Mauro Ferreira no G1

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quinta-feira, 29 de março de 2012

Acorda em festa no perfeito show 'Recanto' a voz que o cantar deu a Gal

Resenha de show
Título: Recanto
Artista: Gal Costa (em foto de Rodrigo Amaral)
Local: Miranda (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 24 de março de 2012
Cotação: * * * * *
Show em cartaz na casa Miranda, no Rio de Janeiro (RJ), até 31 de março de 2012

A singular voz cristalina de Gal Costa nunca deixou de estar com a cantora até nos shows de entressafra, mas parecia adormecida pela reduzida ambição artística dessas apresentações de voz e violão, feitas eventualmente por Gal em todo o Brasil nos últimos anos. No perfeito show Recanto, a voz que o cantar deu a Gal acorda em festa e em paz com a história da cantora, musa tropicalista da contracultura dos anos 60. Essa voz tem sido a bússola de Gal, mas também sua desorientação - como a própria cantora explicita em verso de Minha Voz, Minha Vida (Caetano Veloso, 1982), quando sua voz se junta ao violão de Pedro Baby em número mais acústico de Recanto. Nesse show concebido e dirigido por Caetano Veloso para a cantora estrear na Miranda, a nova e sofisticada casa de shows do Rio de Janeiro (RJ), Gal está vários tons acima da acomodação. A voz que sempre esteve lá dá a impressão de ter voltado por ação de uma força estranha que talvez atenda pelo nome de alma. Gal Costa está cantando com alma as 22 músicas do roteiro do show Recanto. A luz outrora escondida volta a brilhar, resplandece, enquanto Gal passa em revista - no toque indie do trio formado por Domenico Lancellotti (bateria e MPC), Pedro Baby (guitarra e violão) e Bruno Di Lullo (baixo) - músicas emblemáticas de sua discografia. Se há em Mansidão (Caetano Veloso, 1982) ligeiros ecos da tímida Gracinha que idolatrava João Gilberto, há na batida roqueira de Divino Maravilhoso (Caetano Veloso e Gilberto Gil, 1968) breve reanimação da alma janisjopliana que movia Gal em alguns registros de sua fase tropicalista. Mais do que o álbum renovador de 2011, o show Recanto reconecta Gal com sua história, apresentando no roteiro músicas de todos seus discos emblemáticos. Da Maior Importância (Caetano Veloso, 1973) abre o espetáculo como boa lembrança de Índia (1973). De Cantar (1974), Barato Total (Gilberto Gil, 1974) tem seu suingue reprocessado pelo trio e ganha o coro da plateia no "la la la la la" final. De Água Viva (1978), o bolero Folhetim (Chico Buarque, 1978) tem sua sensualidade sugerida pela levada do baixo de Bruno Di Lullo, destacado na moldura eletroacústica do arranjo. Baixo que torna Baby (Caetano Veloso, 1968) reconhecível aos primeiros acordes. De Gal Tropical (1979), Força Estranha (Caetano Veloso, 1978) arremata o show como se o tempo brincasse ao redor da voz tamanha da cantora. Voz que arrepia em Autotune Autoerótico (Caetano Veloso, 2011), que passeia à vontade pelo suingue de Deus É o Amor (Jorge Ben, 1968) e que esbanja versatilidade ao ressoar o trovão de Tim Maia (1942 - 1998) na balada Um Dia de Domingo (Michael Sullivan & Paulo Massadas, 1985). A habilidade de Gal ao reproduzir as partes cantadas por Tim na gravação original da canção - retumbante sucesso popular que tornou  Bem Bom (1985) o disco mais vendido da carreira de Gal Costa - dilui até a sensação de que a balada, por mais bonita que seja (e é) em sua simplicidade, soa como alien em roteiro em que 17 das 22 músicas são assinadas por Caetano. Com seu MPC, Domenico reproduz as programações criadas por Kassin para o CD Recanto, mas a densa atmosfera eletrônica do disco é diluída no show pelas intervenções acústicas do violão de Pedro Baby, condutor de Dom de Iludir (Caetano Veloso, 1976), música gravada por Gal no disco Minha Voz (1982). De todo modo, as músicas do CD Recanto crescem no show. Cara do Mundo (Caetano Veloso, 2011) expõe a face roqueira de Gal. Segunda (Caetano Veloso, 2011) evidencia a tal força estranha que está movendo a voz de Gal em cena. Recanto Escuro (Caetano Veloso, 2011) se confirma no palco como a obra-prima do disco pela melodia tristonha que parece se esconder da luz. Neguinho (Caetano Veloso, 2011) aparece na pressão, de início roqueira, depois mais radicalmente eletrônica. Já perto do fim o pancadão do funk Miami Maculelê (Caetano Veloso, 2011) motiva Gal a empinar o quadril para evocar a pose clássica das popozudas dos bailes da pesada enquanto Domenico canta o funk entoado no disco por Kassin. Antes do funk, Vapor Barato (Jards Macalé e Waly Salomão, 1971) navega elétrico, repaginado pelas intervenções eletrônicas e pelas distorções hendrixianas da guitarra de Pedro Baby. No bis, contradizendo verso da canção Meu Bem, Meu Mal (Caetano Veloso, 1981), lembrança do disco Fantasia (1981), Gal sai de cena como quem diz ter voltado para um porto nada seguro. E é justamente o fato de Gal estar tão plena em cena - confortável ate quando está fora de sua zona de conforto - que faz Recanto ser show divino, maravilhoso, um barato total. Um ponto culminante na trajetória de Gal nos palcos - assim como Fa-Tal Gal a Todo Vapor (1971), Plural (1990) e O Sorriso do Gato de Alice (1993). Uma força está levando Gal a cantar com a alma dos velhos tempos. E é por isso que Recanto deixa a impressão de que o tempo não pára e, no entanto, Gal rejuvenesce em cena. 

