Mauro Ferreira no G1

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segunda-feira, 22 de setembro de 2014

CD autoral 'Das coisas que surgem' empalidece o canto de Marcia Castro

Resenha de CD
Título: Das coisas que surgem
Artista: Marcia Castro
Gravadora: Edição independente da artista
Cotação: * *

Em abril de 2014, quando Lucas Santanna jogou na web a canção Partículas de amor, composta pelo artista baiano em parceria com o produtor paulistano Gui Amabis, houve um encantamento geral pela beleza melódica e poética dessa apaixonada canção lançada por Santtana em seu recente sexto álbum Sobre noites e dias (Diginois, 2014). Pois boa parte da beleza de Partículas de amor evapora no registro feito pela baiana Marcia Castro para seu terceiro álbum, Das coisas que surgem, lançado hoje - 22 de setembro de 2014 - nas plataformas digitais. Intérprete de personalidade forte que seduziu o universo pop indie com seu desafiador primeiro álbum, Pecadinho (Independente, 2007), Castro vem diluindo a força de seu canto a cada disco. Pecou por excesso de produção no segundo álbum, De pés no chão (Deck, 2012), e seguiu neste decepcionante Das coisas que surgem uma fórmula rala que empalideceu seu canto outrora tão expressivo e mordaz. Não dá para reconhecer a assinatura vocal de Marcia Castro nas onze músicas do disco. Tampouco dá para reconhecer nas letras geralmente inexpressivas das inéditas a força dos versos de arrudA, parceiro de Castro nas cinco inéditas autorais deste disco em que a cantora se apresenta como compositora. Os versos de baladas como a desiludida Beijos de ar (Marcia Castro e arrudA) e O amor tem dessas (Marcia Castro e arrudA), por exemplo, soam quase tão triviais quanto as músicas em si - o que causa até surpresa, já que a poesia do paulistano arrudA costuma voar mais alto, como já provaram discos como Asa (2014), belo álbum solo de Gustavo Galo. Dentro desse esmaecido painel poético, O que me move (Marcia Castro e arrudA) é o destaque absoluto com seus versos dialéticos ("O que me move / É o que me falta / O que não mais espanta / É o que me mata"). Mas o fato é que Das coisas que surgem patina em trilho pop que, não fosse a produção musical de Gui Amabis, jamais se desviaria do convencional mais banal. Mesmo assim, a assinatura de Amabis parece enfraquecida em arranjos feitos com o toque recorrente dos músicos Juninho Costa (guitarra), Régis Damasceno (baixo) e Samuel Fraga (bateria) e do próprio Amabis, responsável pelos teclados e programações. A impressão deixada pelo disco é que Castro quis fazer um disco com possibilidades comerciais, mas sem coragem para sair do mundinho indie no qual está imersa. Nesse sentido, parece que Gui Amabis quis (em vão) ser Michael Sullivan ao compor a balada Esculacho sobre amor extinto. Se o repertório resulta irregular, o canto de Castro soa sem vida e sem emoção. O que esvazia a interpretação de Três da madrugada (Torquato Neto e Carlos Pinto, 2013), feita sem o clima de tristeza nostálgica que permeia a música lançada por Gal Costa em compacto de 1973. Se não há a necessária melancolia em Três da madrugada, falta pegada ao inédito rock Mau caminho, parceria de Arnaldo Antunes com Alice Ruiz em que os poetas se queixam dos precipícios surgidos inevitavelmente na estrada da vida humana. Um clima roqueiro também ambienta Sem mistério (Marcia Castro e arrudA) sem diluir a apatia reinante em Das coisas que surgem. Já Um bom filme perde o foco dado por seu compositor, Gui Amabis, na gravação original feita pelo produtor para seu álbum Trabalhos carnívoros (YB Music, 2012). Já na primeira música, Atalhos (Marcia Castro e arrudA), de ritmo quase tão veloz quanto o ska que pauta a recriação do samba Na menina dos meus olhos (Monsueto e Flora Mattos, 2012) feita com a adesão da cantora Mayra Andrade, Das coisas que surgem mostra que Marcia Castro pegou a onda errada. Não somente porque parece ter fôlego curto como compositora, mas também - e principalmente - por ter diluído o que tem de melhor: a força irônica de seu canto.

7 comentários:

Mauro Ferreira disse...

