Mauro Ferreira no G1

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quarta-feira, 20 de junho de 2012

Disco 'Treme' sintetiza e amplia universo tecnobrega de Gaby com apelo pop

Resenha de CD
Título: Treme
Artista: Gaby Amarantos
Gravadora: Som Livre
Cotação: * * * *

 "A tribo tá chegando do Pará / Essa batida é muito show / A força é tão grande / Que até a terra treme", avisa Gaby Amarantos em verso autoral de Faz o T (Gaby Amarantos), música da qual foi extraído o título de seu primeiro CD solo, Treme. De certa forma, a artista paraense deixa entrever nesses versos a existência de aura hype construída entre 2011 e 2012 em torno do universo musical do Norte do Brasil e - mais especificamente  - em volta da própria Gaby. A ordem na mídia robotizada é incensar músicas e ritmos do Pará - o que não impede o (justo) reconhecimento de que Treme é um ótimo disco. Produzido por Luiz Félix Robatto, sob a direção artística de Carlos Eduardo Miranda, o álbum refina, sintetiza e amplia o universo tecnobrega de Gaby. A música do Pará nunca soou tão pop - como já sinaliza o hit Ex mai love (Veloso Dias), pérola brega propagada em escala nacional na abertura da novela global Cheias de Charme. Sem perder a pose, a artista conecta seu suingue latino até ao romantismo sertanejo de Zezé Di Camargo & Luciano, pondo molho em Coração está em pedaços (1992). Uma das baladas mais bonitas da lavra de Zezé Di Camargo, coração está em pedaços foi uma das músicas cantadas por Gaby no programa Som Brasil dedicado à dupla. A pedido da gravadora global Som Livre, Gaby voltou ao estúdio para incluir a música em Treme. Outra faixa inserida nesse retorno ao estúdio foi Galera da laje (Maderito e Joe Benassi), batidão que linka o som de Gaby ao funk carioca em dueto com Maderito, coautor da música e integrante da Gang do Eletro. Tal conexão foi provavelmente arquitetada por Waldo Squash, DJ da Gang e coprodutor de Treme, responsável pelas batidas eletrônicas inseridas nos arranjos em dosagens calculadas para não macular o caráter pop do disco. Mais perto da tribo de Gaby, Mestiça (Dona Onete) faz ecoar os sons indígenas do Norte em faixa gravada com a adesão de Onete, respeitado nome da velha guarda da música paraense. Inserido na rota da mestiçagem que pauta o CD, Recife (PE) fornece a irresistível Xirley (Zé Cafofinho, Original DJ Copy, Chiquinho, Marcelo Machado e Hugo Gila), música composta em 2003 para o grupo Originais do Sample e gravada pelo grupo pernambucano Zé Cafofinho e Suas Correntes no álbum Dança da Noite (2009). Alvo de clipe lançado em outubro de 2011, Xirley é belo cartão-de-visitas para Treme por explicitar o universo musical de Gaby, projetada como vocalista da banda TecnoShow. Inclusive por citar na letra as aparelhagens, festas do Norte onde a voz quente (mas não especialmente volumosa ou extensa) de Gaby já se fez ouvir com músicas da Tecnoshow. Algumas estão rebobinadas em Treme. É o caso da autoral Gemendo (Gaby Amarantos), tema primário que evoca o erotismo artificial de Gretchen e evidencia os limites estéticos da compositora, autora também de Eira (Gaby Amarantos), faixa de suingue mais sedutor. Posta dentro do universo de Gaby com esse mesmo suingue, a deliciosa Chuva cai como boa surpresa do disco por trazer a assinatura de Iara Rennó e Thalma de Freitas, duas artistas associadas à cena indie de São Paulo (SP). Revelada na cena pop mineira, mas de origem nortista, Fernanda Takai faz com que a leveza de seu canto seja o tempero ideal de Pimenta com Sal (Eliakin Rufino), faixa em que Gaby arma com Takai sensual jogo de contrastes entre brancas e pretas com as mesmas cores vivas de Merengue latino (Ronaldo Silva), cujo balanço caribenho evoca a era da lambada. Conectada a nomes da atual cena paraense como Felipe Cordeiro (parceiro de Gaby em Ela Tá no Ar) ao mesmo tempo em que repagina a obra de um ícone da música brega do Norte como Alípio Martins (1944 - 1997), lembrado com Vem me Amar (música feita em parceria com Jesus Couto), Gaby Amarantos irmana presente e passado musical de sua região em Treme sem deixar de mostrar ao longo das 14 faixas do CD que sua tribo também pode ser o mundo. Marketing e hypes à parte, a batida desse seu mestiço primeiro álbum solo é show!!! 

