Mauro Ferreira no G1

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sexta-feira, 16 de outubro de 2015

'Bang!' municia Anitta com artilharia que aponta evolução no seu mundo pop

Resenha de CD
Título: Bang!
Artista: Anitta
Gravadora: Warner Music
Cotação: * * *

Bang! é o melhor álbum de Anitta. O que não quer dizer que seja um grande disco, já que a cantora e compositora carioca - a voz mais popular do funk pop  nativo - vem de dois irregulares álbuns de estúdio. Bang! municia Anitta com artilharia pop que aponta evolução no caminho desta artista de números superlativos. "Dei meu tiro certo em você", dispara a cantora em verso da música-título Bang, uma das sete composições assinadas por Anitta com Jefferson Junior e Umberto Tavares, os hitmakers do funk pop produzido em escala industrial por gravadoras multinacionais como a Warner Music, companhia que mantém Anitta  - e também Ludmilla, outra aposta bem-sucedida da empresa fonográfica no gênero - sob contrato. Umberto Tavares assina com Mãozinha a produção deste terceiro álbum de estúdio de Anitta. Se ouvidas isoladamente, músicas funkeadas como Atenção - outra composição de Anitta com Jefferson Junior e Umberto Tavares - e Eu sou do tipo (Anitta, Wallace Vianna e André Vieira) sinalizam que nada mudou tanto assim. O discurso firme e feminista, que põe os homens no seu devido lugar no mundo machista do funk, inclusive continua o mesmo. "Vê se eu tenho cara de reserva / De mulher que cai nessa / A fila anda, mas eu quero qualidade", avisa em versos de Atenção. A questão é que Bang! - o álbum - dá passo além de seus dois antecessores, Anitta (Warner Music, 2013) e Ritmo perfeito (Warner Music, 2014), apostando numa maior diversidade rítmica que cumpre bem a função de distanciar a artista do pancadão do funk mais pesado e de tornar Anitta cada vez mais pop sem, contudo, diluir as conexões da cantora com o universo do funk. A presença no disco do emergente funkeiro carioca Nego do Borel - com quem Anitta protagoniza embate marrento em Pode chegar (Anitta, Jefferson Junior e Umberto Tavares), com Nego cheio de si no diálogo autorreferente da letra - indica que tudo é ostensivamente calculado e previamente pensado neste terceiro álbum de estúdio da artista. Mas o fato irrefutável é que Bang! resulta mais sedutor do que seu primeiro single - Deixa ele sofrer (Anitta, Jefferson Junior e Umberto Tavares), lançado em julho e alocado no disco na gravação original e na versão acústica que fecha o álbum - fez supor. A requisição do diretor de arte ítalo-brasileiro Giovanni Bianco para criar a ótima capa de Bang! - feita com elementos que remetem tanto à pop art dos anos 1960 quanto ao universo das histórias em quadrinhos - e o clipe da música-título Bang é outro indício de alto investimento para refinar a imagem de Anitta aos olhos do público. Já alvo de milhões de visualizações, o clipe desenvolve o conceito gráfico da capa. Já a música Bang embute sutis referências do funk dos anos 1970 na batida pop eletrônica que aponta o caminho seguido por Anitta na pista de cantoras norte-americanas como Katy Perry e Rihanna. Com tempero pop, ao qual foi adicionado o rap de Vitin (Vitor Hugo, vocalista da banda Onze:20), Cravo e canela exala o cheiro da felicidade romântica. A música é de Jhama e Pablo Luiz Bispo, a mesma dupla de compositores que assina Essa mina é louca, samba-rock que tem o suingue da percussão orgânica de Pretinho da Serrinha. Cantor do carioca Trio Ternura, Jhama faz dueto com Anitta na música. Ambas as composições de Jhama e Pablo Luiz Bispo contribuem decisivamente para realçar a diversidade rítmica do disco. Em contrapartida, Parei (Anitta, Jefferson Junior e Umberto Tavares) erra o alvo com sua batida trivial e um discurso que soa falso ao criticar o ritmo alucinado da noite. Nesse quesito, o discurso de Gosto assim parece mais autêntico. Nesta faixa, aditivada com batidas de dubstep e o rap do cantor paulistano Dubeat, Anitta alveja as minas que vão aos bailes da pesada somente para fisgar homens que têm "poder no bolso". Já Sim (Anitta, Jhama, Ari, MC Cert, Papatinho, Batoré, Rany Money e MC Maomé) pesa a mão no erotismo. Neste R&B, trilha perfeita para um baile charm, Anitta se une ao grupo carioca Cone Crew para falar explicitamente de sexo em linha adulta que contraria a leveza quase pueril da romântica canção eletroacústica Volta, amor (Anitta, Wallace Vianna e André Vieira) e da convidativa Deixa a onda te levar, convocação à dança que mostra que Anitta volta e meia se banha na praia do reggae sem dar um mergulho profundo. Com munição mais fraca, Show completo (Anitta, Jefferson Junior e Umberto Tavares) reitera que Anitta ganha quando se aproxima de outros ritmos e quando dá voz a outros compositores. Me leva a sério (Projota), aliás, mostra que o romantismo também tem vez no baile pop de Anitta. Enfim, Bang! é disco pré-concebido em sala de marketing. Sua receita inclui doses calculadas desse marketing estratégico que posicionou Anitta como a cantora comercialmente mais poderosa do Brasil na atualidade. Bang! acerta seu alvo ao tornar a artista cada vez mais pop sem dissociá-la por completo do mundo funk.

