Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Célia faz sua sílaba soar no tempo presente do álbum 'Aquilo que a gente diz'

Resenha de CD
Título: Aquilo que a gente diz
Artista: Célia
Gravadora: Nova Estação / Tratore
Cotação: * * * *

Célia ainda faz soar sua sílaba no tempo presente, como avisou no título do disco de 2007 que marcou seu encontro com o produtor Thiago Marques Luiz, piloto do recém-lançado 13º álbum desta grande cantora nascida há 68 anos na cidade de São Paulo (SP), Aquilo que a gente diz. Neste disco, produzido por Marques Luiz para sua gravadora Nova Estação e distribuído pela Tratore, Célia dá alguns certeiros passos adiante, fazendo conexões com nomes da cena musical contemporânea do Brasil como os paulistanos Criolo e Rodrigo Campos e os pernambucanos Otto e Yuri Queiroga. Do repertório de Criolo, a cantora dá voz a um clássico instantâneo do rapper, Não existe amor em SP (Criolo, 2011). Mesmo sem roçar o tom sublime da gravação original de Criolo, Célia reapresenta a balada - de espírito soul no registro de Criolo - em outro tom, mais clássico e mais melódico. Já Campos contribui com seu cavaquinho para abrilhantar a boa lembrança do samba Se o caso é chorar (Tom Zé e Perna, 1972). Yuri Queiroga também sobressai no disco como arranjador de Deus dará, inspirada inédita fornecida pelo compositor maranhense Zeca Baleiro para o disco. Os beats e ruídos sintetizados inseridos na faixa amplificam o tom incisivo dos versos persistentes de Baleiro. "Como um cego persigo o que desejo / Se hoje não consigo ver, um dia eu vejo", avisa Célia. Grande achado do repertório, Eu sou aquele que disse (Sergio Sampaio, 1973) é pérola rara do baú do compositor capixaba Sérgio Sampaio (1947 - 1974) que mantém o vigor poético do disco com versos que misturam ansiedade, angústia e inquietação no mesmo fervente caldeirão existencial. Como Célia canta essencialmente sonhos intranquilos no disco, a regravação de Crua (Otto, 2009) cai muito bem no repertório. Com pulsação mais amena, a música de Otto soa natural na voz da cantora, emoldurada por violões (de Rovilson Pascoal, arranjador do disco) e violoncelo (o de Jonas Moncaio). Infelizmente, há momentos em que Aquilo que a gente diz cai em registro convencional. Célia nada acrescenta à balada mineira Dois rios (Samuel Rosa, Nando Reis e Lô Borges, 2003) - sucesso que evidenciou a influência do Clube da Esquina no cancioneiro mais calmo do grupo Skank - e tampouco renova a canção Opus 2 (Antonio Carlos Pinto e Jocáfi, 1977), já regravada em registro similar por Angela Ro Ro. O álbum cresce quando Célia avança, corre riscos e apresenta boas novidades como as inéditas Tanto nó (densa canção de Ivan Lins e Fátima Guedes) e Entre amigos (samba-canção de Joyce Moreno que soa meio abolerado no arranjo do pianista Alexandre Vianna). Situada fora da zona de conforto da cantora, a inédita música-título Aquilo que a gente diz - fornecida por seus compositores Alzira E e Tiago Torres da Silva - é a prova de que Célia ainda tem voz, e disposição, para fazer soar outras sílabas no tempo.