22 comentários:

Mauro Ferreira disse...

A singular voz cristalina de Gal Costa nunca deixou de estar com a cantora até nos shows de entressafra, mas parecia adormecida pela reduzida ambição artística dessas apresentações de voz e violão, feitas eventualmente por Gal em todo o Brasil nos últimos anos. No perfeito show Recanto, a voz que o cantar deu a Gal acorda em festa e em paz com a história da cantora, musa tropicalista da contracultura dos anos 60. Essa voz tem sido a bússola de Gal, mas também sua desorientação - como a própria cantora explicita em verso de Minha Voz, Minha Vida (Caetano Veloso, 1982), quando sua voz se junta ao violão de Pedro Baby em número mais acústico de Recanto. Nesse show concebido e dirigido por Caetano Veloso para a cantora estrear na Miranda, a nova e sofisticada casa de shows do Rio de Janeiro (RJ), Gal está vários tons acima da acomodação. A voz que sempre esteve lá dá a impressão de ter voltado por ação de uma força estranha que talvez atenda pelo nome de alma. Gal Costa está cantando com alma as 22 músicas do roteiro do show Recanto. A luz outrora escondida volta a brilhar, resplandece, enquanto Gal passa em revista - no toque indie do trio formado por Domenico Lancellotti (bateria e MPC), Pedro Baby (guitarra e violão) e Bruno Di Lullo (baixo) - músicas emblemáticas de sua discografia. Se há em Mansidão (Caetano Veloso, 1982) ligeiros ecos da tímida Gracinha que idolatrava João Gilberto, há na batida roqueira de Divino Maravilhoso (Caetano Veloso e Gilberto Gil, 1968) breve reanimação da alma janisjopliana que movia Gal em alguns registros de sua fase tropicalista.

Mauro Ferreira disse...

