Mauro Ferreira no G1

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sábado, 17 de outubro de 2015

Instituto avoluma seu som gregário em 'Violar' com Metá, Nação, Tulipa e cia.

Resenha de álbum
Título: Violar
Artista: Instituto
Gravadora: YB Music
Cotação: * * * *

"Tambor de crioula merece respeito / Duro é saber que o país que eu almejo / Já foi vendido por um tão baixo preço", dispara o cantor paulistano Criolo, dando voz ao povo sem voz nos versos de Vai ser assim (Rica Amabis, Junior Areia, Tony Allen, Criolo, Gioavani Mendes Baffô), segunda das 13 músicas de Violar, primeiro álbum do coletivo paulistano Instituto em longos 13 anos. Gravada com dream team de músicos (Fred Zero Quatro no cavaco, Lanny Gordin na guitarra, Pupillo e o nigeriano Tony Allen - mestre do afrofunkbeat - nas baterias, entre outros virtuoses), a faixa sobressai no repertório, reitera o vigor da pegada do Instituto no sucessor de Coleção nacional (YB Music, 2002) e incorpora na letra uma frase lapidar ("Em casa de menino de rua, o último a dormir apaga a lua") do livro Delitos e deleites (Editora Poesia Maloquerista, 2010), do poeta Giovani Mendes Baffô, incorporado ao time de compositores do tema por conta da citação. Produzido por Rica Amabis e Tejo Damasceno, condutores do coletivo em sua atual formação (já sem Daniel Ganjaman), o disco Violar tem capa e títulos criados por Alexandre Orion, artista visual cuja obra urbana tem sido sonorizada com temas instrumentais do Instituto. Dois deles, Polugravura (Tejo Damasceno, Pupillo, Dengue e Thiago França) e Ossário (Rica Amabis, Tejo Damasceno e Luca Raele) figuram no repertório do disco, sendo que Ossário consegue combinar tensão e lirismo na sua arquitetura sonora. O título Violar remete à face mais combatente e politizada da música da nação nordestina. E, de fato, o disco põe os pés na lama dessa terra ao celebrar o cantor e compositor pernambucano Chico Science (1966 - 1997) em Alto do Zé do Pinho, música póstuma de autoria do rapper paulistano Sabotage (1973 - 2003), cuja voz é ouvida nesta música gravada com o toque da Nação Zumbi e cantada também por Otto e pelo rapper Sombra. Alto do Zé do Pinho - que não é um rap (apesar da intervenção de Sombra) e está mais para um blues-rock de tom psicodélico - e Vai ser assim já valem este disco valorizado mais pela estupenda sonoridade do que pelas músicas em si. Como em Coleção nacional, o Instituto agrega múltiplos parceiros e convidados em Violar, refazendo suas conexões com nomes como BNegão, Otto, Nação Zumbi e o próprio Sabotage. Mas outras vozes se fazem ouvir naturalmente em Violar. Afinal, mais de uma década separa um álbum do outro. Formatado com a adesão da cantora e compositora Tulipa Ruiz em duas músicas, Mais carne (Karol Conká, Tulipa Ruiz, Rica Amabis, Tejo Damasceno, Alexandre Basa e Mike Relm) e a pop Tudo que se move (Rica Amabis, Dengue, Pupillo e Gui Amabis), Violar está impregnado da pegada da Nação, mais presente no atual álbum. A recorrente interação do Instituto com os músicos da banda pernambucana - pedra fundamental do Mangue Beat - encorpa e avoluma o som gregário do coletivo neste disco em faixas como Na surdina (Rica Amabis, Luca Raele e Jorge Du Peixe), música gravada com o baixo de Dengue e com a voz de Jorge Du Peixe, também intérprete e parceiro da sombria Isso é sangue (Tejo Damasceno, Daniel Ganjaman, Rica Amabis e Jorge Du Peixe). Em essência, Violar é disco escaldado em água fervente, mas alterna tons, timbres e climas, escapando da linearidade e do experimentalismo pelo experimentalismo. Na sequência de Bossa chinesa (Rica Amabis), tema instrumental que abre espaço em Violar para certa serenidade, o samba Pacto com mato (Rica Amabis e Curumim) harmoniza sons eletrônicos e acústicos com maestria e a voz e a bateria de Curumim, um dos compositores do tema. Já Seco é um rap poliglota que embute as vozes do rapper japonês Lyrics Born e da cantora norte-americana de rap e soul Joyo Velarde em faixa pautada pelo discurso árido do rapper carioca BNegão, parceiro de Tejo e Rica na composição. Já Irôco (Rica Amabis, Klaus Sena, Guilherme Held, Kiko Dinucci, Thiago França e Juçara Marçal) tem intervenções cortantes do saxofone de Thiago França que jamais dissolvem o elo com a mãe África, evocada pela voz transcendental de Juçara Marçal. O grupo paulistano Metá Metá garante a pulsação da faixa, encorpada também pelo toque heavy da guitarra de Guilherme Held. E por falar em África, Baía (Tejo Damasceno, Thiago França e Tony Allen) fecha Violar em grande estilo com os afrofunkbeats da bateria de Tony Allen. Enfim, nesta coleção (inter)nacional de sons que completa Violar, o Instituto confirma sua importância na cena.

