiano Lazzo Matumbi, mostrando como tentam negar a cor real do Brasil. Entre temas de formatação explicitamente pop, como Guru (Chico César), o artista celebra a beleza a e liberdade da vida em Miaêro (Chico César), tema que evoca as mornas de Cabo Verde. Em estado de paixão e plena musicalidade, Chico César volta ao mercado fonográfico com um ótimo disco dirigido aos vivos, aos que ainda se permitem entorpecer pelo estado de poesia sem se anestesiar face à vida e aos dilemas cotidianos.

6 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Quando tudo era ausência, de discos e de amor, Chico César esperou. Até que encontrou a paraibana Bárbara Santos, paixão à primeira vista que inspirou parte do repertório de seu nono álbum solo, Estado de poesia, o primeiro disco de inéditas desde o inspirado Francisco, forró y frevo (Chita Discos e EMI Music, 2008). Represada em disco há sete anos, a produção autoral inédita do compositor se (re)apresenta com vigor, derramando na calda da maioria das 14 composições autorais a polpa da paixão, mote do disco gravado pelo cantor e compositor paraibano com músicos de sua terra natal e finalizado por Chico com o guitarrista austríaco Michi Ruzitschka, produtor do disco ao lado do próprio artista. Explicitado em músicas como Museu (Chico César), esse tom apaixonado já havia sido sinalizado pelo single Da taça (Chico César), lançado em 2 de junho de 2015. Embriagante, Da taça bebe da canção popular sentimental com leve toque de erotismo. Mas a canção que melhor traduz o estado inebriante da paixão é a música que dá título ao disco, Estado de poesia (Chico César), a belíssima canção lançada por Maria Bethânia no show Carta de amor (2012 / 2013), entranhada no oásis sertanejo do universo da intérprete que nos últimos anos mais tem dado a voz a Chico César, artista revelado há 20 anos com CD, Aos vivos (Velas, 1995), que jogou no mercado um repertório que provocou disputas entre cantoras. Estado de poesia é a única música já conhecida de um disco que derrama paixão sem cair na breguice. Feita na ponte amorosa que ligava Caracas (cidade da Venezuela onde Chico se encontrava na ocasião) e Aracaju (onde estava a musa Bárbara), Caracajus (Chico César) faz poesia com versos que mostram a alma apaixonada saindo pela boca ("Apalpo muito pouco a pouco / Palpos dos sonhos mais loucos"). Já Caninana (Chico César) - xote de guitarra e de pegada roqueira - expele um xêro no cangote, antídoto contra o despertar do sonho amoroso vivido ao som de um acordeom. Já o reggae A palavra mágica (Chico César) entra na batida de um coração de novela.

Mauro Ferreira disse...

Contudo, o estado de poesia amorosa de Chico César não altera sua consciência social e política. Iluminado pela musa que atravessa a cidade para lhe fazer cidadão, como poetiza no samba-rock à Jorge Ben Jor Atravessa-me (Chico César), mas também pela experiência de ter ocupado cargo público em João Pessoa (PB), o compositor dá seus toques sociais entre as 14 composições do disco com a mesma intensidade de sua paixão pela musa do álbum. Como um trovador à moda de Bob Dylan, Chico dispara ao longo de onze minutos - munido somente de sua voz e sua guitarra - as denúncias de Os reis do agronegócio (Chico César e Carlos Rennó), libelo contra a praga da agricultura sem controle de qualidade. Alberto (Chico César) é frevo frenético que alude poeticamente à homossexualidade do aeronauta mineiro Santos Dumont (1873 - 1932) em versos como "Alado qual borboleta / Na nuvem Alberto vai". Samba à moda do compositor paulista Adoniran Barbosa (1910 - 1982), cantado por Chico em dueto com o cantor Escurinho, No Sumaré dá rasante sobre a paisagem noturna atualmente povoada por cracudos paulistanos num dos corações da cidade. Mas há vida na morte. Parceria póstuma com o poeta tropicalista Torcuato Neto (1944 - 1972), gerada a partir de show feito pelo cantor em 2011, Quero viver exala vivacidade rítmica na pulsação forrozeira do Nordeste que gerou o poeta piauiense. Já Negão é reggae que não nega a raça nem o racismo disseminado como uma praga que dizima as plantações humanas. Chico divide a interpretação provocativa de Negão com o cantor baiano Lazzo Matumbi, mostrando como tentam negar a cor real do Brasil. Entre temas de formatação explicitamente pop, como Guru (Chico César), o artista celebra a beleza a e liberdade da vida em Miaêro (Chico César), tema que evoca as mornas de Cabo Verde. Em estado de paixão e plena musicalidade, Chico César volta ao mercado fonográfico com um ótimo disco dirigido aos vivos, aos que ainda se permitem entorpecer pelo estado de poesia sem se anestesiar face à vida e aos dilemas cotidianos.

Rafael M. disse...

Eu ouvi o disco e gostei muito do mesmo... Só mostra que ele é um excelente compositor...

Cristiano Melo disse...

Mauro, existe algum critério para a escolha da cor da fonte quando vc destaca o nome de alguma música? heehhehe

PS.: este azul acaba com minha vista.
PPS.: By the way, bela crítica! Vou conferir este trabalho.

Mauro Ferreira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mauro Ferreira disse...

Cristiano, a cor da fonte dos nomes da música está em sintonia com a cor da capa do disco. abs, MauroF

26 de junho de 2015 19:03