Mauro Ferreira no G1

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segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Canto 'cool' de Lomelino puxa cordão umbilical no voo solo da nave-mãeana

Resenha de CD
Título: mãeana
Artista: Ana Cláudia Lomelino
Gravadora: Joia Moderna
Cotação: * * *
Disco disponível para audição no portal SoundCloud desde 19 de outubro de 2015

Desfavorecido pela estética da música do Tono, o canto cool de Ana Cláudia Lomelino nem sempre se ajustou aos tons expansivos e/ou dramáticos de parte do repertório do grupo carioca do qual é vocalista. Tanto que as músicas mais conhecidas da banda - Não consigo (Rafael Rocha, 2011), Samba do blackberry (Alberto Continentino e Rafael Rocha, 2011) e Como vês (Domenico Lancellotti e Bruno Di Lullo, 2013) - foram propagadas pelas vozes mais encorpadas de Ney Matogrosso (as duas primeiras músicas) e Alice Caymmi. Contudo, a divulgação em abril de 2014 de gravação solo da cantora e compositora baiana - Pérola-poesia (música de Domenico Lancellotti com letra de Domenico e de Lomelino), primeiro sinal do primeiro álbum solo da artista, enfim disponibilizado na noite de hoje, 19 de outubro de 2015, no portal SoundCloud -  indicou que, fora do Tono, o canto cool de Lomelino podia fazer mais sentido. Impressão confirmada pela audição do disco Mãeana, produzido por Bem Gil e gravado com alguns dos mais incensados músicos da cena contemporânea carioca (Berna Ceppas, Bruno Di Lullo, Domenico Lancellotti, Marlon Sette e Pedro Sá, entre outros). Ao longo das 14 músicas deste álbum aberto por Pérola-poesia, o canto cool de Lomelino puxa o cordão umbilical no voo solo da nave-mãeana com repertório que aglutina sons espaciais, nordestinos e cariocas. É um disco que fala de mães, de filhos, de canções que parecem soltas no espaço sideral, no onirismo alado e poético que dá o tom de composições como Sonho de voo (música de Ana Cláudia Lomelino e Bem Gil com letra de Lomelino), turbinada com metais orquestrados por Marlon Sette. Em Romance espacial (música de Bruno Di Lullo com letra de Domenico Lancellotti), o canto de Lomelino parece saltar no abismo, sem rede, entre ruídos e sons sintetizados. Mas a viagem parece ter sido feita com rota bem definida. Há pérolas e poesias nesse repertório que ostenta inéditas fornecidas por nomes de peso como Adriana Calcanhotto (Bem feito, samba haicai típico da compositora gaúcho que harmoniza a levada carioca do cavaquinho de João Paulo Lomelino, irmão de Ana, com o toque nordestino do acordeom de Mestrinho, músico recorrente na ficha técnica do disco) e Caetano Veloso (autor do já divulgado samba-canção Não sei amar, composto sob ótica feminina). Música-título do disco, assinada por Rubinho Jacobina, Mãe Ana é um dos pontos mais altos atingidos pela rota cool da nave-mãeana. O arranjo da faixa ecoa a viagem tropicalista do grupo paulista Os Mutantes e também sons da nação nordestina, já que as flautas de Felipe Pinaud e Zé Carlos Bigorna aludem aos pífanos de Caruaru (PE). Já Meu filho (Paulo Camacho) estica o cordão umbilical, soando como canção maternal, "um segredinho soprado no umbigo". Em Dom (música de João Bernardo e Ana Cláudia Lomelino com letra de Lomelino), a nave-mãeana atinge altitude mais baixa, mas as turbulências não chegam a afetar o voo solo de Lomelino, cujo canto - fruto pequeno enraizado invariavelmente na estética cool - se acomoda facilmente no Colo do mundo (música de Cézar Mendes com letra de Quito Ribeiro), um dos picos de beleza da viagem musical e poética. "No coração / De uma canção / Mora a semente / De outra canção", poetiza Quito Ribeiro nos versos de Colo do mundo. Vontade (André Dahmer) semeia leveza, mesmo sentenciando que "Coração de homem é duro como pétala". A presença de coro masculino na faixa - formado por Bem Gil, Bruno Di Lullo, Daniel Carvalho e Domenico Lancellotti - destila fina ironia em disco que faz pulsar sua veia feminina em Mãe imã (Luana Carvalho), faixa em que a percussão de Domenico Lancellotti e o berimbau de Fábio Lima parecem jogar ao mar referências afro-brasileiras que se afinam com os versos do tema. Já Conchinha (Letícia Novaes) emerge de águas mais escuras, nas ondas dos sintetizadores pilotados por Bem Gil, Berna Ceppas e Bruno Di Lullo e com meteórica intervenção vocal de Letícia Novaes, enquanto Ufolclore (Porto do Conde) (Lôu Caldeira) reforça, sem muita inspiração, o onirismo alado e do além de um disco que repousa plácido, ao término de seus 40 minutos, em Minha cama (Marcelo Callado), pouso final da nave-mãeana. Ao puxar o cordão umbilical neste voo solo de altitudes variadas, Ana Cláudia Lomenino justifica seu canto cool e marca território, esboçando universo musical mais apropriado para sua voz quase etérea. Na rota dessa viagem, há pérolas e há poesias.