5 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ "Tambor de crioula merece respeito / Duro é saber que o país que eu almejo / Já foi vendido por um tão baixo preço", dispara o cantor paulistano Criolo, dando voz ao povo sem voz nos versos de Vai ser assim (Rica Amabis, Junior Areia, Tony Allen, Criolo, Gioavani Mendes Baffô), segunda das 13 músicas de Violar, primeiro álbum do coletivo paulistano Instituto em longos 13 anos. Gravada com dream team de músicos (Fred Zero Quatro no cavaco, Lanny Gordin na guitarra, Pupillo e o nigeriano Tony Allen - mestre do afrofunkbeat - nas baterias, entre outros virtuoses), a faixa sobressai no repertório, reitera o vigor da pegada do Instituto no sucessor de Coleção nacional (YB Music, 2002) e incorpora na letra uma frase lapidar ("Em casa de menino de rua, o último a dormir apaga a lua") do livro Delitos e deleites (Editora Poesia Maloquerista, 2010), do poeta Giovani Mendes Baffô, incorporado ao time de compositores do tema por conta da citação. Produzido por Rica Amabis e Tejo Damasceno, condutores do coletivo em sua atual formação (já sem Daniel Ganjaman), o disco Violar tem capa e títulos criados por Alexandre Orion, artista visual cuja obra urbana tem sido sonorizada com temas instrumentais do Instituto. Dois deles, Polugravura (Tejo Damasceno, Pupillo, Dengue e Thiago França) e Ossário (Rica Amabis, Tejo Damasceno e Lucas Raele) figuram no repertório do disco, sendo que Ossário consegue combinar tensão e lirismo na sua arquitetura sonora. O título Violar remete à face mais combatente e politizada da música da nação nordestina. E, de fato, o disco põe os pés na lama dessa terra ao celebrar o cantor e compositor pernambucano Chico Science (1966 - 1997) em Alto do Zé do Pinho, música póstuma de autoria do rapper paulistano Sabotage (1973 - 2003), cuja voz é ouvida nesta música gravada com o toque da Nação Zumbi e cantada também por Otto e pelo rapper Sombra. Alto do Zé do Pinho - que não é um rap (apesar da intervenção de Sombra) e está mais para um blues-rock de tom psicodélico - e Vai ser assim já valem este disco valorizado mais pela estupenda sonoridade do que pelas músicas em si.

Mauro Ferreira disse...

Como em Coleção nacional, o Instituto agrega múltiplos parceiros e convidados em Violar, refazendo conexões com nomes como BNegão, Otto, Nação Zumbi e o próprio Sabotage. Mas outras vozes se fazem ouvir naturalmente em Violar. Afinal, mais de uma década separa um álbum do outro. Formatado com a adesão da cantora e compositora Tulipa Ruiz em duas músicas, Mais carne (Karol Conká, Tulipa Ruiz, Rica Amabis, Tejo Damasceno, Alexandre Basa e Mike Relm) e a pop Tudo que se move (Rica Amabis, Dengue, Pupillo e Gui Amabis), Violar está impregnado da pegada da Nação, mais presente no atual álbum. A recorrente interação do Instituto com os músicos da banda pernambucana - pedra fundamental do Mangue Beat - encorpa e avoluma o som gregário do coletivo neste disco em faixas como Na surdina (Rica Amabis, Lucas Raele e Jorge Du Peixe), música gravada com o baixo de Dengue e a voz de Jorge Du Peixe, também intérprete e parceiro da sombria Isso é sangue (Tejo Damasceno, Daniel Ganjaman, Rica Amabis e Jorge Du Peixe). Em essência, Violar é disco escaldado em água fervente, mas alterna tons, timbres e climas, escapando da linearidade e do experimentalismo pelo experimentalismo. Na sequência de Bossa chinesa (Rica Amabis), tema instrumental que abre espaço em Violar para certa serenidade, o samba Pacto com mato (Rica Amabis e Curumim) harmoniza sons eletrônicos e acústicos com maestria e a voz e a bateria de Curumim, um dos compositores do tema. Já Seco é um rap poliglota que embute as vozes do rapper japonês Lyrics Born e da cantora norte-americana de rap e soul Joyo Velarde em faixa pautada pelo discurso árido do rapper carioca BNegão, parceiro de Tejo e Rica na composição. Já Irôco (Rica Amabis, Klaus Sena, Guilherme Held, Kiko Dinucci, Thiago França e Juçara Marçal) tem intervenções cortantes do saxofone de Thiago França que jamais dissolvem o elo com a mãe África, evocada pela voz transcendental de Juçara Marçal. O grupo paulistano Metá Metá garante a pulsação da faixa, encorpada também pelo toque heavy da guitarra de Guilherme Held. E por falar em África, Baía (Tejo Damasceno, Thiago França e Tony Allen) fecha Violar em grande estilo com os afrofunkbeats da bateria de Tony Allen. Enfim, nesta coleção (inter)nacional de sons que completa Violar, o Instituto confirma sua importância na cena.

italo vinicius disse...

Mauro onde posso obter mais informações sobre o "Instituto" me interessei muito, muita gente boa, é um projeto coletivo entre eles ??

italo vinicius disse...

Desculpe me expressei errado ao final, é logico que é um projeto coletivo pois esta escrito no começo da resenha. Mais quero mesmo é saber mais historias sobre esse projeto,

Mauro Ferreira disse...

Italo, acredito que, pesquisando na web, você encontre links sobre a história do Instituto. Abs, MauroF