Mauro Ferreira no G1

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terça-feira, 19 de junho de 2012

Com inéditas e temas reciclados, 'Amorágio' acentua romantismo de Ivan

Resenha de CD
Título: Amorágio
Artista: Ivan Lins
Gravadora: Som Livre
Cotação: * * * 1/2

Álbum pautado pela diversidade rítmica, Amorágio tem status de disco de inéditas na obra fonográfica de Ivan Lins, embora recicle temas antigos do cantor sob a produção de Rodrigo Vidal entre algumas músicas realmente novas. Uns já foram gravados pelo compositor carioca ao longo de seus 42 anos de carreira, caso da moda de viola Atrás Poeira (Ivan Lins e Vítor Martins, 1986), rebobinada com a adesão da dupla sertaneja Fioravante & Guimarães, formada pelo cantor paulista Rafael Altério com o próprio Ivan Lins. Tão folhetinescos quanto poéticos, os versos de Vítor Martins expõem em Atrás Poeira a quadrilha caipira que opõe uns e outros numa trama de amores nem sempre correspondidos. Outros temas de Amorágio são ao menos inéditos na voz de Ivan, caso do samba Roda Baiana (Ivan Lins e Vítor Martins, 1981), revitalizado com arranjo do saxofonista Marcelo Martins em fonograma que, a rigor, nada acrescenta aos registros anteriores do samba, em especial à gravação original feita por Gal Costa no álbum Fantasia (1981). Na contramão da rota globalizada e mais jazzística de seu antecessor Íntimo (2010), Amorágio é álbum embebido em ritmos brasileiros que recicla o romantismo que pontua grande parte do cancioneiro do compositor. Se Carrosel do Bate-Coxa (Ivan Lins e Claudio Lins, 2012) gira no compasso do xote com sensualidade que jamais resvala para a vulgaridade do universo do forró pop, Sou Eu (Ivan Lins e Chico Buarque, 2009) cai sem molho no samba enquanto Olhos Pra Te Ver (Gilson Peranzzetta e Ivan Lins, 2012) é canção sertaneja em que Ivan - normalmente criador de melodias que ganham versos de seus parceiros - se exercita como letrista na criação de versos que exaltam a beleza da mulher amada de forma quase platônica, sem o tom carnal que aquece Fado Saramago, composto por Ivan a partir de poema erotizado do escritor português José Saramago (1922 - 2010) e gravado em dueto com o cantor lusitano Antonio Zambujo. Em aceno levemente pop para as paradas contemporâneas, Ivan revisita Quem me Dera (Ivan Lins e Vítor Martins, 1981) - canção lançada pelo próprio cantor em seu álbum Daquilo Que Eu Sei (1981) - com a voz onipresente de Maria Gadú, em conexão provavelmente arquitetada pelo produtor Rodrigo Vidal, piloto dos álbuns de Gadú. A canção ganhou versos novos de Vítor Martins, que também alterou a letra de X no Calendário (Ivan Lins, Vítor Martins e Pedro Luís) para fazer alusão à pacificação das favelas cariocas. Composta por Ivan e Vítor em 1988, mas agora aditivada com rap dito pelo parceiro Pedro Luís sobre base de samba, X no Calendário evoca as canções politizadas compostas por Ivan e Vítor na década de 70 para denunciar por meio de metáforas os abusos do regime ditatorial que amordaçava o Brasil na época. Já E Isso Acontece (Ivan Lins, 2012) - com Ivan novamente na função bissexta de letrista - é uma daquelas baladas românticas típicas da obra do compositor, que versa com delicadeza sobre mágoas e ressentimentos provocados pelo fim de um caso de amor. As cordas orquestradas por Jaques Morelenbaum realçam o requinte da canção, da mesma família de Quero Falar de Amor (Ivan Lins, Vítor Martins, Ivano Fossatti, 2000), balada classuda que abre Amorágio com letra inédita de Vítor Martins e com cordas arranjadas pelo maestro Eduardo Souto Neto. No fecho do álbum, há a faixa-título, parceria de Ivan com Osny Mello e Salgado Maranhão, gravada por Ivan em 2000 para CD direcionado ao mercado japonês. Ode ao amor, Amorágio - a (bela) canção - ganha a voz da cantora paulista Tatiana Parra e termina ambientada numa atmosfera jazzy que reitera o requinte harmônico do álbum e da obra de Ivan Lins como um todo. Mesmo sem apresentar repertório tão inspirado quanto o de seu recente clássico Acariocando (2006),o CD Amorágio seduz ao acentuar o viés romântico dessa grande obra pautada por salutar diversidade rítmica.

8 comentários:

Mauro Ferreira disse...

