Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


Mostrando postagens com marcador Inez Viana. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Inez Viana. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 30 de abril de 2013

Como cantora, Inez Viana atinge o ser de atriz em sedutor show teatral

Resenha de show
Título: Samba no teatro
Artista: Inez Viana (em foto de Mauro Ferreira)
Local: Arena do Espaço Sesc Copacabana (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 24 de abril de 2013
Cotação: * * * *
Show em cartaz às terças e quartas-feiras, no Sesc Copacabana, até 1º de maio de 2013

Parafraseando a letra de Cacilda, canção em que o compositor paulista José Miguel Wisnik celebra a mítica atriz paulista Cacilda Becker (1921 - 1969), é como cantora que a carioca Inez Viana atinge o ser de atriz em Samba no teatro, sedutor show de ambiência teatral em cartaz às terças e quartas-feiras no Sesc Copacabana, no Rio de Janeiro (RJ), até 1º de maio de 2013. No roteiro do show feito por Viana sob a direção musical de João Callado, Cacilda está alocada no bis. É a única música que não se enquadra em nenhuma moldura de samba, ritmo-mote do espetáculo produzido por Claudia Marques para fazer a atriz-cantora levar à cena o repertório do bom CD Samba no teatro, lançado ao fim de 2012 pela gravadora Fina Flor. Mas Cacilda está no roteiro, ao fim do show, como que para reiterar que tudo o que foi visto antes faz parte de envolvente jogo de cena criado pelo diretor Cesar Augusto. Como Viana (atriz e diretora respeitada nas coxias do teatro carioca) nasceu para a cena, o show resulta ainda melhor do que o disco. A teatralidade se faz notar já no primeiro número, Tem mais samba, tema seminal da obra do compositor carioca Chico Buarque, criado para o musical Balanço de Orfeu (1964) e feito por Viana fora da arena do Espaço Sesc, atrás das cadeiras que alojam o público. Gracejo dirigido a um espectador no número seguinte - feito pela atriz-cantora enquanto desce as escadas que a conduzem ao palco propriamente dito ao som de O Forrobodó (música lançada pela pioneira compositora carioca Chiquinha Gonzaga - 1847 / 1935 - na homônima opereta de 1912) - dá a pista certeira do tom descontraído da cena, temperada com bom humor pelas falas da intérprete. O espelho alocado num canto do palco completa a sugestão teatral e reflete, alguns números depois, a solidão que invade o salão de tristezas disfarçadas da personagem de A mais bonita, música composta por Chico Buarque para a peça Suburbano coração (1989) e cantada por Viana na cadência do samba-canção. A participação de Pedro Miranda em três sambas feitos para teatro - No tabuleiro da baiana (Ary Barroso, 1936), Tem que rebolar (José Batista e Magno de Oliveira, 1954) e Biscate (Chico Buarque, 1993) - põe malícia no dendê em jogo cênico que atinge seu lance maior no samba Biscate, quitute do vasto tabuleiro de Chico Buarque, preparado para a peça Suburbano coração e degustado pelo compositor no álbum Paratodos (1993). O drama entra em cena quando Viana dá voz ao samba-canção Na batucada da vida (Ary Barroso e Luiz Peixoto, 1934) sem alcançar o tom inatingível da interpretação de Elis Regina (1945 - 1982). O saxofone de Alexandre Caldi se faz ouvir no número. Na sequência, o samba Tipo zero (1934) - composto por Noel Rosa (1910 - 1937) para a opereta A noiva do condutor (1936) - devolve a descontração à cena. É quando a atriz-cantora faz teatro com espectador escolhido na plateia. Já o afro-samba Toque de benguela (Paulo César Pinheiro, 2006) evoca o universo da capoeira em número que conta com a entrada em cena das cantoras do grupo As Meninas da Gamboa, feita de forma surpreendente. No fim, o samba-enredo O rei de Ramos (Francis Hime, Chico Buarque e Dias Gomes, 1979) entra na avenida circular em que Inez Viana evolui até atingir o ser de atriz no exercício de cantora neste belo show teatral que merece permanecer em cena.

Sucesso de Cyro Monteiro alonga repertório do samba de Inez no teatro

Sucesso de Cyro Monteiro (1913 - 1973), gravado pelo cantor carioca em 1954 e revivido em 1966 pelo mesmo Cyro em dueto com Elizeth Cardoso (1920 - 1990), o samba Tem que rebolar é uma das três músicas que expandem em cena no show Samba no teatro - apresentado às terças e quartas-feiras por Inez Vianna no Sesc Copacabana, no Rio de Janeiro (RJ) - o repertório do CD homônimo do show, lançado pela atriz-cantora carioca em dezembro de 2012. Além de Tem que rebolar, Viana adicionou ao roteiro outras duas músicas ausentes do disco, Na batucada da vida (Ary Barroso e Luiz Peixoto, 1934) e A mais bonita (Chico Buarque, 1939). Eis o roteiro seguido por Inez Viana - em foto de Mauro Ferreira - sob a direção musical de João Callado em Samba no teatro, ótimo show teatral em cartaz até 1º de maio de 2013:

