Mauro Ferreira no G1

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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Caixa 'Anos 70' prova que camaleão Ney sempre escolheu as próprias cores

Resenha de caixa de CDs
Título: Ney Matogrosso - Anos 70
Artista: Ney Matogrosso
Gravadora: Warner Music
Cotação: * * * *

Caso Ney Matogrosso concretize o projeto de gravar neste ano de 2016 álbum com músicas de compositores rotulados como malditos, como Jards Macalé e Jorge Mautner, o cantor mato-grossense vai dar mais uma prova de coerência na condução de carreira solo iniciada há 41 anos. Lançados originalmente entre 1975 e 1980, os seis álbuns embalados na caixa Ney Matogrosso - Anos 70 (Warner Music), posta nas lojas em dezembro de 2015, flagram um artista livre de fórmulas, amarras e pressões da indústria do disco. Um cantor livre, em essência. Este seis álbuns já haviam sido reeditados em CD na caixa Camaleão (Universal Music, 2008). Embora atualizados, os textos escritos pelo pesquisador Rodrigo Faour sobre cada um dos seis álbuns são essencialmente os mesmos das reedições de 2008. Contudo, houve real ganho na qualidade do som dos três álbuns gravados por Ney na extinta gravadora Continental - Água do céu-pássaro (1975), Bandido (1976) e Pecado (1977) - porque as reedições de 2008 foram produzidas (com esmero) a partir de cópias em vinil. As reedições de 2015 foram remasterizadas a partir das matrizes originais dos álbuns, como alardeado na contracapa da caixa, embora as fichas técnicas das reedições não traga informações sobre quem remasterizou os discos. O ganho na qualidade do som não chega a justificar a compra da atual caixa por quem já tem a caixa de 2008. Mas valoriza a caixa de 2015, inclusive porque os álbuns gravados por Ney na década de 1970 resistem bem ao tempo. Água do céu-pássaro (1975), em especial, é um disco ainda moderno, um passo ousado dado por cantor que vinha de grupo, Secos & Molhados, que tinha alcançado sucesso de massa. Neste primeiro voo solo, Ney já mostra a forte personalidade artística que nortearia a discografia do artista - ainda que o cantor tenha seguido a receita de sucesso do produtor Marco Mazzola na primeira metade da década de 1980 sem jamais baixar o nível do repertório. De tom vanguardista, Água do céu-pássaro tem linguagem pop e dose alta de sensualidade em Açúcar candy (Sueli Costa e Tite de Lemos, 1975). Se América do Sul (Paulo Machado, 1975) expôs latinidade que pautaria várias gravações do cantor, Pedra de rio (Luhli, Lucina e Paulo César, 1975) já escancarou o apego do artista à natureza. Infelizmente, as duas músicas-bônus da atual reedição de Água do céu-pássaro - As ilhas (Astor Piazzola e Geraldo Carneiro) e 1964 II (Astor Piazolla e Jorge Luis Borges),  faixas do compacto gravado por Ney em novembro de 1974, em Milão (Itália) -  tocam de forma invertida em relação à disposição das músicas indicada na contracapa. no encarte e no selo da reedição em CD. Mais acessível ao público, Bandido (1976) é álbum que emplacou o primeiro grande sucesso popular da carreira solo de Ney, Bandido corazón, delícia pop roqueira latina da lavra de Rita Lee, então no auge da produção autoral. Bandido foi produzido por Guilherme Araújo sob a supervisão da violonista e compositora Rosinha de Valença (1941 - 2004), autora de uma das dez músicas do disco, Usina de prata (1976). Em Bandido, Ney deu voz a músicas então inéditas de Chico Buarque, Mulheres de Atenas (1976), e Gilberto Gil, Gaivota, canção gravada com o violão de Gil, de beleza ainda por ser descoberta pelo público. A regravação da rumba cubana Pa-ran-pan-pan (Sergio de Karlo, 1938) explicitou a latinidade que pulsava no canto de Ney. A atual reedição de Bandido incorpora, como faixas-bônus, as duas gravações do compacto gravado em 1975 por Ney com o cantor cearense Raimundo Fagner - Postal de amor (Raimundo Fagner, Fausto Nilo e Ricardo Bezerra) e Ponta do lápis (Clodô Ferreira e Rodger Rogério) - e o take original do samba Pra não morrer de tristeza (João Silva e K-Boclinho, 1965) incluído na trilha sonora da novela Saramandaia (TV Globo, 1976). Gravado com parte do repertório do show Bandido que não havia sido registrado no disco homônimo de 1976, o terceiro e último álbum de Ney na Continental, Pecado (1977), apresentou baixo teor de músicas inéditas no repertório de tom sensual. Contudo, o finíssimo repertório do álbum - Da cor do pecado (Bororó, 1939), Boneca cobiçada (Palmeira e Biá, 1956), Desafinado (Antonio Carlos Jobim e Newton Mendonça, 1959), San Vicente (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1972) Metamorfose ambulante (Raul Seixas, 1973) e a então recente Tigresa (Caetano Veloso, 1977), para citar as músicas mais conhecidas  - soava à altura da voz andrógina do cantor e estava em sintonia com o conceito dos álbuns gravados por Ney após a saída turbulenta do trio Secos & Molhados. Coerência mantida no álbum seguinte, Feitiço (1978), o primeiro dos três gravados por Ney na novata Warner Music. Produzido por Mazzola, produtor determinante na discografia do cantor, Feitiço ampliou a popularidade de Ney a reboque de músicas como Bandolero (Luhli e Lucina, 1978), Mal necessário (Mauro Kwitko, 1978), o samba Tic-tac do meu coração (Alcyr Pires Vermelho e Valfrido Silva, 1935) - primeira das muitas incursões que seriam feitas por Ney no repertório da cantora Carmen Miranda (1909 - 1955) - e Não existe pecado ao sul do Equador (Chico Buarque e Ruy Guerra, 1973), frevo que Ney jogou na pista então fervida da disco music. Na sequência, Seu tipo (1979) revelou um Ney menos esfuziante, mas ainda ardente. O cantor rasgou a fantasia para mostrar a cara, a voz e a coragem de gravar compositoras que emergiam naquele ano de 1979 como Fátima Guedes (Dor medonha) e Joyce Moreno (Ardente). O maior destaque do repertório - de alto nível, mas de menor empatia - foi Seu tipo, o fox de Eduardo Dussek e Luiz Carlos Góes (1944 - 2014) que deu título ao disco. Por fim, Sujeito estranho (1980) foi álbum feito para Ney encerrar o contrato com a Warner Music e partir para a Ariola, gravadora que tinha fisgado o produtor Mazzola. Puxado por Napoleão, composição então inédita da dupla Luli & Lucina, fiel fornecedora de músicas para o cantor, o repertório incluía músicas do show Seu tipo não incluídas no disco homônimo de 1979. A curiosidade reside sobre duas músicas de Angela Ro Ro - Não há cabeça (lançada por Marina Lima e regravada logo depois pela compositora para o álbum de 1979 que deu projeção a Ro Ro) e Balada da arrasada (outra música do álbum de estreia de Ro Ro) - gravadas por Ney neste título obscuro da discografia do cantor. Produzido por Miguel Cidrás sob a direção de Guti Carvalho, Sujeito estranho é disco realmente estranho, mas reitera - como todos os outros cinco álbuns embalados na caixa, projeto de Elaine Medeiros para a Warner Music - a inteligência do camaleão para escolher as próprias cores na selva de mercado feroz que costuma dar e ditar os tons dos cantores.