15 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Desfavorecido pela estética da música do Tono, o canto cool de Ana Cláudia Lomelino nem sempre se ajustou aos tons expansivos e/ou dramáticos de parte do repertório do grupo carioca do qual é vocalista. Tanto que as músicas mais conhecidas da banda - Não consigo (Rafael Rocha, 2011), Samba do blackberry (Alberto Continentino e Rafael Rocha, 2011) e Como vês (Domenico Lancellotti e Bruno Di Lullo, 2013) - foram propagadas pelas vozes mais encorpadas de Ney Matogrosso (as duas primeiras músicas) e Alice Caymmi. Contudo, a divulgação em abril de 2014 de gravação solo da cantora e compositora carioca - Pérola-poesia (música de Domenico Lancellotti com letra de Domenico e de Lomelino), primeiro sinal do primeiro álbum solo da artista, enfim disponibilizado na noite de hoje, 19 de abril de 2015, no portal SoundCloud - indicou que, fora do Tono, o canto cool de Lomelino podia fazer mais sentido. Impressão confirmada pela audição do disco Mãeana, produzido por Bem Gil e gravado com alguns dos mais incensados músicos da cena contemporânea carioca (Berna Ceppas, Bruno Di Lullo, Domenico Lancellotti, Marlon Sette e Pedro Sá, entre outros). Ao longo das 14 músicas deste álbum aberto por Pérola-poesia, o canto cool de Lomelino puxa o cordão umbilical no voo solo da nave-mãeana com repertório que aglutina sons espaciais, nordestinos e cariocas. É um disco que fala de mães, de filhos, de canções que parecem soltas no espaço sideral, no onirismo alado e poético que dá o tom de composições como Sonho de voo (música de Ana Cláudia Lomelino e Bem Gil com letra de Lomelino), turbinada com metais orquestrados por Marlon Sette. Em Romance espacial (música de Bruno Di Lullo com letra de Domenico Lancellotti), o canto de Lomelino parece saltar no abismo, sem rede, entre ruídos e sons sintetizados. Mas a viagem parece ter sido feita com rota bem definida. Há pérolas e poesias nesse repertório que ostenta inéditas fornecidas por nomes de peso como Adriana Calcanhotto (Bem feito, samba haicai típico da compositora gaúcho que harmoniza a levada carioca do cavaquinho de João Paulo Lomelino, irmão de Ana, com o toque nordestino do acordeom de Mestrinho, músico recorrente na ficha técnica do disco) e Caetano Veloso (autor do já divulgado samba-canção Não sei amar, composto sob ótica feminina). Música-título do disco, assinada por Rubinho Jacobina, Mãe Ana é um dos pontos mais altos atingidos pela rota cool da nave-mãeana. O arranjo da faixa ecoa a viagem tropicalista do grupo paulista Os Mutantes e também sons da nação nordestina, já que as flautas de Felipe Pinaud e Zé Carlos Bigorna aludem aos pífanos de Caruaru (PE). Já Meu filho (Paulo Camacho) estica o cordão umbilical, soando como canção maternal, "um segredinho soprado no umbigo".