14 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Bang! é o melhor álbum de Anitta. O que não quer dizer que seja um grande disco, já que a cantora e compositora carioca - a voz mais popular do funk pop nativo - vem de dois irregulares álbuns de estúdio. Bang! municia Anitta com artilharia pop que aponta evolução no caminho desta artista de números superlativos. "Dei meu tiro certo em você", dispara a cantora em verso da música-título Bang, uma das sete composições assinadas por Anitta com Jefferson Junior e Umberto Tavares, os hitmakers do funk pop produzido em escala industrial por gravadoras multinacionais como a Warner Music, companhia que mantém Anitta - e também Ludmilla, outra aposta bem-sucedida da empresa fonográfica no gênero - sob contrato. Umberto Tavares assina com Mãozinha a produção deste terceiro álbum de estúdio de Anitta. Se ouvidas isoladamente, músicas funkeadas como Atenção - outra composição de Anitta com Jefferson Junior e Umberto Tavares - e Eu sou do tipo (Anitta, Wallace Vianna e André Vieira) sinalizam que nada mudou tanto assim. O discurso firme e feminista, que põe os homens no seu devido lugar no mundo machista do funk, inclusive continua o mesmo. "Vê se eu tenho cara de reserva / De mulher que cai nessa / A fila anda, mas eu quero qualidade", avisa em versos de Atenção. A questão é que Bang! - o álbum - dá passo além de seus dois antecessores, Anitta (Warner Music, 2013) e Ritmo perfeito (Warner Music, 2014), apostando numa maior diversidade rítmica que cumpre bem a função de distanciar a artista do pancadão do funk mais pesado e de tornar Anitta cada vez mais pop sem, contudo, diluir as conexões da cantora com o universo do funk. A presença no disco do emergente funkeiro carioca Nego do Borel - com quem Anitta protagoniza embate marrento em Pode chegar (Anitta, Jefferson Junior e Umberto Tavares), com Nego cheio de si no diálogo autorreferente da letra - indica que tudo é ostensivamente calculado e previamente pensado neste terceiro álbum de estúdio da artista. Mas o fato irrefutável é que Bang! resulta mais sedutor do que seu primeiro single - Deixa ele sofrer (Anitta, Jefferson Junior e Umberto Tavares), lançado em julho e alocado no disco na gravação original e na versão acústica que fecha o álbum - fez supor. A requisição do diretor de arte ítalo-brasileiro Giovanni Bianco para criar a ótima capa de Bang! - feita com elementos que remetem tanto à pop art dos anos 1960 quanto ao universo das histórias em quadrinhos - e o clipe da música-título Bang é outro indício de alto investimento para refinar a imagem de Anitta aos olhos do público.

Mauro Ferreira disse...