10 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Caso Ney Matogrosso concretize o projeto de gravar neste ano de 2016 álbum com músicas de compositores rotulados como malditos, como Jards Macalé e Jorge Mautner, o cantor mato-grossense vai dar mais uma prova de coerência na condução de carreira solo iniciada há 41 anos. Lançados originalmente entre 1975 e 1980, os seis álbuns embalados na caixa Ney Matogrosso - Anos 70 (Warner Music), posta nas lojas em dezembro de 2015, flagram um artista livre de fórmulas, amarras e pressões da indústria do disco. Um cantor livre, em essência. Este seis álbuns já haviam sido reeditados em CD na caixa Camaleão (Universal Music, 2008). Embora atualizados, os textos escritos pelo pesquisador Rodrigo Faour sobre cada um dos seis álbuns são essencialmente os mesmos das reedições de 2008. Contudo, houve real ganho na qualidade do som dos três álbuns gravados por Ney na extinta gravadora Continental - Água do céu-pássaro (1975), Bandido (1976) e Pecado (1977) - porque as reedições de 2008 foram produzidas (com esmero) a partir de cópias em vinil. As reedições de 2015 foram remasterizadas a partir das matrizes originais dos álbuns, como alardeado na contracapa da caixa, embora as fichas técnicas das reedições não traga informações sobre quem remasterizou os discos. O ganho na qualidade do som não chega a justificar a compra da atual caixa por quem já tem a caixa de 2008. Mas valoriza a caixa de 2015, inclusive porque os álbuns gravados por Ney na década de 1970 resistem bem ao tempo. Água do céu-pássaro (1975), em especial, é um disco ainda moderno, um passo ousado dado por cantor que vinha de grupo, Secos & Molhados, que tinha alcançado sucesso de massa. Neste primeiro voo solo, Ney já mostra a forte personalidade artística que nortearia a discografia do artista - ainda que o cantor tenha seguido a receita de sucesso do produtor Marco Mazzola na primeira metade da década de 1980 sem jamais baixar o nível do repertório. De tom vanguardista, Água do céu-pássaro tem linguagem pop e dose alta de sensualidade em Açúcar candy (Sueli Costa e Tite de Lemos, 1975). Se América do Sul (Paulo Machado, 1975) expôs latinidade que pautaria várias gravações do cantor, Pedra de rio (Luhli, Lucina e Paulo César, 1975) já escancarou o apego do artista à natureza. Infelizmente, as duas músicas-bônus da atual reedição de Água do céu-pássaro - As ilhas (Astor Piazzola e Geraldo Carneiro) e 1964 II (Astor Piazolla e Jorge Luis Borges), faixas do compacto gravado por Ney em novembro de 1974, em Milão (Itália) - tocam de forma invertida em relação à disposição das músicas indicada na contracapa. no encarte e no selo da reedição em CD. Mais acessível ao público, Bandido (1976) é álbum que emplacou o primeiro grande sucesso popular da carreira solo de Ney, Bandido corazón, delícia pop roqueira latina da lavra de Rita Lee, então no auge da produção autoral. Bandido foi produzido por Guilherme Araújo sob a supervisão da violonista e compositora Rosinha de Valença (1941 - 2004), autora de uma das dez músicas do disco, Usina de prata (1976). Em Bandido, Ney deu voz a músicas então inéditas de Chico Buarque, Mulheres de Atenas (1976), e Gilberto Gil, Gaivota, canção gravada com o violão de Gil, de beleza ainda por ser descoberta pelo público. A regravação da rumba cubana Pa-ran-pan-pan (Sergio de Karlo, 1938) explicitou a latinidade que pulsava no canto de Ney. A atual reedição de Bandido incorpora, como faixas-bônus, as duas gravações do compacto gravado em 1975 por Ney com o cantor cearense Raimundo Fagner - Postal de amor (Raimundo Fagner, Fausto Nilo e Ricardo Bezerra) e Ponta do lápis (Clodô Ferreira e Rodger Rogério) - e o take alternativo do samba Pra não morrer de tristeza (João Silva e K-Boclinho, 1965) incluído na trilha sonora da novela Saramandaia (TV Globo, 1976).