12 comentários:

Mauro Ferreira disse...

"A tribo tá chegando do Pará / Essa batida é muito show / A força é tão grande / Que até a terra treme", avisa Gaby Amarantos em verso autoral de Faz o T (Gaby Amarantos), música da qual foi extraído o título de seu primeiro CD solo, Treme. De certa forma, a artista paraense deixa entrever nesses versos a existência de aura hype construída entre 2011 e 2012 em torno do universo musical do Norte do Brasil e - mais especificamente - em volta da própria Gaby. A ordem na mídia robotizada é incensar músicas e ritmos do Pará - o que não impede o (justo) reconhecimento de que Treme é um ótimo disco. Produzido por Luiz Félix Robatto, sob a direção artística de Carlos Eduardo Miranda, o álbum refina, sintetiza e amplia o universo tecnobrega de Gaby. A música do Pará nunca soou tão pop - como já sinaliza o hit Ex Mai Love (Veloso Dias), pérola brega propagada em escala nacional na abertura da novela global Cheias de Charme. Sem perder a pose, a artista conecta seu suingue latino até ao romantismo sertanejo de Zezé Di Camargo & Luciano, pondo molho em Coração Está em Pedaços (1992). Uma das baladas mais bonitas da lavra de Zezé Di Camargo, Coração Está em Pedaços foi uma das músicas cantadas por Gaby no programa Som Brasil dedicado à dupla. A pedido da gravadora global Som Livre, Gaby voltou ao estúdio para incluir a música em Treme. Outra faixa inserida nesse retorno ao estúdio foi Galera da Laje (Maderito e Joe Benassi), batidão que linka o som de Gaby ao funk carioca em dueto com Maderito, coautor da música e integrante da Gang do Eletro. Tal conexão foi provavelmente arquitetada por Waldo Squash, DJ da Gang e coprodutor de Treme, responsável pelas batidas eletrônicas inseridas nos arranjos em dosagens calculadas para não macular o caráter pop do disco. Mais perto da tribo de Gaby, Mestiça (Dona Onete) faz ecoar os sons indígenas do Norte em faixa gravada com a adesão de Onete, respeitado nome da velha guarda da música paraense. Inserido na rota da mestiçagem que pauta o CD, Recife (PE) fornece a irresistível Xirley (Zé Cafofinho, Original DJ Copy, Chiquinho, Marcelo Machado e Hugo Gila), música composta em 2003 para o grupo Originais do Sample e gravada pelo grupo pernambucano Zé Cafofinho e Suas Correntes no álbum Dança da Noite (2009). Alvo de clipe lançado em outubro de 2011, Xirley é belo cartão-de-visitas para Treme por explicitar o universo musical de Gaby, projetada como vocalista da banda TecnoShow. Inclusive por citar na letra as aparelhagens, festas do Norte onde a voz quente (mas não especialmente volumosa ou extensa) de Gaby já se fez ouvir com músicas da Tecnoshow. Algumas estão rebobinadas em Treme. É o caso da autoral Gemendo (Gaby Amarantos), tema primário que evoca o erotismo artificial de Gretchen e evidencia os limites estéticos da compositora, autora também de Eira (Gaby Amarantos), faixa de suingue mais sedutor. Posta dentro do universo de Gaby com esse mesmo suingue, a deliciosa Chuva cai como boa surpresa do disco por trazer a assinatura de Iara Rennó e Thalma de Freitas, duas artistas associadas à cena indie de São Paulo (SP). Revelada na cena pop mineira, mas de origem nortista, Fernanda Takai faz com que a leveza de seu canto seja o tempero ideal de Pimenta com Sal (Eliakin Rufino), faixa em que Gaby arma com Takai sensual jogo de contrastes entre brancas e pretas com as mesmas cores vivas de Merengue Latino (Ronaldo Silva), cujo balanço caribenho evoca a era da lambada. Conectada a nomes da atual cena paraense como Felipe Cordeiro (parceiro de Gaby em Ela Tá no Ar) ao mesmo tempo em que repagina a obra de um ícone da música brega do Norte como Alípio Martins (1944 - 1997), lembrado com Vem me Amar, Gaby Amarantos irmana presente e passado musical de sua região em Treme sem deixar de mostrar ao longo das 14 faixas do CD que sua tribo também é o mundo. Marketing e hype à parte, a batida de seu mestiço primeiro disco solo é muito show!