Mais do que o álbum renovador de 2011, o show Recanto reconecta Gal com sua história, apresentando no roteiro músicas de todos seus discos emblemáticos. Da Maior Importância (Caetano Veloso, 1973) abre o espetáculo como boa lembrança de Índia (1973). De Cantar (1974), Barato Total (Gilberto Gil, 1974) tem seu suingue reprocessado pelo trio e ganha o coro da plateia no "la la la la la" final. De Água Viva (1978), o bolero Folhetim (Chico Buarque, 1978) tem sua sensualidade sugerida pela levada do baixo de Bruno Di Lullo, destacado na moldura eletroacústica do arranjo. Baixo que torna Baby (Caetano Veloso, 1968) reconhecível aos primeiros acordes. De Gal Tropical (1979), Força Estranha (Caetano Veloso, 1978) arremata o show como se o tempo brincasse ao redor da voz tamanha da cantora. Voz que arrepia em Autotune Autoerótico (Caetano Veloso, 2011), que passeia à vontade pelo suingue de Deus É o Amor (Jorge Ben, 1968) e que esbanja versatilidade ao ressoar o trovão de Tim Maia (1942 - 1998) na balada Um Dia de Domingo (Michael Sullivan & Paulo Massadas, 1985). A habilidade de Gal ao reproduzir as partes cantadas por Tim na gravação original da canção - retumbante sucesso popular que tornou Bem Bom (1985) o disco mais vendido da carreira de Gal Costa - dilui até a sensação de que a balada, por mais bonita que seja (e é) em sua simplicidade, soa como alien em roteiro em que 17 das 22 músicas são assinadas por Caetano. Com seu MPC, Domenico reproduz as programações criadas por Kassin para o CD Recanto, mas a densa atmosfera eletrônica do disco é diluída no show pelas intervenções acústicas do violão de Pedro Baby, condutor de Dom de Iludir (Caetano Veloso, 1976), música gravada por Gal no disco Minha Voz (1982). De todo modo, as músicas do CD Recanto crescem no show. Cara do Mundo (Caetano Veloso, 2011) expõe a face roqueira de Gal. Segunda (Caetano Veloso, 2011) evidencia a tal força estranha que está movendo a voz de Gal em cena. Recanto Escuro (Caetano Veloso, 2011) se confirma no palco como a obra-prima do disco pela melodia tristonha que parece se esconder da luz. Neguinho (Caetano Veloso, 2011) aparece na pressão, de início roqueira, depois mais radicalmente eletrônica. Já perto do fim o pancadão do funk Miami Maculelê (Caetano Veloso, 2011) motiva Gal a empinar o quadril para evocar a pose clássica das popozudas dos bailes da pesada enquanto Domenico canta o funk entoado no disco por Kassin. Antes do funk, Vapor Barato (Jards Macalé e Waly Salomão, 1971) navega elétrico, repaginado pelas intervenções eletrônicas e pelas distorções hendrixianas da guitarra de Pedro Baby. No bis, contradizendo verso da canção Meu Bem, Meu Mal (Caetano Veloso, 1981), lembrança do disco Fantasia (1981), Gal sai de cena como quem diz ter voltado para um porto nada seguro. E é justamente o fato de Gal estar tão plena em cena - confortável ate quando está fora de sua zona de conforto - que faz Recanto ser show divino, maravilhoso, um barato total. Um ponto culminante na trajetória de Gal nos palcos - assim como Fa-Tal Gal a Todo Vapor (1971), Plural (1990) e O Sorriso do Gato de Alice (1993). Uma força está levando Gal a cantar com a alma dos velhos tempos. E é por isso que Recanto deixa a impressão de que o tempo não pára e, no entanto, Gal rejuvenesce em cena.

Rafael disse...

Pelo roteiro das canções, estou certo de que é um show excelente e empolgante. Feito na medida certa para a grandiosa Gal. Espero que muito em breve percorra o país com esse espetáculo maravilhoso!!!

Marcelo disse...

Espero que dessa vez não deixem passar em branco e gravem um DVD com a qualidade q Gal merece!!!

Flávio disse...

Que bom! Tomara que registrem e que eu goste, porque o CD Recanto simplesmente não dá pé! Não consigo digerir nem Mansidão, Miami Maculelê, Recanto Escuro. Pra mim, não deu ou, como diz o povo, "deu ruim".

Eduardo Cáffaro disse...

Adoro Gal, tenho tudo. Gosto de muitas coisas e de outras não. Lendo a crítica, parece que o show é realmente sensacional. Vendo os videos que já estão no youtube, não dá pra ter essa sensação, o palco é cru, parece uma boate, ou barzinho. Sem cenário, sem nada. 3 músicos. E o Miami Maculele que está postado inteiro, está com o arranjo mais morto que no cd. Caramba. agora deu nó na minha cabeça ! rs

Anônimo disse...