Já alvo de milhões de visualizações, o clipe desenvolve o conceito gráfico da capa. Já a música Bang embute sutis referências do funk dos anos 1970 na batida pop eletrônica que aponta o caminho seguido por Anitta na pista de cantoras norte-americanas como Katy Perry e Rihanna. Com tempero pop, ao qual foi adicionado o rap de Vitin (Vitor Hugo, vocalista da banda Onze:20), Cravo e canela exala o cheiro da felicidade romântica. A música é de Jhama e Pablo Luiz Bispo, a mesma dupla de compositores que assina Essa mina é louca, samba-rock que tem o suingue da percussão orgânica de Pretinho da Serrinha. Cantor do carioca Trio Ternura, Jhama faz dueto com Anitta na música. Ambas as faixas de Jhama e Pablo Luiz Bispo contribuem decisivamente para realçar a diversidade rítmica do disco. Em contrapartida, Parei (Anitta, Jefferson Junior e Umberto Tavares) erra o alvo com sua batida trivial e um discurso que soa falso ao criticar o ritmo alucinado da noite. Nesse quesito, o discurso de Gosto assim parece mais autêntico. Nesta faixa, aditivada com batidas de dubstep e o rap do cantor paulistano Dubeat, Anitta alveja as minas que vão aos bailes da pesada somente para fisgar homens que têm "poder no bolso". Já Sim (Anitta, Jhama, Ari, MC Cert, Papatinho, Batoré, Rany Money e MC Maomé) pesa a mão no erotismo. Neste R&B, trilha perfeita para um baile charm, Anitta se une ao grupo carioca Cone Crew para falar explicitamente de sexo em linha adulta que contraria a leveza quase pueril da romântica canção eletroacústica Volta, amor (Anitta, Wallace Vianna e André Vieira) e da convidativa Deixa a onda te levar, convocação à dança que mostra que Anitta volta e meia se banha na praia do reggae sem dar um mergulho profundo. Com munição mais fraca, Show completo (Anitta, Jefferson Junior e Umberto Tavares) reitera que Anitta ganha quando se aproxima de outros ritmos e quando dá voz a outros compositores. Me leva a sério (Projota), aliás, mostra que o romantismo também tem vez no baile pop de Anitta. Enfim, Bang! é disco pré-concebido em sala de marketing. Sua receita inclui doses calculadas desse marketing estratégico que posicionou Anitta como a cantora comercialmente mais poderosa do Brasil na atualidade. Bang! acerta seu alvo ao tornar a artista cada vez mais pop sem dissociá-la por completo do mundo funk.

Luca disse...

Mauro sempre falou mal de Anitta mas agora parece que se rendeu ao poder da moça. quem diria que daria pra ela as mesmas três estrelas que deu pro disco de sua queridinha Roberta Sá.

Anderson Lopes disse...

Isso só reforça a ideia de que para o resenhista em questão o "queridinha" não influi na hora de dar sua opinião sobre determinado disco de terminado artista. Parabéns, Mauro! É assim que se faz!

Jeferson Garcia disse...

Não, não é a Elza "A Mulher do Fim do Mundo". A mulher do fim do mundo é a Anitta. É muito pro meu coração e ouvidos. Na mesma semana leio a crítica da Roberta e agora a mesma qualificação pro disco da Anitta. É maldição do Caetano, só pode! É o fim do mundo mesmo! Vem meteoro e acaba com o showbizz!

O blog disse...

Nunca gostei de Anitta. Principalmente quando ela dá entrevistas ou aparece na tv e mídia em geral. E concordo em gênero, número e grau que seus discos anteriores são inferiores. Mas pra esse disco, eu tiro o chapéu. E olha que eu nunca pensei que ia dizer uma coisa dessas. Adorei a capa também.

Mauro Ferreira disse...

Anderson, grato por sua percepção. É isso mesmo. Eu não trabalho com cartas marcadas. Os discos são cotados de acordo com a audição deles, não de acordo com o prestígio do artista. Anitta lançou seu melhor disco. Roberta lançou seu pior disco. Então é natural que as cotações de ambos se emparelhem. Abs, grato a todos pela participação, MauroF

Felipe Gama disse...

Nao gostava dela. Após a audição do Bang eu me rendi! A moça ta crescendo! Gostei.

Fabio disse...

Pena que Anitta tenha voz de Xuxa, voz de cantora infantil. Do contrário, consumiria sua música.

Pablo Bispo disse...

Mauro! É com um sorriso imenso e uma alegria vibrante que recebo essas palavras! Sensação única, ímpar! E suas palavras foram como música para mim!

Obrigado de coração!

Um abraçaço

Mauro Ferreira disse...

Pablo, fico feliz que minha resenha lhe faça bem. Como sempre, escrevo o que penso. Abs, MauroF

Victor Moraes, disse...

Achei que Anitta tem um single forte e só. Não vejo o que aproveitar no resto do disco. Não vi inovação no restante (mesmo tendo ritmos diferentes que soam mas como "atirei pra todo lado"). Enfim, acho que ela vai ter que" gastar" bastante a música de trabalho e fazer muita propaganda do Giovanni (que já fez Marisa e lulu e não vi essa repercu$$ão toda), porque as outras músicas não parecem ter força suficiente para serem hits. No mais, espero que ela não siga com as turnês estilo show em festa festa de casamento pelo país e deixe a produção só pro eixo rio-sp, porque tá feio fazer Pop pela metade.

Rafael M. disse...

Lamentável esse disco ser taxado como bom pelo resenhista do blog, pois a cantora é péssima e o disco idem... Nem perco o meu tempo em ouví-la...

O fantástico mundo de Maycon disse...

Juro que tive (MUITA) boa vontade de ouvir esse CD inteiro. E pra mim ele soou como mais do mesmo. Apenas.