1. Tem mais samba (Chico Buarque 1964)
2. O forrobodó (Chiquinha Gonzaga, 1912)
3. Pop pop popular (Eduardo Dussek, 197?)
4. Eu e o meu amor (Tom Jobim e Vinicius de Moraes, 1956)
5. Linda Flor (Henrique Vogeler, Luiz Peixoto, Cândido Costa e Marques Porto, 1929)
6. No tabuleiro da baiana (Ary Barroso, 1936) - com Pedro Miranda

7. Tem que rebolar (José Batista e Magno de Oliveira, 1954) - com Pedro Miranda
8. Biscate (Chico Buarque, 1993) - com Pedro Miranda
9. Tatuagem (Chico Buarque e Ruy Guerra, 1973)
10. A mais bonita (Chico Buarque, 1989)
11. Na batucada da vida (Ary Barroso e Luiz Peixoto, 1934)
12. Tipo zero (Noel Rosa, 1934)
13. Toque de benguela (Paulo César Pinheiro, 2006)
14. O rei de Ramos (Francis Hime, Chico Buarque e Dias Gomes, 1979)
Bis:
15. Cacilda (José Miguel Wisnik, 1998)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Viana entra bem em cena como cantora para dar voz ao samba de teatro

Resenha de CD
Título: Samba no Teatro
Artista: Inez Viana
Gravadora: Fina Flor
Cotação: * * * 1/2

Atriz que tem se revelado uma das mais criativas diretoras do teatro carioca, Inez Viana entra em cena no mercado fonográfico com o lançamento de seu primeiro CD, Samba no Teatro, no qual canta 12 músicas feitas para os palcos, onde debutaram entre 1912 e 2006. Convincente até ao interpretar a mítica Elis Regina (1945 - 1982) em controvertido musical carioca de 2002, a atriz está bem no papel de cantora deste disco produzido pelo compositor João Callado. Viana dá voz graciosa a um repertório nada óbvio. Esquecido dentro do magistral cancioneiro de Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994) e Vinicius de Moraes (1913 - 1980), o samba Eu e o Meu Amor - composto para a trilha sonora da peça Orfeu da Conceição (1956) - se revela popular, vocacionado para o sucesso. "Vê se não fica a duvidar / Que eu seja pop, pop, pop, popular", pede a atriz-cantora por meio de versos da irreverente Pop Pop Popular, composição de Eduardo Dussek (artista que debutou na carreira artística nos anos 70 como pianista de peças de teatro), gravada por Edson Cordeiro em 1994. Dentro dessa linha popular, Viana faz desabrochar com ternura Linda Flor (Henrique Vogeler, Luiz Peixoto, Cândido Costa e Marques Porto), marco inaugural da era do samba-canção, tema propagado pela cantora carioca Araci Cortes (1904 - 1985) na revista Miss Brasil em 1929, ano em que Cortes registrou o samba-canção em disco de 78 rotações. Delícia da obra de Chiquinha Gonzaga (1847 - 1935), O Forrobodó - música lançada pela pioneira compositora carioca na homônima opereta de 1912 - é a faixa que evoca o espírito da pré-história do teatro brasileiro e das revistas, destino de boa parte da música popular produzida até os anos 30. Foi numa revista de 1936, Maravilhosa, que o Brasil conheceu No Tabuleiro da Baiana, um dos sambas mais saborosos de Ary Barroso (1903 - 1964). Sob o toque dos metais arranjados por Humberto Araújo, Viana  apimenta o quitute ao lado do cantor Pedro Miranda. Três faixas depois, a atriz-cantora faz pitu no dendê ao reviver Biscate - samba composto por Chico Buarque para o musical Suburbano Coração (1989) - em dueto harmonioso com o próprio autor deste samba de harmonia peculiar. Sim, Chico entra em cena com Inez Viana, talvez pelo fato de ser o compositor mais recorrente na ficha técnica de Samba no Teatro. Além de Biscate, a atriz-cantora dá voz ao samba-enredo O Rei de Ramos (Francis Hime, Chico Buarque e Dias Gomes - tema que deu título ao musical encenado no Rio de Janeiro em 1979), a Tem Mais Samba - tema seminal da obra de Chico, composto para o musical Balanço de Orfeu (1964) - e a Tatuagem (Chico Buarque e Ruy Guerra), um dos títulos mais conhecidos da trilha sonora de Calabar, O Elogio da Traição (1973). Pena que Viana não imprima na sua interpretação toda a força dramática e a sensualidade de Tatuagem, ficando o maior destaque da faixa para a interpretação de pequeno trecho da peça na voz do ator Sérgio Britto (1923 - 2011), em um de seus últimos trabalhos. Cacilda (José Miguel Wisnik, 1998) - tema-título da peça encenada em São Paulo (SP) por José Celso Martinez Correa - também ressurge sem a plenitude do ser da atriz, em arranjo emoldurado pelo piano e o acordeom de Itamar Assiere. Sem jamais sair do tom, a atriz-cantora está mais à vontade no gracioso esculacho dado em Tipo Zero (1934) - samba composto por Noel Rosa (1910 - 1937) para a opereta A Noiva do Condutor (1936) - e no afro Toque de Benguela (Paulo César Pinheiro), belo tema de capoeira do musical Besouro Cordão-de-Ouro (2006). Bom, o CD Samba no Teatro reitera o talento de Inez Viana como boa atriz que consegue pôr seu afinado canto a serviço da cena, com graça, sem fazer drama.