Maria disse...

Mauro, gostaria muito de uma resenha do novo disco de Sara Gazarek ótima cantora de Jazz chamado Blossom & Bee que foi lançado ontem Grata!

Eduardo Cáffaro disse...

Acabei de ouvir. Faz o T - parece música da Ivete Sangalo. Mas me cansa um pouco essa batida tha tha tum tha tha tum, o disco todo. Claro que vai vender muito, no País do Thetererecheche, só para agradar Parará, parará ... e afins.
Eu ainda prefiro músicas com melodias bonitas e letras melhores. Mas será um dos cds mais vendidos de 2012.

lurian disse...

Mais um produto no mercado, pronta para ser consumida, até que venha o próximo. Ah como esse som, como essa roda cansa...

lurian disse...

Verdade seja dita, quando Gaby abranda os excessos da robotização eletrônica para cantar a Amazônia se torna mais interessante, como em Mestiça.
Não gosto da sensação de estar ouvindo fliperama ou joguinhos eletrônicos das outras.

Fabiana disse...

Quando achamos que já vimos de tudo...

Zé Henrique disse...

Interesante ver como funciona todo esse circo da música.
Aliás, da vida.
Vc pode ter o mesmo som, mas dependendo da roupagem vc é legal e não brega.
Que a forma como se diz/canta as coisas é tão importante quanto o conteúdo não cabe dúvida.
Mas tirando o verniz moderninho/indie a forma como a Gaby faz é a mesma de um, sei lá, Calypso.
A Gaby tem entonação de cantora de lambada do início dos anos 90.

PS: Do Pará gosto dos Mestres da Guitarrada e do Pio Lobato.

Eduado Mezzonato disse...

Como adoro ritmos latinos como cumbia, rumba, salsa, mambo...adorei o novo cd. Sem aquelas vinhetas chatas que estragam as músicas. O disco está sisudo, com ótimas letras e arranjos. Me parece uma coeltânea. Se o povo que fala mal, fossem ouvir um tecnobrega meia-boca íam ver o que estou querendo dizer. No Sound Cloud tem um monte assim. Gaby já é sucesso.

André disse...

1,99 por este CD tá caro demais! Que tenha os seus 15 minutos de fama e despareça o mais rápido possível!

aguiar_luc disse...

Gente divirtam-se! O som é legal, agora vcs só gostam de música cabeça por esse motivo ficam um bando de coroas rabujentos. Só ouvindo Recanto da Gal, ops!! do Caetano...

Luiz Leite disse...

Concordo com o André:

1,99 por este CD tá caro demais! Que tenha os seus 15 minutos de fama e despareça o mais rápido possível!

Obs: E sou de Belém do Pará.

Denilson Santos disse...

Esse é o tipo de cd que eu recomendo e apóio o download, pra não ter nem que gastar sequer R$1,99.

abração,
Denilson