Mauro Ferreira disse...

Em Dom (música de João Bernardo e Ana Cláudia Lomelino com letra de Lomelino), a nave-mãeana atinge altitude mais baixa, mas as turbulências não chegam a afetar o voo solo de Lomelino, cujo canto - fruto pequeno enraizado invariavelmente na estética cool - se acomoda facilmente no Colo do mundo (música de Cézar Mendes com letra de Quito Ribeiro), um dos picos de beleza da viagem musical e poética. "No coração / De uma canção / Mora a semente / De outra canção", poetiza Quito Ribeiro nos versos de Colo do mundo. Vontade (André Dahmer) semeia leveza, mesmo sentenciando que "Coração de homem é duro como pétala". A presença de coro masculino na faixa - formado por Bem Gil, Bruno Di Lullo, Daniel Carvalho e Domenico Lancellotti - destila fina ironia em disco que faz pulsar sua veia feminina em Mãe imã (Luana Carvalho), faixa em que a percussão de Domenico Lancellotti e o berimbau de Fábio Lima parecem jogar ao mar referências afro-brasileiras que se afinam com os versos do tema. Já Conchinha (Letícia Novaes) emerge de águas mais escuras, nas ondas dos sintetizadores pilotados por Bem Gil, Berna Ceppas e Bruno Di Lullo e com meteórica intervenção vocal de Letícia Novaes, enquanto Ufolclore (Porto do Conde) (Louis Caldeira) reforça, sem muita inspiração, o onirismo alado e do além de um disco que repousa plácido, ao término de seus 40 minutos, em Minha cama (Marcelo Callado), pouso final da nave-mãeana. Ao puxar o cordão umbilical neste voo solo de altitudes variadas, Ana Cláudia Lomenino justifica seu canto cool e marca território, esboçando universo musical mais apropriado para sua voz quase etérea. Na rota dessa viagem, há pérolas e há poesias.

Luca disse...

vejo que o crítico tá ficando cada vez mais em cima do muro, deu pro disco da Lomelino as mesmas três estrelas que deu pro disco da Roberta Sá e pro disco da Anitta. Sai de cima do muro, Mauro

Rafael M. disse...

Vou ouvir o disco no Soundcloud e depois dou uma opinião aqui... Mas adorei a canção do Caetano. Lindíssima voz que a Ana Cláudia tem... Ela deu um brilho todo especial a canção do Caetano...

Vitor disse...

Mauro vai passar o resto da vida justificando a resenha do cd da Roberta Sá :)

Val Js disse...

Apatia revestida com verniz cult.
Salva-se "Não sei amar", linda canção de Caetano.
Ademais, música pra boi dormir.

Raffa disse...

Virei boi, então ehehhe.

Independente de ser ou não cult, a voz da Ana Claudia Lomelino é linda. Se são incensados ou não, os músicos que participam desse álbum são caras que estão dando a cara da música popular brasileira que não toca nas rádios e nem nas tvs. Nessa turma do Rio, do samba noise paulistano, do pós-mangue pernambucano, do tecnobrega paraense, entre outros, há muita gente fazendo ótimos trabalhos e trabalhos honestos. Não é toa que Gal Costa recrutou Kassin e Moreno para o Estratosférica e o Recanto, Caetano lançou três discos com a Banda Cê, que Elza Soares e Ná Ozzetti gravaram com o Passo Torto, que Marisa Monte vem gravando e levando em turnê parte da Nação Zumbi...

