Mauro Ferreira no G1

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sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Relicário de Alem guarda lirismo nostálgico com sons do Brasil caboclo

Resenha de CD
Título: Meu relicário
Artista: Jaime Alem
Gravadora: Biscoito Fino
Cotação: * * * 1/2

A foto de Maria Bethânia na capa de um álbum dos anos 1960 está sutilmente exposta no encarte do CD Meu relicário, de Jaime Alem, ao lado da letra de Elo partido (Jaime Alem e João Marcos Alem), música que pode ter a tradicional leitura romântica - soando como mais uma canção de coração partido - como bem pode ser a senha para entender o sentimento do maestro em relação à separação da cantora que regeu nos palcos e estúdios de 1988 ao fim dos anos 2000. "É puro consolo dizer que esqueci / Moravas bem junto daqui / Olhos não olham mais entre si / Olhos não olham mais... / É puro consolo dizer que jamais / Quando eu te sinto e já não estás / Tanto afeto assim negarás / Tanto te quero mais / Tanto mais", canta Alem com a voz pequena de quem nasceu com o dom de compor e orquestrar. O arranjo de Elo partido é assinado por Alem com o pianista João Carlos Coutinho, a propósito. Os demais foram criados somente pelo maestro com sensibilidade afinada com o tom de sua música delicada. Como já sugere o título do disco editado pela gravadora Biscoito Fino, Meu relicário é álbum confessional que guarda sons e sentimentos de um Brasil antigo, ocasionalmente caboclo. Sons e sentimentos são expostos com lirismo e certa nostalgia. "Meu relicário, uma caixinha de música com tudo que mais amo, as referências familiares, os lugares, os cheiros, os amigos, os amores, inquietações e alegrias. Estilo musical? Todos, o que couber, do interior do Brasil ao urbano", situa Além, genérico e generoso, no texto do encarte em que conceitua Meu relicário. Por mais que alardeie a diversidade rítmica do disco, Meu relicário se ambienta preferencialmente no interior. Não por acaso, o álbum abre no toque da doce viola de 12 cordas tocada pelo músico paulista na faixa-título, Meu relicário (Jaime Alem), obra-prima do repertório autoral, valorizada pelas cordas da Orquestra de Solistas do Rio de Janeiro e pela voz lírica de Nair Cândia, recorrente no CD. Aliás, os solos vocais de Cândia em Sua presença querida (Jaime Alem) e em Lua e vento (Provérbios da lua) (Jaime Alem) realçam o lirismo dessas canções afinadas com o espírito vintage de Meu relicário. É a voz da cantora - companheira de Alem na música e na vida - que também é ouvida no tema sem letra Guiguita (Jaime Alem). Há toda uma nostalgia de tempos idos entranhada no repertório de Meu relicário. Se o samba-canção Simplicidade (Jaime Alem) imagina em clima onírico a volta dos silêncios, dos poetas e dos gestos descuidados de um cotidiano menos robotizado, Bondeando (Jaime Alem e Sérgio Natureza) - um samba quase amaxixado, com jeito de interior e toque rural - traça a rota amorosa de um Rio de Janeiro movido a bondes, romantismo e ferrovias. Fora da fronteira carioca, mas ainda na trilha lírica pavimentada ao longo das 13 faixas do disco gravado e mixado por Lucas Ariel, Eu vim pra Minas Gerais (Jaime Alem) ecoa no vento a força dos sons do Clube da Esquina enquanto Na Estação da Luz (Jaime Alem) reverbera a influência soberana da música de Heitor Villa-Lobos (1887 - 1959). Cabe ainda no relicário de Alem uma (trivial) reverência a outro rei, Luiz Gonzaga (1912 - 1989), com pot-pourri que junta Baião (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, 1946) e Baião da Penha (David Nasser e Guio de Moraes, 1953). Quase no fim do disco, fãs de Maria Bethânia vão reconhecer na abertura do IV movimento da Suíte caboclinha (Jaime Alem) o tema instrumental ouvido na introdução de Dona do dom (Chico César), música que abre o álbum Maricotinha (Biscoito Fino, 2001). A canção é de Chico César, mas o tema instrumental, Dionísia, é de Alem.  É que, como reitera Sonata agreste (Jaime Alem) no fecho de Meu relicário, Jaime Alem também é dono do dom de traduzir em música (e em arranjos) a alma de um Brasil caboclo que pulsa vivo na memória.

5 comentários:

Mauro Ferreira disse...