Em abril de 2014, quando Lucas Santanna jogou na web a canção Partículas de amor, composta pelo artista baiano em parceria com o produtor paulista Gui Amabis, houve encantamento geral pela beleza melódica e poética dessa apaixonada canção lançada por Santtana em seu recente sexto álbum Sobre noites e dias (Diginois, 2014). Pois boa parte da beleza de Partículas de amor evapora no registro feito pela baiana Marcia Castro para seu terceiro álbum, Das coisas que surgem, lançado hoje - 22 de setembro de 2014 - nas plataformas digitais. Intérprete de personalidade forte que seduziu o universo pop indie com seu desafiador primeiro álbum, Pecadinho (Independente, 2007), Castro vem diluindo a força de seu canto a cada disco. Pecou por excesso de produção no segundo álbum, De pés no chão (Deck, 2012), e seguiu neste decepcionante Das coisas que surgem uma fórmula rala que empalideceu seu canto outrora tão expressivo e mordaz. Não dá para reconhecer a assinatura vocal de Castro nas onze músicas do disco. Tampouco dá para reconhecer nas letras geralmente inexpressivas das inéditas a força dos versos de arrudA, parceiro de Castro nas cinco inéditas autorais deste disco em que a cantora se apresenta como compositora. Os versos de baladas como a desiludida Beijos de ar (Marcia Castro e arrudA) e O amor tem dessas (Marcia Castro e arrudA), por exemplo, soam quase tão triviais quanto as músicas em si - o que causa até surpresa, já que a poesia do paulistano arrudA costuma voar mais alto, como já provaram discos como Asa (2014), belo álbum solo de Gustavo Galo. Dentro desse esmaecido painel poético, O que me move (Marcia Castro e arrudA) é o destaque absoluto com seus versos dialéticos ("O que me move / É o que me falta / O que não mais espanta / É o que me mata"). Mas o fato é que Das coisas que surgem patina em trilho pop que, não fosse a produção musical de Gui Amabis, jamais se desviaria do convencional mais banal. Mesmo assim, a assinatura de Amabis parece enfraquecida em arranjos feitos com o toque recorrente dos músicos Juninho Costa (guitarra), Régis Damasceno (baixo) e Samuel Fraga (bateria) e do próprio Amabis, responsável pelos teclados e programações. A impressão deixada pelo disco é que Castro quis fazer um disco com possibilidades comerciais, mas sem coragem para sair do mundinho indie no qual está imersa. Nesse sentido, parece que Gui Amabis quis (em vão) ser Michael Sullivan ao compor a balada Esculacho sobre amor extinto. Se o repertório resulta irregular, o canto de Castro soa sem vida e sem emoção. O que esvazia a interpretação de Três da madrugada (Torquato Neto e Carlos Pinto, 2013), feita sem o clima de tristeza nostálgica que permeia a música lançada por Gal Costa em compacto de 1973. Se não há a necessária melancolia em Três da madrugada, falta pegada ao inédito rock Mau caminho, parceria de Arnaldo Antunes com Alice Ruiz em que os poetas se queixam dos precipícios surgidos inevitavelmente na estrada da vida humana. Um clima roqueiro também ambienta Sem mistério (Marcia Castro e arrudA) sem diluir a apatia reinante em Das coisas que surgem. Já Um bom filme perde o foco dado por seu compositor, Gui Amabis, na gravação original feita pelo produtor para seu álbum Trabalhos carnívoros (YB Music, 2012). Já na primeira música, Atalhos (Marcia Castro e arrudA), de ritmo quase tão veloz quanto o ska que pauta a recriação do samba Na menina dos meus olhos (Monsueto e Flora Mattos, 2012) feita com a adesão da cantora Mayra Andrade, Das coisas que surgem mostra que Marcia Castro pegou a onda errada. Não somente porque parece ter fôlego curto como compositora, mas também - e principalmente - por ter diluído o que tem de melhor: a força irônica de seu canto.

Fabio disse...

Eita! Não foi dessa vez. Com essa resenha não tem como comprar esse CD.

Douglas Carvalho disse...

Não ouvi, mas gosto de ouvir qualquer disco pra ver se concordo ou não com opinião de críticos. O CD da Paula Lima mesmo eu achei legal.

Masss... na boa, Mauro, da nova geração de compositora a única que é nota 10 sempre chama-se TERESA CRISTINA, as outras todas fazem 1 música boa e 10 meia boca. Pode colocar aí nesse balaio Karina Buhr, Tiê, Tulipa Ruiz, etc etc etc

Homem no Armario disse...

Acabo de ouvir o disco... delicia, que quiser que siga o critico, tem um pé na cafonice! serve apenas como bom guia de cds...

Ítalo Richard disse...

Nunca havia dado a devida atenção a Márcia Castro, mas dessa vez ouvi todo seu disco, sem consultar os críticos de plantão, e me apaixonei.

flávio rosa disse...

Discaço da Marcia. Resenha infeliz do jornalista.

Southern Man disse...

rapaz, com o lixo musical que nos é entregue pelos meios de comunicação esse disco é um alento... se vc não busca uma revolução musical esse é um bom disco sim