Mauro Ferreira no G1

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sexta-feira, 12 de abril de 2013

Reflexivo, 'Condição humana' revigora obra pop de Arantes com pegada

Resenha de CD
Título: Condição humana
Artista: Guilherme Arantes
Gravadora: Coaxo do Sapo / Tratore
Cotação: * * * * 1/2

Há sete anos sem lançar álbum de inéditas, Guilherme Arantes revigora sua obra fonográfica com Condição Humana (Sobre o tempo), 26º título de discografia solo subestimada na cena pop brasileira. Lançado neste mês de abril de 2013, o CD é produto do investimento do cantor e compositor paulista em seu estúdio Coaxo do Sapo, situado em Barra do Jacuípe, em Camaçari, no litoral da Bahia. Lá Arantes gravou, em janeiro e fevereiro de 2013, este disco que alterna romantismo pop e reflexão por vezes indignada ao longo das dez boas inéditas da lavra solitária do artista. Álbum que apaga a má impressão do anterior Lótus (2007), CD que nem chegou a desabrochar diante da anemia do mercado. O fato de uma certa nostalgia da modernidade pontuar a gravação deste 26º disco - e o texto escrito por Arantes para apresentar Condição Humana (Sobre o tempo) deixa claro que o artista foi em busca da pegada que seu som tinha na virada dos anos 70 para os 80 - em nada atenua o efeito da injeção de ânimo que a obra de Arantes recebe com este álbum produzido pelo próprio artista com Gabriel Martini e Pedro Arantes. A celebrada participação do coro de vozes da atual cena indie paulista - Adriano Cintra, Bruna Caram, Curumim,  Laura Lavieri, Mariana Aydar, Thiago Pethit, Tiê e Tulipa Ruiz, entre outros - na faixa mais deliciosamente pop do álbum, Onde estava você, é apenas a cereja do bolo pop que Arante sabe bater como poucos. Estivesse sendo lançado em tempos idos, Condição Humana (Sobre o tempo) ofereceria munição certeira para as paradas. Onde estava você é o hit nato do CD, de refrão pegajoso, pronto para tocar nas rádios. Contudo, há outras joias no repertório inspirado. Trunfos da parcela romântica do repertório, Tudo que só fiz por você, a bela Oceano de amor e - em menor grau - Você em mim são canções de amor explícito que reanimam o espírito apaixonado deste compositor hábil na criação de baladas, um dos preferidos das FMs nos anos 80, década em que a obra de Arantes foi imersa no tecnopop tão ao gosto daqueles anos movidos a sintetizadores, ganhando sonoridade atualmente questionada pelo artista por ter roçado a pasteurização. Nesse sentido, Condição Humana (Sobre o tempo) reabilita o (bom) uso dos teclados na formatação do cancioneiro de Arantes. O disco, aliás, é conduzido pelo piano e pelos teclados do músico revelado no grupo Moto Perpétuo em remotas eras progressivas. Época que a faixa-título Condição humana evoca ao expor de cara, já na abertura do disco, a assinatura melódica e instrumental recorrente no cancioneiro de Arantes. Mas a guitarra de Luiz Sergio Carlini - integrante da afiada banda arregimentada por Arantes  para a gravação do CD - injeta volta e meia o vigor do rock neste disco em que Arantes versa sobre as dissonâncias do mundo e do Homem diante da passagem inexorável do tempo. "Um mundo tão bonito e tão frágil... / Nosso tempo é ilusão", conclui filosoficamente em verso da música-título Condição humana. Tais reflexões humanistas por vezes vem acompanhadas de certo estranhamento, detectável sobretudo em Olhar estrangeiro, faixa de elétrico tom folk-country. No todo, o disco reitera em temas como Cruzeiro do Sul - canção que ilumina o brilho pop do cancioneiro do artista - a fé de Arantes na vida e no amor como o antídoto para curar os males da humanidade ao longo dos tempos. "O que se leva é amor", sentencia, sucinto, na música que encerra o disco, O que se leva (Temor do tempo), gravada com a voz e o acordeom de Marcelo Jeneci. Por mais que Condição Humana (Sobre o tempo) destile inconformismo com o estado geral das coisas, e Arantes enquadra toda sua indignação na Moldura do quadro roubado, faixa de afiado tom político, o compositor fez um disco movido a amor, mote da onírica balada Castelo do reino. À beira dos 60 anos, a serem completados em 28 de julho de 2013, Guilherme Arantes ganha jovialidade na bem-sucedida busca da pegada dos tempos modernos e apresenta CD à altura de sua importância na história do pop nacional.

6 comentários:

Mauro Ferreira disse...

