Mauro Ferreira no G1

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terça-feira, 30 de abril de 2013

Como cantora, Inez Viana atinge o ser de atriz em sedutor show teatral

Resenha de show
Título: Samba no teatro
Artista: Inez Viana (em foto de Mauro Ferreira)
Local: Arena do Espaço Sesc Copacabana (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 24 de abril de 2013
Cotação: * * * *
Show em cartaz às terças e quartas-feiras, no Sesc Copacabana, até 1º de maio de 2013

Parafraseando a letra de Cacilda, canção em que o compositor paulista José Miguel Wisnik celebra a mítica atriz paulista Cacilda Becker (1921 - 1969), é como cantora que a carioca Inez Viana atinge o ser de atriz em Samba no teatro, sedutor show de ambiência teatral em cartaz às terças e quartas-feiras no Sesc Copacabana, no Rio de Janeiro (RJ), até 1º de maio de 2013. No roteiro do show feito por Viana sob a direção musical de João Callado, Cacilda está alocada no bis. É a única música que não se enquadra em nenhuma moldura de samba, ritmo-mote do espetáculo produzido por Claudia Marques para fazer a atriz-cantora levar à cena o repertório do bom CD Samba no teatro, lançado ao fim de 2012 pela gravadora Fina Flor. Mas Cacilda está no roteiro, ao fim do show, como que para reiterar que tudo o que foi visto antes faz parte de envolvente jogo de cena criado pelo diretor Cesar Augusto. Como Viana (atriz e diretora respeitada nas coxias do teatro carioca) nasceu para a cena, o show resulta ainda melhor do que o disco. A teatralidade se faz notar já no primeiro número, Tem mais samba, tema seminal da obra do compositor carioca Chico Buarque, criado para o musical Balanço de Orfeu (1964) e feito por Viana fora da arena do Espaço Sesc, atrás das cadeiras que alojam o público. Gracejo dirigido a um espectador no número seguinte - feito pela atriz-cantora enquanto desce as escadas que a conduzem ao palco propriamente dito ao som de O Forrobodó (música lançada pela pioneira compositora carioca Chiquinha Gonzaga - 1847 / 1935 - na homônima opereta de 1912) - dá a pista certeira do tom descontraído da cena, temperada com bom humor pelas falas da intérprete. O espelho alocado num canto do palco completa a sugestão teatral e reflete, alguns números depois, a solidão que invade o salão de tristezas disfarçadas da personagem de A mais bonita, música composta por Chico Buarque para a peça Suburbano coração (1989) e cantada por Viana na cadência do samba-canção. A participação de Pedro Miranda em três sambas feitos para teatro - No tabuleiro da baiana (Ary Barroso, 1936), Tem que rebolar (José Batista e Magno de Oliveira, 1954) e Biscate (Chico Buarque, 1993) - põe malícia no dendê em jogo cênico que atinge seu lance maior no samba Biscate, quitute do vasto tabuleiro de Chico Buarque, preparado para a peça Suburbano coração e degustado pelo compositor no álbum Paratodos (1993). O drama entra em cena quando Viana dá voz ao samba-canção Na batucada da vida (Ary Barroso e Luiz Peixoto, 1934) sem alcançar o tom inatingível da interpretação de Elis Regina (1945 - 1982). O saxofone de Alexandre Caldi se faz ouvir no número. Na sequência, o samba Tipo zero (1934) - composto por Noel Rosa (1910 - 1937) para a opereta A noiva do condutor (1936) - devolve a descontração à cena. É quando a atriz-cantora faz teatro com espectador escolhido na plateia. Já o afro-samba Toque de benguela (Paulo César Pinheiro, 2006) evoca o universo da capoeira em número que conta com a entrada em cena das cantoras do grupo As Meninas da Gamboa, feita de forma surpreendente. No fim, o samba-enredo O rei de Ramos (Francis Hime, Chico Buarque e Dias Gomes, 1979) entra na avenida circular em que Inez Viana evolui até atingir o ser de atriz no exercício de cantora neste belo show teatral que merece permanecer em cena.

