Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


domingo, 7 de junho de 2015

Kleiton & Kledir se reciclam em álbum criado com letras de escritores do Sul

Resenha de CD
Título: Com todas as letras
Artista: Kleiton & Kledir
Gravadora: Biscoito Fino
Cotação: * * * 1/2

Há 40 anos, em 1975, Kleiton & Kledir deram seu primeiro significativo passo fonográfico com a edição do primeiro álbum do grupo gaúcho Almôndegas, do qual os irmãos Ramil faziam parte, ainda longe demais das capitais. Já naquela época surgiu a ideia de fazer uma música a partir de texto ou poema do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu (1948 - 1996). A ideia somente foi concretizada 20 anos depois, em 1995, quando Caio lançou o livro Ovelhas negras, coletânea de textos escritos entre 1962 e aquele ano de 1995. O livro incluía Lixo e purpurina, conto sobre marginalização social escrito por Caio em Londres, na Inglaterra, nos anos 1970. Transformado em letra de música, com a liberdade e o aval dados por Caio, o texto deu origem à canção também intitulada Lixo e purpurina. Decorridos mais 20 anos, Lixo e purpurina ganha, enfim, o mundo no 12º álbum da dupla gaúcha, Com todas as letras, em gravação feita com a adesão da cantora conterrânea Adriana Calcanhotto. Projeto ambicioso da dupla, o álbum foi construído a partir da musicalização de letras de escritores do Sul do Brasil. Só que, no geral, em vez de musicarem textos já prontos, Kleiton & Kledir criaram melodias em cima de textos inéditos criados para virarem música a pedido deles. O processo de criação está documentado no DVD dirigido e roteirizado por Gustavo Fogaça. O DVD vem juntamente com o CD produzido por Christiaan Oyens e recém-distribuído pela gravadora Biscoito Fino. Mesmo que Kleiton & Kledir não atinjam o alto grau de inspiração de seu último projeto fonográfico feito em estúdio, o disco infantil Par ou ímpar (Selo Biscoitinho / Biscoito Fino, 2011), a dupla alcança bom resultado neste harmonioso Com todas as letras. Há simbiose entre músicas e textos. Melodias e versos parecem ajustados de forma natural. Vale destacar Mistérios do bule monstro (Brincando na praça dos enforcados), música feita sobre texto de Lourenço Cazarré cujo universo fantasmagórico remete à Canção da meia-noite (Zé Flávio, 1975), único sucesso em escala nacional do grupo Almôndegas. A melodia de Pingos nos is tem o acento pop e coloquial da prosa da escritora Martha Medeiros. Já Rochas - faixa que embute o canto falado do autor da letra, Paulo Scott, sem simular a batida do rap - é a gravação de tom mais contemporâneo. Já a atualidade de Felizes para sempre está mais na letra de Claudia Tajes, que narra romance que teve começo, meio e fim no espaço de um único dia. A melodia graciosa da dupla acompanha o tempo dos versos. O toque da guitarra e do violão de Daniel Galera - autor da letra Vinte e oito escovas de dentes - faz a diferença da faixa mais pelo fato de promover a interação do escritor com a música além da criação da letra. A faixa é outro trunfo de Com todas as letras, álbum que também traz textos de Letícia Wierzchowski (Piscina, cujos versos mostram uma mãe - a autora - se refletindo no filho através da prática da natação) e de Luis Fernando Veríssimo (Olho mágico, terceira incursão do escritor no mundo da música). Enfim, Com todas as letras mostra Kleiton & Kledir em pleno exercício criativo, fora da zona de conforto.  Aos 40 anos de carreira, os irmãos Ramil parecem guris em estado de excitação juvenil.

2 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Há 40 anos, em 1975, Kleiton & Kledir deram seu primeiro significativo passo fonográfico com a edição do primeiro álbum do grupo gaúcho Almôndegas, do qual os irmãos Ramil faziam parte, ainda longe demais das capitais. Já naquela época surgiu a ideia de fazer uma música a partir de texto ou poema do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu (1948 - 1996). A ideia somente foi concretizada 20 anos depois, em 1995, quando Caio lançou o livro Ovelhas negras, coletânea de textos escritos entre 1962 e aquele ano de 1995. O livro incluía Lixo e purpurina, conto sobre marginalização social escrito por Caio em Londres, na Inglaterra, nos anos 1970. Transformado em letra de música, com a liberdade e o aval dados por Caio, o texto deu origem à canção também intitulada Lixo e purpurina. Decorridos mais 20 anos, Lixo e purpurina ganha, enfim, o mundo no 12º álbum da dupla gaúcha, Com todas as letras, em gravação feita com a adesão da cantora conterrânea Adriana Calcanhotto. Projeto ambicioso da dupla, o álbum foi construído a partir da musicalização de letras de escritores do Sul do Brasil. Só que, no geral, em vez de musicarem textos já prontos, Kleiton & Kledir criaram melodias em cima de textos inéditos criados para virarem música a pedido deles. O processo de criação está documentado no DVD dirigido e roteirizado por Gustavo Fogaça. O DVD vem juntamente com o CD produzido por Christiaan Oyens e recém-distribuído pela gravadora Biscoito Fino. Mesmo que Kleiton & Kledir não atinjam o alto grau de inspiração de seu último projeto fonográfico feito em estúdio, o disco infantil Par ou ímpar (Selo Biscoitinho / Biscoito Fino, 2011), a dupla alcança bom resultado neste harmonioso Com todas as letras. Há simbiose entre músicas e textos. Melodias e versos parecem ajustados de forma natural. Vale destacar Mistérios do bule monstro (Brincando na praça dos enforcados), música feita sobre texto de Lourenço Cazarré cujo universo fantasmagórico remete à Canção da meia-noite (Zé Flávio, 1975), único sucesso em escala nacional do grupo Almôndegas. A melodia de Pingos nos is tem o acento pop e coloquial da prosa da escritora Martha Medeiros. Já Rochas - faixa que embute o canto falado do autor da letra, Paulo Scott, sem simular a batida do rap - é a gravação de tom mais contemporâneo. Já a atualidade de Felizes para sempre está mais na letra de Claudia Tajes, que narra romance que teve começo, meio e fim no espaço de um único dia. A melodia graciosa da dupla acompanha o tempo dos versos. O toque da guitarra e do violão de Daniel Galera - autor da letra Vinte e oito escovas de dentes - faz a diferença da faixa mais pelo fato de promover a interação do escritor com a música além da criação da letra. A faixa é outro trunfo de Com todas as letras, álbum que também traz textos de Letícia Wierzchowski (Piscina, cujos versos mostram uma mãe - a autora - se refletindo no filho através da prática da natação) e de Luis Fernando Veríssimo (Olho mágico, terceira incursão do escritor no mundo da música). Enfim, Com todas as letras mostra Kleiton & Kledir em pleno exercício criativo, fora da zona de conforto. Aos 40 anos de carreira, os irmãos Ramil parecem guris em estado de excitação juvenil.

Mauro Silva disse...

Ai,que saudade deles ! Tô curioso pra ouvir este trabalho.