Mauro Ferreira no G1

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terça-feira, 27 de outubro de 2015

Maíra expande fluxo espontâneo e leve de sua criação em 'Piano e batucada'

Resenha de CD
Título: Piano e batucada
Artista: Maíra Freitas
Gravadora: Biscoito Fino
Cotação: * * * *

Em seu inusitado primeiro álbum, Maíra Freitas (Biscoito Fino, 2012), a artista carioca se revelou excelente pianista, boa cantora e promissora compositora. Pois a filha de Martinho da Vila cumpre a promessa e supera expectativas como compositora no sedutor segundo álbum, Piano e batucada, orquestrado com patrocínio obtido no projeto Natura musical e lançado pela gravadora Biscoito Fino neste mês de outubro de 2015. Tal evolução por si só garante o êxito do disco, já que Maíra se expõe muito mais como compositora, assinando dez das 13 músicas de Piano e batucada. A música autoral de Maíra parece surgir de um fluxo espontâneo de criação, sem regras, amarras ou métricas pré-estabelecidas (nesse sentido, e somente nesse, há um paralelo entre sua obra e o cancioneiro igualmente livre de Vanessa da Mata). Em Piano e batucada, o piano é o da própria Maíra, instrumentista formada em escola erudita, cujos ensinamentos lhe permitem tocar e compor um tema mais camerístico como Não sei, sei lá (Maíra Freitas), alocado no fecho do disco. A batucada são os vários instrumentos percutidos por Bernardo Aguiar. Já os sintetizadores - fundamentais na arquitetura eletroacústica das faixas, mas não expostos no título - são pilotados por Sacha Amback, hábil produtor deste álbum em que Maíra canta samba com leveza, feminilidade e balanço envolvente. Da ótima safra autoral, a obra-prima é Êta (Maíra Freitas e Edu Krieger), samba de requebrado porreta em que melodia, ritmo e letra se afinam em total sintonia. Com letra baseada em versos do poeta português Fernando Pessoa (1888 - 1935), Lembrar de que? (Maíra Freitas) segue a trilha sincopada de Piano e batucada com uma tecla no jazz e outra na África. Cativante, o samba Gargalhada (Maíra Freitas e Felipe Cordeiro) jorra como riso espontâneo com o toque nortista da guitarra de Felipe Cordeiro e a leveza do canto de Mart'nália, meia-irmã de Maíra. Cuidado, moça (Maíra Freitas e Daniel Má) mostra que o samba da artista balança, mas não cai em clichês melódicos e poéticos. Pousa (Maíra Freitas, João Sabiá e Osvaldo Pereira) abre tempo mais lento de delicadeza no disco com a voz de João Sabiá e um piano que, na introdução, parece emular sons de uma caixinha de música. Volta (Maíra Freitas) indica que, se há uma raiz no samba de Maíra, esta vem do sambalanço que brotou na década de 1960, na era pós-Bossa Nova. Aliás, Desavisado (Maíra Freitas, Mart'nália, Beto Landau e Gabriel Moura) ostenta a bossa própria da artista enquanto Nua (Maíra Freitas) sobressai no repertório autoral ao expor sem pudor a face fresca, livre, leve e solta da criação de Maíra, compositora capaz de embarcar na viagem onírica de Danilo dormindo (Maíra Freitas). Piano e batucada expande o fluxo espontâneo dessa criação, mostrando a evolução da artista em relação ao álbum de estreia Maíra Freitas, mas quase desafina na parte das releituras de obras alheias. Das três, a que alcança melhor resultado é a abordagem, no compasso ternário da valsa, do samba Minha festa (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, 1973). Música associada à cantora norte-americana Nina Simone (1933 - 2003), Feeling good (Anthony Newley e Leslie Bricusse, 1964) é embasada pelos tambores do grupo afro-baiano Ylê Aiyê. Na teoria, a ideia é boa porque o Ylê é um esteio da negritude tão bem defendida por Nina Simone em músicas e entrevistas. Na prática, os tambores soam sem a força habitual do Ylê (talvez o problema tenha sido na captação dos sons do grupo, feita em Salvador, na Bahia), esmaecendo a negritude da faixa. Mas o que de fato não funciona em Piano e batucada é a tentativa vã de transformar a balada Estranha loucura (Michael Sullivan e Paulo Massadas, 1987) num ska. O ritmo veloz da gravação dilui a dramaticidade da música, lançada com sucesso e com propriedade por Alcione, e desperdiça a força de intérprete do gaúcho Filipe Catto, ótimo cantor talhado para temas teatrais (de todo modo, a letra Estranha loucura não sugere um dueto, sendo feita para um solo vocal). Estranhezas e loucuras à parte, Maíra Freitas dá largo passo à frente com  Piano e batucada, tirando nota alta na perigosa (e temida) prova do segundo disco.