Mauro Ferreira disse...

Gravado com parte do repertório do show Bandido que não havia sido registrado no disco homônimo de 1976, o terceiro e último álbum de Ney na Continental, Pecado (1977), apresentou baixo teor de músicas inéditas no repertório de tom sensual. Contudo, o repertório - Da cor do pecado (Bororó, 1939), Boneca cobiçada (Palmeira e Biá, 1956), Desafinado (Antonio Carlos Jobim e Newton Mendonça, 1959), San Vicente (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1972) Metamorfose ambulante (Raul Seixas, 1973) e a recente Tigresa (Caetano Veloso, 1977), para citar as músicas mais conhecidas - soava à altura da voz andrógina do cantor e estava em sintonia com o conceito dos álbuns gravados por Ney após a saída turbulenta do trio Secos & Molhados. Coerência mantida no álbum seguinte, Feitiço (1978), o primeiro dos três gravados por Ney na Warner Music. Produzido por Mazzola, produtor determinante na discografia do cantor, Feitiço ampliou a popularidade de Ney a reboque de músicas como Bandolero (Luhli e Lucina, 1978), Mal necessário (Mauro Kwitko, 1978), o samba Tic-tac do meu coração (Alcyr Pires Vermelho e Valfrido Silva, 1935) - primeira das muitas incursões que seriam feitas por Ney no repertório da cantora Carmen Miranda (1909 - 1955) - e Não existe pecado ao sul do Equador (Chico Buarque e Ruy Guerra, 1973), frevo que Ney jogou na pista então fervida da disco music. Na sequência, Seu tipo (1979) revelou um Ney menos esfuziante, mas ainda ardente. O cantor rasgou a fantasia para mostrar a cara, a voz e a coragem de gravar compositoras que emergiam naquele ano de 1979 como Fátima Guedes (Dor medonha) e Joyce Moreno (Ardente). O maior destaque do repertório - de alto nível, mas de menor empatia - foi Seu tipo, o fox de Eduardo Dussek e Luiz Carlos Góes (1944 - 2014) que deu título ao disco. Por fim, Sujeito estranho (1980) foi álbum feito para Ney encerrar o contrato com a Warner Music e partir para a Ariola, gravadora que tinha fisgado o produtor Mazzola. Puxado por Napoleão, composição então inédita da dupla Luli & Lucina, fiel fornecedora de músicas para o cantor, o repertório incluía músicas do show Seu tipo não incluídas no disco homônimo de 1979. A curiosidade reside sobre duas músicas de Angela Ro Ro - Não há cabeça (lançada por Marina Lima e regravada logo depois pela compositora para o álbum de 1979 que deu projeção a Ro Ro) e Balada da arrasada (outra música do álbum de estreia de Ro Ro) - gravadas por Ney neste título obscuro da discografia do cantor. Produzido por Miguel Cidrás sob a direção de Guti Carvalho, Sujeito estranho é disco realmente estranho, mas reitera - como todos os outros cinco álbuns embalados na caixa, projeto de Elaine Medeiros para a Warner Music - a inteligência do camaleão para escolher as próprias cores na selva de mercado feroz que costuma dar e ditar os tons dos cantores.

