Mauro Ferreira no G1

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domingo, 25 de outubro de 2015

'Nave-mãeana' estica cordão umbilical na viagem espacial de show sensorial

Resenha de show 
Título: mãeana
Artista: Ana Cláudia Lomelino (em foto de Vitor Jorge)
Local: Teatro do Oi Futuro Ipanema (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 24 de outubro de 2015
Cotação: * * * *

 No seu recém-lançado primeiro álbum solo, mãeana (Joia Moderna), Ana Cláudia Lomelino puxou o cordão umbilical de seu canto cool ao dar voz a repertório formatado pelo produtor Bem Gil com tons espaciais, nordestinos, cariocas e afro-brasileiros - harmonizados dentro da estética indie-contemporânea deste disco maternal. No show mãeana, que estreou no Rio de Janeiro (RJ) neste fim de semana dentro da programação do projeto Levada, Lomelino esticou o cordão umbilical, agregando no palco e nos bastidores os amigos que a ajudaram a dar luz ao álbum gestado há dois anos. O espírito gregário do show ficou evidente na reprise da música-título Mãe Ana (Rubinho Jacobina, 2015), reapresentada no bis em abordagem carnavalizante. Um dos trunfos do disco, Mãe Ana, a música, já tinha sido cantada antes com foco no arranjo espacial-tropicalista que dá a pista da rota seguida por Lomelino neste primeiro trabalho fora do Tono, grupo carioca do qual é vocalista. A nave-mãeana levantou voo com segurança no palco do teatro do Oi Futuro Ipanema para fazer viagem sensorial que combinou elementos de artes plásticas e de teatro. A teatralidade pontuou o show, estando evidente, por exemplo, quando Lomelino deitou no palco, no início do bis, para se acomodar na placidez de Minha cama (Marcelo Callado). Ainda no bis, a artista deu sua voz pequena a uma versão em português de Beautiful boy (Darling boy) (John Lennon, 1980) - cantada de início a capella e, na sequência, com o balanço tropical da banda - que ressaltou a grandeza do amor de mãe que pauta show e disco. Essa fiel versão em português é inédita, tendo sido feita por Gilberto Gil especialmente para Ana. Antes mesmo do início do show, já havia uma teatralidade em cena. Giulia Drummond e Vanessa Matos preparavam ritual de tom espiritualista em saudação às Iabás (orixás femininos das águas) que culminou com o canto (na voz grave e forte de Giulia) de temas afro-brasileiros como Ponto de Oxum (Luhli e Lucina, 1982) e Cordeiro de Nanã (Mateus Aleluia e Dadinho, 1977), este puxado do repertório do grupo baiano Os Tincoãs. Foi a deixa para que o baterista Stéphane San Juan evocasse o toque dos tambores ancestrais e abrisse a cena para Lomelino - artista de origem baiana - emergir no palco nas águas de Mãe imã (2015), inédito tema afro-brasileiro de Luana Carvalho que Ana gravou no seu disco solo. Na sequência, Pérola-poesia (Domenico Lancellotti e Ana Cláudia Lomelino) - música que prenunciou o voo solo de Lomelino ao ser jogada na web em abril de 2014 - e Sonho de voo (Bem Gil e Ana Cláudia Lomelino, 2015) içaram  o onirismo alado que conduz a nave-mãeana por viagem de escalas apropriadas para a voz cool da cantora. Vontade (André Dahmer, 2015) e Dom (Ana Cláudia Lomelino e João Bernardo, 2015) seguiram a viagem por pontos menos cintilantes do show iluminado por feixes de laser por Marc Kraus. A nave-mãeana ganhou altitude em cena quando Lomelino cantou a pérola de poesia feminina que ganhou de Caetano Veloso - Não sei amar (2015) moderno samba-canção - e quando a artista se caracterizou como uma santa para dar voz à inspiração sagrada do compositor Chico Buarque, de quem Lomelino reviveu com propriedade Não fala de Maria (1970) somente com sua voz e o toque do violão de Bem Gil. Na sequência, com a banda já de volta à cena, a nave-mãeana manteve sua altitude quando Lomelino subiu em pedestal para, do alto, realçar o sentido dos versos de Romance espacial (Bruno Di Lullo e Domenico Lancellotti, 2015), número em que a cantora - livre, leve e solta - parece flutuar no abismo, em sintonia com os versos do tema. Músico cuja presença na tripulação do show valorizou o voo solo de Lomelino, o acordeonista Mestrinho brilhou inclusive ao dissonar os acordes de seu instrumento em fina sintonia com os versos de Músico simples (1974), música obscura do cancioneiro autoral do compositor baiano Gilberto Gil, dada pelo sogro de Lomelino para o cantor, compositor e pianista carioca Johnny Alf (1929 - 2010), um dos pioneiros das desafinações que gestaram a revolução feita pela Bossa Nova em 1958. Na próxima escala da viagem, a cantora - tanto filha da bossa quanto da tropicalista Bahia ia ia ia ia - sustentou a aconchegante leveza de Colo do mundo (Cezar Mendes e Quito Ribeiro, 2015) com a voz e o toque do quarteto fantástico completado pelo baixista Bruno Di Lullo. Na sequência, a nave-mãeana incluiu na tripulação João Paulo Lomelino. O irmão da comandante do voo tocou o cavaquinho carioca que adornou Bem feito (2015), o samba minimalista fornecido pela gaúcha Adriana Calcanhotto para o disco mãeana. Após Lomelino cantar Meu filho (Paulo Camacho, 2015), música que estende o cordão umbilical entranhando no repertório do disco e do show, foi a vez de Letícia Novaes entrar em cena para, com presença vivaz, ampliar no show o tamanho de sua Conchinha (2015), música que deu para o disco solo de Lomelino e que, em cena, foi emendada na voz da autora com o cântico de um ponto de Yemanjá. Já sem Letícia na tripulação, a nave-mãeana abarcou um E.T. no interlúdio teatral que remeteu ao clima de Guerra nas estrelas. E, como amor incondicional de mãe parece mesmo coisa de outro mundo, Lôu Caldeira entrou em cena e carnavalizou ao se portar como um erê ao dividir com Lomelino a interpretação de sua música Ufolclore (Porto do Conde) (2015). E foi no colo de Lôu que Lomelino saiu de cena antes de voltar para o bis, destino final da viagem tropicalista feita pela navemãeana em rota sensorial que amplificou os signos e significados do repertório do bom primeiro álbum solo de Ana Lomelino, joia moderna desta artista de canto cool e leve que parece se afinar mais fora do Tono.