A foto de Maria Bethânia na capa de um álbum dos anos 1960 está sutilmente exposta no encarte do CD Meu relicário, de Jaime Alem, ao lado da letra de Elo partido (Jaime Alem e João Marcos Alem), música que pode ter a tradicional leitura romântica - soando como mais uma canção de coração partido - como bem pode ser a senha para entender o sentimento do maestro em relação à separação da cantora que regeu nos palcos e estúdios de 1988 ao fim dos anos 2000. "É puro consolo dizer que esqueci / Moravas bem junto daqui / Olhos não olham mais entre si / Olhos não olham mais... / É puro consolo dizer que jamais / Quando eu te sinto e já não estás / Tanto afeto assim negarás / Tanto te quero mais / Tanto mais", canta Alem com a voz pequena de quem nasceu com o dom de compor e orquestrar. O arranjo de Elo partido é assinado por Alem com o pianista João Carlos Coutinho, a propósito. Os demais foram criados somente pelo maestro com sensibilidade afinada com o tom de sua música delicada. Como já sugere o título do disco editado pela gravadora Biscoito Fino, Meu relicário é álbum confessional que guarda sons e sentimentos de um Brasil antigo, ocasionalmente caboclo. Sons e sentimentos são expostos com lirismo e certa nostalgia. "Meu relicário, uma caixinha de música com tudo que mais amo, as referências familiares, os lugares, os cheiros, os amigos, os amores, inquietações e alegrias. Estilo musical? Todos, o que couber, do interior do Brasil ao urbano", situa Além, genérico e generoso, no texto do encarte em que conceitua Meu relicário. Por mais que alardeie a diversidade rítmica do disco, Meu relicário se ambienta preferencialmente no interior. Não por acaso, o álbum abre no toque da doce viola de 12 cordas tocada pelo músico paulista na faixa-título, Meu relicário (Jaime Alem), obra-prima do repertório autoral, valorizada pelas cordas da Orquestra de Solistas do Rio de Janeiro e pela voz lírica de Nair Cândia, recorrente no CD. Aliás, os solos vocais de Cândia em Sua presença querida (Jaime Alem) e em Lua e vento (Provérbios da lua) (Jaime Alem) realçam o lirismo dessas canções afinadas com o espírito vintage de Meu relicário. É a voz da cantora - companheira de Alem na música e na vida - que também é ouvida no tema sem letra Guiguita (Jaime Alem). Há toda uma nostalgia de tempos idos entranhada no repertório de Meu relicário. Se o samba-canção Simplicidade (Jaime Alem) imagina em clima onírico a volta dos silêncios, dos poetas e dos gestos descuidados de um cotidiano menos robotizado, Bondeando (Jaime Alem e Sérgio Natureza) - um samba quase amaxixado, com jeito de interior e toque rural - traça a rota amorosa de um Rio de Janeiro movido a bondes, romantismo e ferrovias. Fora da fronteira carioca, mas ainda na trilha lírica pavimentada ao longo das 13 faixas do disco gravado e mixado por Lucas Ariel, Eu vim pra Minas Gerais (Jaime Alem) ecoa no vento a força dos sons do Clube da Esquina enquanto Na Estação da Luz (Jaime Alem) reverbera a influência soberana da música de Heitor Villa-Lobos (1887 - 1959). Cabe ainda no relicário de Alem uma (trivial) reverência a outro rei, Luiz Gonzaga (1912 - 1989), com pot-pourri que junta Baião (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, 1946) e Baião da Penha (David Nasser e Guio de Moraes, 1953). Quase no fim do disco, fãs de Maria Bethânia vão reconhecer na abertura do IV movimento da Suíte caboclinha (Jaime Alem) a introdução de Dona do dom (Chico César), música que abre o álbum Maricotinha (Biscoito Fino, 2001). É que, como reitera a Sonata agreste (Jaime Alem) no fecho de Meu relicário, Jaime Alem também é dono do dom de traduzir em música (e em arranjos) a alma de um Brasil caboclo que pulsa vivo na memória.

Jaime Alem disse...

Oi Mauro, adorei o seu texto. Apenas um adendo, o trecho contido na Suite Caboclinha atribuido a Chico Cezar, na verdade é um tema de minha autoria,"Dionísia", que abre o disco Maricotinha - Não se trata de composição do Chico embora esteja incluída na faixa de abertura do referido disco.
Valeu!!
Jaime Alem

Mauro Ferreira disse...

oi, Jaime, eu sabia que a música era sua. Mas acho que o texto deu a entender o contrário. Vou alterá-lo pra que não haja dúvidas. Abs, grato pelo toque e parabéns pelo disco. Mauro Ferreira

Marcelo Cabanas disse...

Belo texto para um belo disco!

Ana Griffo Coimbra disse...

Óptimo seu texto Mario Ferreira...adorei a visão, (que aliás já transmiti pessoalmente ao Maestro)...igualzinha, que tenho sobre "Elo Partido"!!! Francamente bom, parabéns!!! Ana Coimbra