10 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Célia ainda faz soar sua sílaba no tempo presente, como avisou no título do disco de 2007 que marcou seu encontro com o produtor Thiago Marques Luiz, piloto do recém-lançado 13º álbum desta grande cantora nascida há 68 anos na cidade de São Paulo (SP), Aquilo que a gente diz. Neste disco, produzido por Marques Luiz para sua gravadora Nova Estação e distribuído pela Tratore, Célia dá alguns certeiros passos adiante, fazendo conexões com nomes da cena musical contemporânea do Brasil como os paulistanos Criolo e Rodrigo Campos e os pernambucanos Otto e Yuri Queiroga. Do repertório de Criolo, a cantora dá voz a um clássico instantâneo do rapper, Não existe amor em SP (Criolo, 2011). Mesmo sem roçar o tom sublime da gravação original de Criolo, Célia reapresenta a balada - de espírito soul no registro de Criolo - em outro tom, mais clássico e mais melódico. Já Campos contribui com seu cavaquinho para abrilhantar a boa lembrança do samba Se o caso é chorar (Tom Zé e Perna, 1972). Yuri Queiroga também sobressai no disco como arranjador de Deus dará, inspirada inédita fornecida pelo compositor maranhense Zeca Baleiro para o disco. Os beats e ruídos sintetizados inseridos na faixa amplificam o tom incisivo dos versos persistentes de Baleiro. "Como um cego persigo o que desejo / Se hoje não consigo ver, um dia eu vejo", avisa Célia. Grande achado do repertório, Eu sou aquele que disse (Sergio Sampaio, 1973) é pérola rara do baú do compositor capixaba Sérgio Sampaio (1947 - 1974) que mantém o vigor poético do disco com versos que misturam ansiedade, angústia e inquietação no mesmo fervente caldeirão existencial. Como Célia canta essencialmente sonhos intranquilos no disco, a regravação de Crua (Otto, 2009) cai muito bem no repertório. Com pulsação mais amena, a música de Otto soa natural na voz da cantora, emoldurada por violões (de Rovilson Pascoal, arranjador do disco) e violoncelo (o de Jonas Moncaio). Infelizmente, há momentos em que Aquilo que a gente diz cai em registro convencional. Célia nada acrescenta à balada mineira Dois rios (Samuel Rosa, Nando Reis e Lô Borges, 2003) - sucesso que evidenciou a influência do Clube da Esquina no cancioneiro mais calmo do grupo Skank - e tampouco renova a canção Opus 2 (Antonio Carlos Pinto e Jocáfi, 1977), já regravada em registro similar por Angela Ro Ro. O álbum cresce quando Célia avança, corre riscos e apresenta boas novidades como as inéditas Tanto nó (densa canção de Ivan Lins e Fátima Guedes) e Entre amigos (samba-canção de Joyce Moreno que soa meio abolerado no arranjo do pianista Alexandre Vianna). Situada fora da zona de conforto da cantora, a inédita música-título Aquilo que a gente diz - fornecida por seus compositores Alzira E e Tiago Torres da Silva - é a prova de que Célia ainda tem voz e disposição para fazer soar outras sílabas no tempo.

lurian disse...

Uma das cantoras que mais cresceu nos últimos anos. Cada disco vem melhor que o outro. Só aguardando o meu!

Marcelo disse...

Grande cantora. Pena ficar tão presa a São Paulo e não se apresentar quase nunca no Rio de Janeiro.

Rafael M. disse...

Grande cantora, grande disco. Ouvi ele pelo Spotify e o achei belíssimo... Merece estar nas prateleiras de todas as lojas do país e na casa de todos que apreciam a boa música.

Bruno Cavalcanti disse...

Acho uma grande pena os discos da Célia não alcançarem uma repercussão maior (de público e até de crítica)... mas concordo com o Marcelo, é uma cantora que se achou em São Paulo (ou São Paulo se achou nela), mas merecia bem mais. E viva a boa música brasileira de qualidade (seja lá o que for isso).

jose ferreira Calado disse...

Célia é um espetáculo!Voz maravilhosa,belo repertório.O Poeta Abel Silva diz que há cantoras que "soam" e há as que "suam",com certeza,Célia está entre aquelas que soam.

Rafael M. disse...

Também acho uma pena os shows de Célia ficarem restritos somente a SP. Uma pena! :-(

Rosane Pereira disse...

O cd está impecável! Realmente é uma pena um cantora extraórdinária como a Célia ter pouco espaço na mídia carioca. As versões de "Dois Rios" e "Opus 2" estão emocionantes!!!!

Rosane Pereira disse...

O cd está impecável! Realmente é uma pena um cantora extraórdinária como a Célia ter pouco espaço na mídia carioca. As versões de "Dois Rios" e "Opus 2" estão emocionantes!!!!

Rosane Pereira disse...

O cd está impecável! Realmente é uma pena um cantora extraórdinária como a Célia ter pouco espaço na mídia carioca. As versões de "Dois Rios" e "Opus 2" estão emocionantes!!!!