6 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Em seu inusitado primeiro álbum, Maíra Freitas (Biscoito Fino, 2012), a artista carioca se revelou excelente pianista, boa cantora e promissora compositora. Pois a filha de Martinho da Vila cumpre a promessa e supera expectativas como compositora no sedutor segundo álbum, Piano e batucada, orquestrado com patrocínio obtido no projeto Natura musical e lançado pela gravadora Biscoito Fino neste mês de outubro de 2015. Tal evolução por si só garante o êxito do disco, já que Maíra se expõe muito mais como compositora, assinando dez das 13 músicas de Piano e batucada. A música autoral de Maíra parece surgir de um fluxo espontâneo de criação, sem regras, amarras ou métricas pré-estabelecidas (nesse sentido, e somente nesse, há um paralelo entre sua obra e o cancioneiro igualmente livre de Vanessa da Mata). Em Piano e batucada, o piano é o da própria Maíra, instrumentista formada em escola erudita, cujos ensinamentos lhe permitem tocar e compor um tema mais camerístico como Não sei, sei lá (Maíra Freitas), alocado no fecho do disco. A batucada são os vários instrumentos percutidos por Bernardo Aguiar. Já os sintetizadores - fundamentais na arquitetura eletroacústica das faixas, mas não expostos no título - são pilotados por Sacha Amback, hábil produtor deste álbum em que Maíra canta samba com leveza, feminilidade e balanço envolvente. Da ótima safra autoral, a obra-prima é Êta (Maíra Freitas e Edu Krieger), samba de requebrado porreta em que melodia, ritmo e letra se afinam em total sintonia. Com letra baseada em versos do poeta português Fernando Pessoa (1888 - 1935), Lembrar de que? (Maíra Freitas) segue a trilha sincopada de Piano e batucada com uma tecla no jazz e outra na África. Cativante, o samba Gargalhada (Maíra Freitas e Felipe Cordeiro) jorra como riso espontâneo com o toque nortista da guitarra de Felipe Cordeiro e a leveza do canto de Mart'nália, meia-irmã de Maíra.

Mauro Ferreira disse...

Cuidado, moça (Maíra Freitas e Daniel Má) mostra que o samba da artista balança, mas não cai em clichês melódicos e poéticos. Pousa (Maíra Freitas, João Sabiá e Osvaldo Pereira) abre tempo mais lento de delicadeza no disco com a voz de João Sabiá e um piano que, na introdução, parece emular sons de uma caixinha de música. Volta (Maíra Freitas) indica que, se há uma raiz no samba de Maíra, esta vem do sambalanço que brotou na década de 1960, na era pós-Bossa Nova. Aliás, Desavisado (Maíra Freitas, Mart'nália, Beto Landau e Gabriel Moura) ostenta a bossa própria da artista enquanto Nua (Maíra Freitas) sobressai no repertório autoral ao expor sem pudor a face fresca, livre, leve e solta da criação de Maíra, compositora capaz de embarcar na viagem onírica de Danilo dormindo (Maíra Freitas). Piano e batucada expande o fluxo espontâneo dessa criação, mostrando a evolução da artista em relação ao álbum de estreia Maíra Freitas, mas quase desafina na parte das releituras de obras alheias. Das três, a que alcança melhor resultado é a abordagem, no compasso ternário da valsa, do samba Minha festa (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, 1973). Música associada à cantora norte-americana Nina Simone (1933 - 2003), Feeling good (Anthony Newley e Leslie Bricusse, 1964) é embasada pelos tambores do grupo afro-baiano Ylê Aiyê. Na teoria, a ideia é boa porque o Ylê é um esteio da negritude tão bem defendida por Nina Simone em músicas e entrevistas. Na prática, os tambores soam sem a força habitual do Ylê (talvez o problema tenha sido na captação dos sons do grupo, feita em Salvador, na Bahia), esmaecendo a negritude da faixa. Mas o que de fato não funciona em Piano e batucada é a tentativa vã de transformar a balada Estranha loucura (Michael Sullivan e Paulo Massadas, 1987) num ska. O ritmo veloz da gravação dilui a dramaticidade da música, lançada com sucesso e com propriedade por Alcione, e desperdiça a força de intérprete do gaúcho Filipe Catto, ótimo cantor talhado para temas teatrais (de todo modo, a letra Estranha loucura não sugere um dueto, sendo feita para um solo vocal). Estranhezas e loucuras à parte, Maíra Freitas dá largo passo à frente com Piano e batucada, tirando nota alta na perigosa (e temida) prova do segundo disco.

Rafael M. disse...

Esse disco parece estar excelente... Pretendo ouví-lo com atenção...

Eduardo Cáffaro disse...

eu gosto do som dela. Engraçado a capa me lembrou uma da Fafá de Belem ...Atrevida ...mesmo sendo diferente ....na hora me remeteu a da Fafá.

Marcelo Barbosa disse...

A Maíra me ganhou na regravação de Raízes e Tribo dos Carajás no cd/dvd Enredo, do Martinho. Depois dela fui comprar seu primeiro disco, gostei muito.
Confesso que por preconceito torci um pouco o nariz por esse lance de pianista-filha de sambista, besteira minha!!! Bela cantora!!

Marcelo Barbosa disse...

Sambista não! Cantor de sambas!!!