4 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ No seu recém-lançado primeiro álbum solo, mãeana (Joia Moderna), Ana Cláudia Lomelino puxou o cordão umbilical de seu canto cool ao dar voz a repertório formatado pelo produtor Bem Gil com tons espaciais, nordestinos, cariocas e afro-brasileiros - harmonizados dentro da estética indie-contemporânea deste disco maternal. No show mãeana, que estreou no Rio de Janeiro (RJ) neste fim de semana dentro da programação do projeto Levada, Lomelino esticou o cordão umbilical, agregando no palco e nos bastidores os amigos que a ajudaram a dar luz ao álbum gestado há dois anos. O espírito gregário do show ficou evidente na reprise da música-título Mãe Ana (Rubinho Jacobina, 2015), reapresentada no bis em abordagem carnavalizante. Um dos trunfos do disco, Mãe Ana, a música, já tinha sido cantada antes com foco no arranjo espacial-tropicalista que dá a pista da rota seguida por Lomelino neste primeiro trabalho fora do Tono, grupo carioca do qual é vocalista. A nave-mãeana levantou voo com segurança no palco do teatro do Oi Futuro Ipanema para fazer viagem sensorial que combinou elementos de artes plásticas e de teatro. A teatralidade pontuou o show, estando evidente, por exemplo, quando Lomelino deitou no palco, no início do bis, para se acomodar na placidez de Minha cama (Marcelo Callado). Ainda no bis, a artista deu sua voz pequena a uma versão em português de Beautiful boy (Darling boy) (John Lennon, 1980) - cantada de início a capella e, na sequência, com o balanço tropical da banda - que ressaltou a grandeza do amor de mãe que pauta show e disco. Antes mesmo do início do show, já havia uma teatralidade em cena. Duas jovens - Vanessa e Júlia - preparavam um ritual de tom espiritualista que culminou com o canto (por uma delas) de temas afro-brasileiros como o Cordeiro de Nanã (Mateus Aleluia e Dadinho, 1977), puxado do repertório do grupo baiano Os Tincoãs.