Não gostei de como a voz de Gal envelheceu, mas gosto bastante deste último trabalho, oenso que só poderia ter sido gravado pela Gal. Fui pesquisar e penso que Bethânia não falou nada demais, ela só não viu uma conexão do trabalho com a obra e carreira que construiu e realmente não há, não haveria porque o disco ser dedicado a ela. É um trabalho que fala da evolução artística de Gal e Caetano. O convite partiu de Caetano, ele concebeu o trabalho. Logo é disco de Caetano, imterpretado pela Gal.

Marcelo Mota disse...

Olá Mauro - alguma notícia sobre esse show em SP? é verdade o boato sobre o show ser num dos SESCs da capital?

luis disse...

Acabei de ler na Folha a declaração da Bethania. Carlos Eduardo tem razão. Não há nada demais. Bethania foi convidada para o blog de poesia assim como Gal para gravar Recanto.Caetano,a própria Gal e alguns críticos disseram o mesmo. Bethania ainda elogia a bela voz da amiga. Perfeito.

EDELWEISS1948 disse...

SERÁ QUE A VOZ DE GAL RESSUCITOU?
ESPERO QUE SIM.

Sidney Gomes disse...

Mauro, vi uma entrevista do Caetano na qual ele diz que a voz masculina em "Miami Maculelê" é dele próprio, e não de Kassin.
No mais, bela crítica. Sabe se Gal vai viajar com este show? O site dela é muito desatualizado...

Rafael disse...

Não sei como muita gente torceu o nariz para o "Recanmto" e não gosta do mesmo. Achei um disco ousado, irrevente e diferente de tudo o que Gal já fez até hoje. Em certos momentos lembrou-me um pouco do som que ela fazia no início de carreira, com letras cabeça e também instropectivo por diversas vezes. Creio que o som conseguirá capturar a essência do disco. Logicamente que o tempo passa e a voz de um cantor envelhece, mas gosto do som da voz de Gal, para mim a mesma Gal dos tempos de outrora, consegesse ser precisa e impactante, mesmo que ainda esteja mais contida (mas incrível) nesse disco.

ggermanodiniz disse...

Só faltou ¨meu nome é gal¨ que eles tinham prometido pra este show. Tudo a ver.

Mauro Ferreira disse...

Aviso aos navegantes: há nos bastidores a informação de que o show vai rodar o Brasil a partir do fim de maio dentro do Circuito Sesc. Porém, tal informação ainda não foi confirmada oficialmente. Abs, MauroF

Rafael disse...

Também estranhei a ausência de "Meu Nome É Gal" no roteiro do show. Uma pena não estar incluída.

Anônimo disse...

O ano passado foi de Gal com o melhor disco da temporada e agora em 2012,com esse show onde volta inteira, genial e surpreendente,já começa a dar sinais que 2012 também será dela. Gal e "Recanto" não param de surpreender.

nando disse...

Maravilha saber que o show está incrível! "Recanto", o CD, já é um dos meus discos favoritos desde que foi lançado; a cada audição gosto mais dele e não canso de me impressionar com a beleza da voz de Gal (adoro os tons vocais em que ela registrou as músicas) e de como ela foi bem gravada.

Marcelo disse...

Gal realmente surpreendeu com o disco Recanto no ano passado e agora com o novo show percebe-se que ela está com pique novo e com vontade de cantar...

Luca disse...

rola uma unanimidade com o show... acho que todo mundo que viu o show foi lá pra gostar, e se não gostou, preferiu ficar quieto pra não passar por careta

Luca disse...

viram o vídeo do Caetano espinafrando a mulher que falou mal do show?

Mary Helen disse...

Não é não, Luca. É porque o show é bom mesmo! Eu fui ontem ao Miranda com esse pensamento, mas saí de lá convencido de que Gal ainda é a Dona da Voz!

Gilmar disse...

Esperando ansioso pela apresentação de RECANTO em Salvador. Gal, eterna Gal...