Álbum pautado pela diversidade rítmica, Amorágio tem status de disco de inéditas na obra fonográfica de Ivan Lins, embora recicle temas antigos do cantor sob a produção de Rodrigo Vidal entre algumas músicas realmente novas. Uns já foram gravados pelo compositor carioca ao longo de seus 42 anos de carreira, caso da moda de viola Atrás Poeira (Ivan Lins e Vítor Martins, 1986), rebobinada com a adesão da dupla sertaneja Fioravante & Guimarães, formada pelo cantor paulista Rafael Altério com o próprio Ivan Lins. Tão folhetinescos quanto poéticos, os versos de Vítor Martins expõem em Atrás Poeira a quadrilha caipira que opõe uns e outros numa trama de amores nem sempre correspondidos. Outros temas de Amorágio são ao menos inéditos na voz de Ivan, caso do samba Roda Baiana (Ivan Lins e Vítor Martins, 1981), revitalizado com arranjo do saxofonista Marcelo Martins em fonograma que, a rigor, nada acrescenta aos registros anteriores do samba, em especial à gravação original feita por Gal Costa no álbum Fantasia (1981). Na contramão da rota globalizada e mais jazzística de seu antecessor Íntimo (2010), Amorágio é álbum embebido em ritmos brasileiros que recicla o romantismo que pontua grande parte do cancioneiro do compositor. Se Carrosel do Bate-Coxa (Ivan Lins e Claudio Lins, 2012) gira no compasso do xote com sensualidade que jamais resvala para a vulgaridade do universo do forró pop, Sou Eu (Ivan Lins e Chico Buarque, 2009) cai sem molho no samba enquanto Olhos Pra Te Ver (Gilson Peranzzetta e Ivan Lins, 2012) é canção sertaneja em que Ivan - normalmente criador de melodias que ganham versos de seus parceiros - se exercita como letrista na criação de versos que exaltam a beleza da mulher amada de forma quase platônica, sem o tom carnal que aquece Fado Saramago, composto por Ivan a partir de poema erotizado do escritor português José Saramago (1922 - 2010) e gravado em dueto com o cantor lusitano Antonio Zambujo. Em aceno levemente pop para as paradas contemporâneas, Ivan revisita Quem me Dera (Ivan Lins e Vítor Martins, 1981) - canção lançada pelo próprio cantor em seu álbum Depois dos Temporais (1981) - com a voz onipresente de Maria Gadú, em conexão provavelmente arquitetada pelo produtor Rodrigo Vidal, piloto dos álbuns de Gadú. A canção ganhou versos novos de Vítor Martins, que também alterou a letra de X no Calendário (Ivan Lins, Vítor Martins e Pedro Luís) para fazer alusão à pacificação das favelas cariocas. Composta por Ivan e Vítor em 1988, mas agora aditivada com rap dito pelo parceiro Pedro Luís sobre base de samba, X no Calendário evoca as canções politizadas compostas por Ivan e Vítor na década de 70 para denunciar por meio de metáforas os abusos do regime ditatorial que amordaçava o Brasil na época. Já E Isso Acontece (Ivan Lins, 2012) - com Ivan novamente na função bissexta de letrista - é uma daquelas baladas românticas típicas da obra do compositor, que versa com delicadeza sobre mágoas e ressentimentos provocados pelo fim de um caso de amor. As cordas orquestradas por Jaques Morelenbaum realçam o requinte da canção, da mesma família de Quero Falar de Amor (Ivan Lins, Vítor Martins, Ivano Fossatti, 2000), balada classuda que abre Amorágio com letra inédita de Vítor Martins e com cordas arranjadas pelo maestro Eduardo Souto Neto. No fecho do álbum, há a faixa-título, parceria de Ivan com Osny Mello e Salgado Maranhão, gravada por Ivan em 2000 para CD direcionado ao mercado japonês. Ode ao amor, Amorágio - a (bela) canção - ganha a voz da cantora paulista Tatiana Parra e termina ambientada numa atmosfera jazzy que reitera o requinte harmônico do álbum e da obra de Ivan Lins como um todo. Mesmo sem apresentar repertório tão inspirado quanto o recente Acariocando (2006), Amorágio seduz ao acentuar o viés romântico dessa grande obra pautada por salutar diversidade rítmica.

maroca disse...

Augusto Flávio (Juazeiro-Ba) Disse:

Quem me dera, é de 1981 sim; mas do disco "Daquilo que eu sei" o disco Depois dos temporais é de 1983 e não consta a música.

Abraços.

Felipe dos Santos disse...

Mauro, só para corrigir: o álbum de 1981 que contém "Quem me dera" é intitulado "Daquilo que eu sei". "Depois dos temporais" é o álbum de 1983.

Abraços,

Felipe dos Santos Souza

Mauro Ferreira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mauro Ferreira disse...

Augusto e Felipe, vocês tem toda razão. Confiei no release e me dei mal. Abs, obrigado pelo toque atento de vocês dois, MauroF

Claudio Lins disse...

Oi, Mauro.
Crítica chique e respeitosa, como é típico da sua pena... e como o pai merece. Obrigado pelo carinho de sempre.
Ab
Claudio Lins

Mauro Ferreira disse...

Não tem de que, Claudio. Parabéns pelo xote. Abs, MauroF

Nando Moraes disse...

Regravou "Sou Eu" que arrecem estava no álbum anetrior?
Curioso.