Há sete anos sem lançar álbum de inéditas, Guilherme Arantes revigora sua obra fonográfica com Condição Humana (Sobre o tempo), 26º título de discografia solo subestimada na cena pop brasileira. Lançado neste mês de abril de 2013, o CD é produto do investimento do cantor e compositor paulista em seu estúdio Coaxo do Sapo, situado em Barra do Jacuípe, em Camaçari, no litoral da Bahia. Lá Arantes gravou, em janeiro e fevereiro de 2013, este disco que alterna romantismo pop e reflexão por vezes indignada ao longo das dez boas inéditas da lavra solitária do artista. Álbum que apaga a má impressão do anterior Lótus (2007), CD que nem chegou a desabrochar diante da anemia do mercado. O fato de uma certa nostalgia da modernidade pontuar a gravação deste 26º disco - e o texto escrito por Arantes para apresentar Condição Humana (Sobre o tempo) deixa claro que o artista foi em busca da pegada que seu som tinha na virada dos anos 70 para os 80 - em nada atenua o efeito da injeção de ânimo que a obra de Arantes recebe com este álbum produzido pelo próprio artista com Gabriel Martini e Pedro Arantes. A celebrada participação do coro de vozes da atual cena indie paulista - Adriano Cintra, Bruna Caram, Curumim, Laura Lavieri, Mariana Aydar, Thiago Pethit, Tiê e Tulipa Ruiz, entre outros - na faixa mais deliciosamente pop do álbum, Onde estava você, é apenas a cereja do bolo pop que Arante sabe bater como poucos. Estivesse sendo lançado em tempos idos, Condição Humana (Sobre o tempo) ofereceria munição certeira para as paradas. Onde estava você é o hit nato do CD, de refrão pegajoso, pronto para tocar nas rádios. Contudo, há outras joias no repertório inspirado. Trunfos da parcela romântica do repertório, Tudo que só fiz por você, a bela Oceano de amor e - em menor grau - Você em mim são canções de amor explícito que reanimam o espírito apaixonado deste compositor hábil na criação de baladas, um dos preferidos das FMs nos anos 80, década em que a obra de Arantes foi imersa no tecnopop tão ao gosto daqueles anos movidos a sintetizadores, ganhando sonoridade atualmente questionada pelo artista por ter roçado a pasteurização. Nesse sentido, Condição Humana (Sobre o tempo) reabilita o (bom) uso dos teclados na formatação do cancioneiro de Arantes. O disco, aliás, é conduzido pelo piano e pelos teclados do músico revelado no grupo Moto Contínuo em remotas eras progressivas. Época que a faixa-título Condição humana evoca ao expor, já na abertura do disco, a assinatura melódica e instrumental recorrente no cancioneiro de Arantes. Mas a guitarra de Luiz Sergio Carlini - integrante da afiada banda arregimentada por Arantes para a gravação do CD - injeta volta e meia o vigor do rock neste disco em que Arantes versa sobre as dissonâncias do mundo e do Homem diante da passagem inexorável do tempo. "Um mundo tão bonito e tão frágil... / Nosso tempo é ilusão", conclui filosoficamente em verso da música-título Condição humana. Tais reflexões humanistas por vezes vem acompanhadas de certo estranhamento, detectável sobretudo em Olhar estrangeiro, faixa de elétrico tom folk-country. No todo, o disco reitera em temas como Cruzeiro do Sul - canção que ilumina o brilho pop do cancioneiro do artista - a fé de Arantes na vida e no amor como o antídoto para curar os males da humanidade ao longo dos tempos. "O que se leva é amor", sentencia, sucinto, na música que encerra o disco, O que se leva (Temor do tempo), gravada com a voz e o acordeom de Marcelo Jeneci. Por mais que Condição Humana (Sobre o tempo) destile inconformismo com o estado geral das coisas, e Arantes enquadra toda sua indignação na Moldura do quadro roubado, faixa de afiado tom político, o compositor fez um disco movido a amor, mote da onírica balada Castelo do reino. À beira dos 60 anos, a serem completados em 28 de julho de 2013, Guilherme Arantes ganha jovialidade na bem-sucedida busca da pegada dos tempos modernos e apresenta CD à altura de sua importância na história do pop nacional.

Vladimir disse...

Curioso para ouvir este novo CD de Guilherme Arantes!

Que este novo disco lhe traga o merecido reconhecimento, já um tanto, indevidamente, esquecido...

Luiz Araujo disse...

Vladimir, o Guilherme liberou todas as musicas do CD atraves de streaming pelo sound cloud.Va no link abaixo. O CD esta demais

https://soundcloud.com/coaxodosapo/sets/condicao-humana

Vladimir disse...

Valeu Luiz Araujo!

Grande abraço

Mr. Lion disse...

Mauro, o grupo no qual Guilherme começou a carreira era o Moto Perpétuo...
Abs
Marcos (Lion)

Mauro Ferreira disse...

Claro, Mr. Lion. Já corrigi o erro, efeito da minha cabeça cansada. abs, MauroF