Rafael M. disse...

Caixa sublime... O melhor de Ney está aí... Uma das maiores relíquias da nossa música... Salve o grande Ney...

Anderson Nascimento disse...

Mauro, sua crítica me tirou de uma grande dúvida entre comprar ou não o box, já que possuo os boxes Camaleão. Obrigado!

Francisco Abel disse...

Oi, Mauro! Caixa sublime de um artista único e genial. Sua matéria é ótima também. Eu tenho uma dúvida. Talvez traído pela memória, creio que as duas músicas com Fagner sejam do obra Água do Céu-Pássaro. A linda capa e o refrão "louca, louca,louca, muito louca" nunca sairam da minha mente. Pf, me corrija se eu estiver errado. Um abraço e parabéns por sempre!

Mauro Ferreira disse...

Francisco, as duas gravações com Fagner foram feitas para compacto, em 1975. Mas Ney regravou uma delas, 'Postal de amor', no álbum 'Pecado', de 1977. Abs, MauroF

Mauro Silva disse...

Seguindo todo o cuidado e a estética deste Box, bem que o Rodrigo Faour, poderia remasterizar em CD também, os 2 primeiros discos dos "Secos e Molhados". O primeiro de 1973 foi lançado em CD em diversas prensagens, já o 2° de 1974 só saiu em CD, por aquela "Série Dois Momentos " que vem 2 discos 'socados' em um único CD. Não encontramos em CD, o LP de 1974 em nenhuma outra prensagem.

E ainda falando do CD da "Série Dois Momentos ", nota-se que o disco de 1973 veio com defeito na faixa "Rosa de Hiroshima", que a principio pensei que fosse o meu CD, mas não...fui trocar na loja e o problema é na remasterização, na prensagem. Esta faixa tem problema no andamento do arranjo com o vocal, esta completamente fora do compasso, comparado com a gravação original de 1973.
Eu não sei como o Charles Gavin conseguiu esta façanha e deixou passar isso, mas a questão é que "Rosa de Hiroshima" no CD da "Série Dois Momentos " esta com problema.

Queridos: Rodrigo Faour e Ney Matogrosso um Box EM CD, dos Secos e Molhados não seria nada mal! É o que falta na discografia do Ney :)

Bernardo Barroso Neto disse...

Ney Matogrosso é espetacular, um dos maiores talentos dessa terra brasilis.

ELIEL SILVA disse...

Como o Mauro Silva bem falou acerca dos discos dos Secos & Molhados: achei muito estranho quando ouvi "Rosa de Hiroshima". Felizmente eu tenho um CD com o melhor de S&M e NM. Uma caixa com os dois primeiros discos bem cuidados seria uma boa.

Martins disse...

Diferenças Box Camelão x Anos 70
Depois de escutar por diversas vezes as duas versões percebi sim um ganho que para meus ouvidos,justifica sim a compra do box anos 70, inclusive há diferença na remasterização dos outros álbuns Universal mais agudo - Warner mais graves mas é bem sutil a diferença.Afinal masters são masters. Com relação a cor das capas as cores estão mais naturais na Edição da Warner e da Universal está mais carregado, escuro nas tonalidades de pele. Detalhes perceptíveis. Os textos são os mesmos mas diminuíram o tamanho das fontes, economia de papel.
Outra diferença - Warner papel Brilhante - Universal Fosco.