Mauro Ferreira no G1

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domingo, 18 de outubro de 2015

Com Horta, Alaíde derrama alegrias e dramas guardados nos cofres mineiros

Resenha de CD
Título: Alegria é guardada em cofres, catedrais
Artista: Alaíde Costa e Toninho Horta
Gravadora: Minas Records
Cotação: * * *

Com a autoridade de ter sido a única presença feminina no álbum duplo Clube da Esquina (EMI-Odeon, 1972), a cantora carioca Alaíde Costa já dedicou disco ao cancioneiro do sócio fundador do clube mineiro, Milton Nascimento. A diferença de Amor amigo - Alaíde Costa canta Milton (Lua Music, 2008) para Alegria é guardada em cofres, catedrais - álbum gravado em 2012 para celebrar os 40 anos do LP de 1972, com produção de Geraldo Rocha, e efetivamente lançado neste ano de 2015 pela gravadora Minas Records - é a presença luxuosa de Toninho Horta (no violão e na guitarra) e o fato de que, desta vez, a cantora dá voz não apenas a temas de Milton, mas também a compositores associados ao gregário movimento pop das Geraes. De todo modo, há três músicas recorrentes nos dois álbuns. Entre elas, Travessia (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967) e Outubro (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967). O título Alegria é guardada em cofres, catedrais foi extraído do verso do samba Aqui, oh! (1969), parceria de Horta com Fernando Brant (1946 - 2015), um dos poetas do clube. O samba caiu bem no toque do violão de Horta e no canto de Alaíde. Perto de completar 80 anos, a serem festejados em 8 de dezembro, Alaíde é dona de estilo singular de canto, pautado pela técnica, com direito a prolongamentos de notas. A questão é que esse estilo por vezes lacrimoso nem sempre se ajusta ao tom otimista de músicas como Sol de primavera (Beto Guedes e Ronaldo Bastos, 1979) - exceto nos versos "Já choramos muito / Muitos se perderam no caminho". Horta brilha invariavelmente no toque virtuoso de seu violão e de sua guitarra. Já a interpretação de Alaíde oscila porque, se a técnica vocal parece desmentir a chegada dos 80 anos, o estilo às vezes está fora do tom das canções. Por mais que não deixe de se portar no disco como a grande cantora que sempre foi, Alaíde não clareia toda a sensualidade ardente de Nascente (Flávio Venturini e Murilo Antunes, 1977). A voz da cantora se afina mais com o tom dramático de Beijo partido (Toninho Horta, 1975). Embora possa soar idealmente mais leve, Tudo o que você podia ser (Lô Borges e Ronaldo Bastos) se impõe como bom momento de disco aberto com inédito tema instrumental de Toninho, Nos tempos de Paulinho, composto em memória de seu irmão Paulo Horta, também músico (era baixista). Sem você (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1959) - canção presente no repertório em licença poética, já que trata-se da primeira música que Horta ouviu na voz de Alaíde em gravação feita em 1961 com o toque magistral do violão de Baden Powell (1937 - 2000) - encerra o álbum no apropriado tom dramático, até mesmo desesperado, do canto de Alaíde Costa.  A intérprete trilha com (mais) brilho a travessia do drama.

7 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Com a autoridade de ter sido a única presença feminina no álbum duplo Clube da Esquina (EMI-Odeon, 1972), a cantora carioca Alaíde Costa já dedicou disco ao cancioneiro do sócio fundador do clube mineiro, Milton Nascimento. A diferença de Amor amigo - Alaíde Costa canta Milton (Lua Music, 2008) para Alegria é guardada em cofres, catedrais - álbum gravado em 2012 para celebrar os 40 anos do LP de 1972, com produção de Geraldo Rocha, e efetivamente lançado neste ano de 2015 pela gravadora Minas Records - é a presença luxuosa de Toninho Horta (no violão e na guitarra) e o fato de que, desta vez, a cantora dá voz não apenas a temas de Milton, mas também a compositores associados ao gregário movimento pop das Geraes. De todo modo, há três músicas recorrentes nos dois álbuns. Entre elas, Travessia (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967) e Outubro (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967). O título Alegria é guardada em cofres, catedrais foi extraído do verso do samba Aqui, oh! (1969), parceria de Horta com Fernando Brant (1946 - 2015), um dos poetas do clube. O samba caiu bem no toque do violão de Horta e no canto de Alaíde. Perto de completar 80 anos, a serem festejados em 8 de dezembro, Alaíde é dona de estilo singular de canto, pautado pela técnica, com direito a prolongamentos de notas. A questão é que esse estilo por vezes lacrimoso nem sempre se ajusta ao tom otimista de músicas como Sol de primavera (Beto Guedes e Ronaldo Bastos, 1979) - exceto nos versos "Já choramos muito / Muitos se perderam no caminho". Horta brilha invariavelmente no toque virtuoso de seu violão e de sua guitarra. Já a interpretação de Alaíde oscila porque, se a técnica vocal parece desmentir a chegada dos 80 anos, o estilo às vezes está fora do tom das canções. Por mais que não deixe de se portar no disco como a grande cantora que sempre foi, Alaíde não clareia toda a sensualidade ardente de Nascente (Flávio Venturini e Murilo Antunes, 1977). A voz da cantora se afina mais com o tom dramático de Beijo partido (Toninho Horta, 1975). Embora possa soar idealmente mais leve, Tudo o que você podia ser (Lô Borges e Ronaldo Bastos) se impõe como bom momento de disco aberto com inédito tema instrumental de Toninho, Nos tempos de Paulinho, composto em memória de seu irmão Paulo Horta, também músico (era baixista). Sem você (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1959) - canção presente no repertório em licença poética, já que trata-se da primeira música que Horta ouviu na voz de Alaíde em gravação feita em 1961 com o toque magistral do violão de Baden Powell (1937 - 2000) - encerra o álbum no apropriado tom dramático, até mesmo desesperado, do canto de Alaíde Costa. A intérprete trilha com (mais) brilho a travessia do drama.

Rafael M. disse...

Nem ouvi e já acho o disco maravilhoso... Lindo de morrer, uma belíssima homenagem as canções do Clube da Esquina...

Rafael M. disse...

Gostaria de saber a relação de faixas desse disco...

Jefferson Romero disse...

Prezado Mauro, por gentileza, você poderia me dizer como será a distribuição dessa "pérola" no formato de CD? Já procurei nas grandes lojas virtuais, como as Livrarias Saraiva e Cultura e não há nenhuma menção sobre o mesmo. Onde ele será e/ou está sendo comercializado? Obrigado!

Mauro Ferreira disse...

Jefferson, embora já editado no formato de CD pela Minas Records com tiragem de mil cópias (eu recebi uma cópia do produtor Geraldo Rocha para fazer a resenha), o disco ainda não tem distribuição comercial. Acredito que a única forma de encontrá-lo seja nos shows de Toninho e de Alaíde. Abs, MauroF

Seu Mistura disse...

Caro Mauro,

Por gentileza, me informe a relação de faixas desse disco com os nomes dos compositores. Gostaria de saber dessa informação, pois não a consigo encontrar em lugar nenhum da net. Conto com a sua compreensão em poder me ajudar quanto a isso.

Rogerio Oliveira disse...

Alaíde Costa não foi uma grande cantora. Ela é uma grande cantora.