quarta-feira, 1 de agosto de 2012

'Vou Rifar Meu Coração' investiga pela música 'negócio brega da paixão'

Resenha de filme
Título: Vou Rifar Meu Coração
Direção e roteiro: Ana Rieper
Música original: Amado Batista, Lindomar Castilho, Nelson Ned, Odair José e Wando
Cotação: * * * * 
Documentário em cartaz nos cinemas do Brasil a partir de 3 de agosto de 2012

"Esse negócio de paixão é bem brega", sentencia uma das personagens reais focadas pela cineasta Ana Rieper no documentário Vou Rifar Meu Coração. Intuitivamente, a fala da entrevistada dá a pista para o entendimento do filme que entra em cartaz nos cinemas do Brasil na próxima sexta-feira, 3 de agosto de 2012, após percorrer com elogios o circuito dos festivais. A partir do cancioneiro sentimental criado e/ou interpretado por cantores e compositores brasileiros identificados como bregas no universo pop nacional, Rieper investiga o negócio da paixão e da própria música dita brega nesta espécie de road movie que transita por Alagoas e Sergipe em busca de emoções interiores de um povo interiorano que expõe na tela um Brasil totalmente fora dos padrões estéticos ditados pela sociedade de consumo. Um Brasil real que consome essas tais músicas ditas bregas pela imediata identificação das letras com suas histórias de vida, às vezes mais folhetinescas do que os próprios versos dessas canções sentimentais. É nesse Brasil às vezes feio e desdentado que  habita o frentista traído que se identifica com a música Folha Seca, do repertório de Amado Batista. Um Brasil e uma dor que habita na obra de Odair José, um dos cantores e compositores mais associados a essa estética musical kitsch. "O médico chora igual ao pedreiro quando perde a mulher. A dor é a mesma", ressalta Odair para as câmeras de Rieper. A cineasta entrelaça casos reais de paixões nem sempre correspondidas com depoimentos de cantores cujas vozes e músicas ecoam nos corações descompassados. É quando aparecem as mágoas nas vozes de quem recusa o adjetivo brega. "Quando Nelson Gonçalves gravou Negue, (a música) era brega. Quando Maria Bethânia gravou, virou luxo. É preconceito", brada Agnaldo Timóteo, cheio de si e de suas qualidades vocais, efusivamente alardeadas por ele próprio. Mais diplomático e em paz com seu lugar na história da música, Wando (1945 - 2012) procurou explicar o conceito de mau gosto atribuído ao brega com o argumento de que a paixão leva ao ridículo. Mas vem de um radialista, Alves Correa, um argumento mais concreto para o sucesso do gênero musical. "Esse negócio de corno dá certo", resume o radialista, dando a entender que o negócio brega da paixão também pode movimentar cifras expressivas no mundo da música e ser (bom) negócio no sentido econômico do termo. Contudo, Ana Rieper opta acertadamente por focar o filme nas misérias e grandezas humanas provocadas pela paixão. Prostitutas, polígamos e desiludidos em geral se irmanam neste filme batizado com nome de sucesso do cantor Lindomar Castilho. Enfim, Vou Rifar Meu Coração mostra sem pudor e sem retoques que as emoções reais são a matéria-prima do mercado comum da música. E faz dessas emoções a sua boa matéria-prima.

6 comentários:

Mauro Ferreira disse...