3 comentários:

Mauro Ferreira disse...

Parafraseando a letra de Cacilda, canção em que o compositor paulista José Miguel Wisnik celebra a mítica atriz paulista Cacilda Becker (1921 - 1969), é como cantora que a carioca Inez Viana atinge o ser de atriz em Samba no teatro, sedutor show de ambiência teatral em cartaz às terças e quartas-feiras no Sesc Copacabana, no Rio de Janeiro (RJ), até 1º de maio de 2013. No roteiro do show feito por Viana sob a direção musical de João Callado, Cacilda está alocada no bis. É a única música que não se enquadra em nenhuma moldura de samba, ritmo-mote do espetáculo produzido por Claudia Marques para fazer a atriz-cantora levar à cena o repertório do bom CD Samba no teatro, lançado ao fim de 2012 pela gravadora Fina Flor. Mas Cacilda está no roteiro, ao fim do show, como que para reiterar que tudo o que foi visto antes faz parte de envolvente jogo de cena criado pelo diretor Cesar Augusto. Como Viana (atriz e diretora respeitada nas coxias do teatro carioca) nasceu para a cena, o show resulta ainda melhor do que o disco. A teatralidade se faz notar já no primeiro número, Tem mais samba, tema seminal da obra do compositor carioca Chico Buarque, criado para o musical Balanço de Orfeu (1964) e feito por Viana fora da arena do Espaço Sesc, atrás das cadeiras que alojam o público. Gracejo dirigido a um espectador no número seguinte - feito pela atriz-cantora enquanto desce as escadas que a conduzem ao palco propriamente dito ao som de O Forrobodó (música lançada pela pioneira compositora carioca Chiquinha Gonzaga - 1847 / 1935 - na homônima opereta de 1912) - dá a pista certeira do tom descontraído da cena, temperada com bom humor pelas falas da intérprete. O espelho alocado num canto do palco completa a sugestão teatral e reflete, alguns números depois, a solidão que invade o salão de tristezas disfarçadas da personagem de A mais bonita, música composta por Chico Buarque para a peça Suburbano coração (1989) e cantada por Viana na cadência do samba-canção. A participação de Pedro Miranda em três sambas feitos para teatro - No tabuleiro da baiana (Ary Barroso, 1936), Tem que rebolar (José Batista e Magno de Oliveira, 1954) e Biscate (Chico Buarque, 1993) - põe malícia no dendê em jogo cênico que atinge seu lance maior no samba Biscate, quitute do vasto tabuleiro de Chico Buarque, preparado para a peça Suburbano coração e degustado pelo compositor no álbum Paratodos (1993). O drama entra em cena quando Viana dá voz ao samba-canção Na batucada da vida (Ary Barroso e Luiz Peixoto, 1934) sem alcançar o tom inatingível da interpretação de Elis Regina (1945 - 1982). O saxofone de Alexandre Caldi se faz ouvir no número. Na sequência, o samba Tipo zero (1934) - composto por Noel Rosa (1910 - 1937) para a opereta A noiva do condutor (1936) - devolve a descontração à cena. É quando a atriz-cantora faz teatro com espectador escolhido na plateia. Já o afro-samba Toque de benguela (Paulo César Pinheiro, 2006) evoca o universo da capoeira em número que conta com a entrada em cena das cantoras do grupo As Meninas da Gamboa, feita de forma surpreendente. No fim, o samba-enredo O rei de Ramos (Francis Hime, Chico Buarque e Dias Gomes, 1979) entra na avenida circular em que Inez Viana evolui até atingir o ser de atriz no exercício de cantora neste belo show teatral que merece permanecer em cena.

Rafael M. disse...

Tomara que saia um CD e DVD ao vivo deste projeto.

ADEMAR AMANCIO disse...

Mauro Ferreira.