Mauro Ferreira disse...

Foi a deixa para que o baterista Stéphane San Juan evocasse o toque dos tambores ancestrais e abrisse a cena para Lomelino - artista de origem baiana - emergir no palco nas águas de Mãe imã (2015), inédito tema afro-brasileiro de Luana Carvalho que Ana gravou no seu disco solo. Na sequência, Pérola-poesia (Domenico Lancellotti e Ana Cláudia Lomelino) - música que prenunciou o voo solo de Lomelino ao ser jogada na web em abril de 2014 - e Sonho de voo (Bem Gil e Ana Cláudia Lomelino, 2015) içaram o onirismo alado que conduz a nave-mãeana por viagem de escalas apropriadas para a voz cool da cantora. Vontade (André Dahmer, 2015) e Dom (Ana Cláudia Lomelino e João Bernardo, 2015) seguiram a viagem por pontos menos cintilantes do show iluminado por feixes de laser por Marc Kraus. A nave-mãeana ganhou altitude em cena quando Lomelino cantou a pérola de poesia feminina que ganhou de Caetano Veloso - Não sei amar (2015) moderno samba-canção - e quando a artista se caracterizou como uma santa para dar voz à inspiração sagrada do compositor Chico Buarque, de quem Lomelino reviveu com propriedade Não fala de Maria (1970) somente com sua voz e o toque do violão de Bem Gil. Na sequência, com a banda já de volta à cena, a nave-mãeana manteve sua altitude quando Lomelino subiu em pedestal para, do alto, realçar o sentido dos versos de Romance espacial (Bruno Di Lullo e Domenico Lancellotti, 2015), número em que a cantora - livre, leve e solta - parece flutuar no abismo, em sintonia com os versos do tema. Músico cuja presença na tripulação do show valorizou o voo solo de Lomelino, o acordeonista Mestrinho brilhou inclusive ao dissonar os acordes de seu instrumento em fina sintonia com os versos de Músico simples (1974), música obscura do cancioneiro autoral do compositor baiano Gilberto Gil, dada pelo sogro de Lomelino para o cantor, compositor e pianista carioca Johnny Alf (1929 - 2010), um dos pioneiros das desafinações que gestaram a revolução feita pela Bossa Nova em 1958. Na próxima escala da viagem, a cantora - tanto filha da bossa quanto da tropicalista Bahia ia ia ia ia - sustentou a aconchegante leveza de Colo do mundo (Cezar Mendes e Quito Ribeiro, 2015) com a voz e o toque do quarteto fantástico completado pelo baixista Bruno Di Lullo. Na sequência, a nave-mãeana incluiu na tripulação João Paulo Lomelino. O irmão da comandante do voo tocou o cavaquinho carioca que adornou Bem feito (2015), o samba minimalista fornecido pela gaúcha Adriana Calcanhotto para o disco mãeana. Após Lomelino cantar Meu filho (Paulo Camacho, 2015), música que estende o cordão umbilical entranhando no repertório do disco e do show, foi a vez de Letícia Novaes entrar em cena para, com presença vivaz, ampliar no show o tamanho de sua Conchinha (2015), música que deu para o disco solo de Lomelino e que, em cena, foi emendada na voz da autora com o cântico de um ponto de Yemanjá. Já sem Letícia na tripulação, a nave-mãeana abarcou um E.T. no interlúdio teatral que remeteu ao clima de Guerra nas estrelas. E, como amor incondicional de mãe parece mesmo coisa de outro mundo, Lôu Caldeira entrou em cena e carnavalizou ao se portar como um erê ao dividir com Lomelino a interpretação de sua música Ufolclore (Porto do Conde) (2015). E foi no colo de Lôu que Lomelino saiu de cena antes de voltar para o bis, destino final da viagem tropicalista feita pela navemãeana em rota sensorial que amplificou os signos e significados do repertório do bom primeiro álbum solo de Ana Lomelino, joia moderna desta artista de canto cool e leve que parece se afinar mais fora do Tono.

Rafael M. disse...

Roteiro perfeito, o show parece estar lindo mesmo!!!

Igor A. disse...

Lindo texto, Mauro! Saí do Oi Futuro com os olhos marejados e o coração quente.