"Esse negócio de paixão é bem brega", sentencia uma das personagens reais focadas pela cineasta Ana Rieper no documentário Vou Rifar Meu Coração. Intuitivamente, a fala da entrevistada dá a pista para o entendimento do filme que entra em cartaz nos cinemas do Brasil na próxima sexta-feira, 3 de agosto de 2012, após percorrer com elogios o circuito dos festivais. A partir do cancioneiro sentimental criado e/ou interpretado por cantores e compositores brasileiros identificados como bregas no universo pop nacional, Rieper investiga o negócio da paixão e da própria música dita brega nesta espécie de road movie que transita por Alagoas e Sergipe em busca de emoções interiores de um povo interiorano que expõe na tela um Brasil totalmente fora dos padrões estéticos ditados pela sociedade de consumo. Um Brasil real que consome essas tais músicas ditas bregas pela imediata identificação das letras com suas histórias de vida, às vezes mais folhetinescas do que os próprios versos dessas canções sentimentais. É nesse Brasil às vezes feio e desdentado que habita o frentista traído que se identifica com a música Folha Seca, do repertório de Amado Batista. Um Brasil e uma dor que habita na obra de Odair José, um dos cantores e compositores mais associados a essa estética musical kitsch. "O médico chora igual ao pedreiro quando perde a mulher. A dor é a mesma", ressalta Odair para as câmeras de Rieper. A cineasta entrelaça casos reais de paixões nem sempre correspondidas com depoimentos de cantores cujas vozes e músicas ecoam nos corações descompassados. É quando aparecem as mágoas nas vozes de quem recusa o adjetivo brega. "Quando Nelson Gonçalves gravou Negue, (a música) era brega. Quando Maria Bethânia gravou, virou luxo. É preconceito", brada Agnaldo Timóteo, cheio de si e de suas qualidades vocais, efusivamente alardeadas por ele próprio. Mais diplomático e em paz com seu lugar na história da música, Wando (1945 - 2012) procurou explicar o conceito de mau gosto atribuído ao brega com o argumento de que a paixão leva ao ridículo. Mas vem de um radialista, Alves Correa, um argumento mais concreto para o sucesso do gênero musical. "Esse negócio de corno dá certo", resume o radialista, dando a entender que o negócio brega da paixão também pode movimentar cifras expressivas no mundo da música e ser (bom) negócio no sentido econômico do termo. Contudo, Ana Rieper opta acertadamente por focar o filme nas misérias e grandezas humanas provocadas pela paixão. Prostitutas, polígamos e desiludidos em geral se irmanam neste filme batizado com nome de sucesso do cantor Lindomar Castilho. Enfim, Vou Rifar Meu Coração mostra sem pudor e sem retoques que as emoções reais são a matéria-prima do mercado comum da música. E faz dessas emoções a sua boa matéria-prima.

Luca disse...

Você é engraçado Mauro. quando faz crítica de disco, joga o adjetivo brega em cima dos cantores. agora quando fala do filme dá uma de elegante e diz música 'dita' brega. Incoerente, meu caro...

Zé Henrique disse...

Me lembrou a ótima, Vou Rifar Meu Coração tb faz parte, trilha sonora do filme Domésticas do Fernando "Cidade de Deus" Meireles.
Esse papo de brega e chique já deu o que tinha que dá.
Mas, vamos lá.
Certa vez Zeze di Camargo disse, tal qual um Sofista, que: "Se falar de amor é ser brega, então eu sou"
Ora, ora, ora, ninguém nunca disse que Tom Jobim, Vinícius ou mesmo Djavan fossem bregas.
É a FORMA - entonação, melodia...
Daí, rebatendo o questionamento do Timotéo. Não é um preconceito, e sim um conceito.
No mais, esse brega verdadeiro, das entranhas do país, é bom demais!
Agora, o brega pasteurizado é um lixo.

PS: No sul maravilha tb tem gente feia e desdentada. Viva o Brasil!

bruniuhhh disse...

"só porque não é Chico Buarque é brega?”
isso resume muito o preconceito que existe com a música.
Vi o trailer e fiquei na maior vontade...

P.S. só ressaltando a falta de Diana nesse time...

Denilson Santos disse...

"Agora, o brega pasteurizado é um lixo."

Concordo plenamente.

Viva o brega autêntico, que eu adoro!!!

abração,
Denilson

Douglas Carvalho disse...

"Se falar de amor é ser brega, então eu sou"
Ora, ora, ora, ninguém nunca disse que Tom Jobim, Vinícius ou mesmo Djavan fossem bregas.
É a FORMA - entonação, melodia. PONTO.

Nem verdadeiros nem pasteurizados (que não passam de bregas que ficaram ricos). Detesto música brega. O máximo de breguice que consigo aguentar, e já é muitíssimo, é Roberto Carlos e Joanna.