Eu adoro o blog e respeito as resenhas do Mauro, das quais concordo e discordo muitas vezes. O que me chateia aqui são alguns comentários:

- das pessoas que adoram encher o saco dele com essas provocações INFANTIS de quantas estrelas ele deu pra um, quantas estrelas ele deu pra outro, de uma certa parcialidade do resenhista para alguns artistas, dos quais ele já afirmou ser fã. Ainda bem que, parece, ele não se abala com tais comentários, mas imagina se ele decide parar de escrever este blog. Onde é que a gente vai ter um canal tão legal sobre as novidades? Não digo que devamos aceitar tudo o que o Mauro escreve, mas, se for pra criticar, que seja com fundamentos e argumentos.

- das pessoas que querem promover uma certa higienização no blog, criticando notícias de cantores populares (Anitta, Nego do Borel, Naldo...), usando termos como "lixo" para classificar tais artistas, dos quais não aprecio o trabalho, mas nem por isso chamo alguém assim, e

- das pessoas que, antes de ouvir um cd, já saem tecendo críticas nada construtivas.

Foi o mal desabafo aí, galera! Mas é que tem uma turma que dá uma preguiça...

Fabio disse...
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Mauro Ferreira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mauro Ferreira disse...

Raffa, você tem sua razão. Há uma turma que se recusa a entender que a música brasileira não ficou parada nos anos 1970. Há trabalhos maravilhosos na cena contemporânea. Mas há muito engodo também. Há quem, como Val, detecte 'apatia revestida com verniz cult' em vários discos dessa geração. Cada um tem uma forma de avaliar uma música, um cantor. É preciso respeitar a visão de cada um. Fábio, refaça seu comentário com termos menos agressivos, por favor, para que possa ser publicado. Grato a todos pela participação. Abs, MauroF

Val Js disse...

O blog é um ótimo canal de informação, talvez o melhor atualmente, sobre o que acontece na música brasileira. Os comentários com opiniões divergentes só enriquecem a discussão e comprovam que o espaço é democrático e dinâmico, uma vez que não existe verdade absoluta nem opinião incontestável. Qual o problema em questionar porque grande parte da produção musical indie/cult soa como tentativa de cópia dos Mutantes, ou porque tantas cantoras, indicadas como grande novidade, cantam com voz de sono para se passar por cool?

Raffa disse...

Só deixando claro que respeito as opiniões divergentes e concordo com vc, Val, elas enriquecem a discussão.

Só quis pontuar que alguns comentários vão na contramão do que concordamos.

Não há problema algum no seu questionamento. Acrescento que essa roda não foi inventada pelos Mutantes. O som deles é pura recriação da sonoridade proposta pelos Beatles, pós-Revolver.

Billy Rogetti disse...

Ainda não escutei todas as faixas, mas 'Pérola-poesia', de Domenico e Ana Cláudia, 'Sonho de Voo' ( Bem Gil e Ana Cláudia) e a já conhecida ( e bonita) 'Não Sei Amar', de Caetano Veloso, já dão um ótimo tom ao disco. Muito boa a estreia da cantora em disco solo, que, por sinal, tem uma voz muito charmosa.

Billy Rogetti disse...

Ainda não escutei todas as faixas, mas 'Pérola-poesia', de Domenico e Ana Cláudia, 'Sonho de Voo' ( Bem Gil e Ana Cláudia) e a já conhecida ( e bonita) 'Não Sei Amar', de Caetano Veloso, já dão um ótimo tom ao disco. Muito boa a estreia da cantora em disco solo, que, por sinal, tem uma voz muito charmosa.

ADEMAR AMANCIO disse...

Ser cool não é qualidade,é apenas um atributo quase sempre soporífero.
E também é claro que tem músicas que só fica bem neste registro.