Mauro Ferreira no G1

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domingo, 22 de junho de 2014

Com teatralidade, Ferriani preserva em cena sedução de seu CD autoral

Resenha de show
Título: Porque a boca fala aquilo do que o coração tá cheio
Artista: Verônica Ferriani (em foto de Rodrigo Goffredo)
Local: Teatro Oi Futuro Ipanema (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 20 de junho de 2014
Cotação: * * * *

Verônica Ferriani consegue manter em cena o poder de sedução de seu primeiro disco autoral, Porque a boca fala aquilo do que o coração tá cheio (Independente, 2013), álbum verborrágico, quente, que deu enfim um sentido à (até então dispersa) carreira fonográfica dessa boa cantora que, contrariando baixas expectativas, se revelou contundente compositora no ano passado. Com a intensidade do CD produzido por Gustavo Ruiz e Marcelo Cabral (baixista da banda que divide a cena com Ferriani), o show Porque a boca fala aquilo do que o coração tá cheio chegou ao Rio de Janeiro (RJ) em 20 de junho de 2014 dentro da antenada programação da terceira edição da Levada Oi Futuro, projeto destinado a propagar vozes emergentes na cena musical brasileira. No palco do teatro do Oi Futuro Ipanema, Ferriani criou atmosfera de teatralidade que se harmonizou com o tom envenenado dos arranjos executados pela banda na qual sobressaíram as guitarras de Allen Alencar e Rodrigo Campos. Embora extrapole ritmos e rótulos, o cancioneiro de Ferriani por vezes é envolto em cena em clima roqueiro pela proeminência das guitarras nos arranjos, como pôde ser visto em Zepelins (Verônica Ferriani, 2013), uma das músicas mais bonitas do disco. Aos dez anos de carreira, Ferriani é uma cantora de verdade que, se preciso, escala notas altas, como as que atinge em Estampa e só (Verônica Ferriani, 2013), outro destaque de cancioneiro composto entre 2011 e 2012 de forma aparentemente intuitiva, sem fórmulas. Estampa e só abre e fecha o show (no bis), evidenciando a fina costura do roteiro, que aloca de início as músicas mais incendiárias, como Era preciso saber (Verônica Ferriani, 2013), abrindo espaço no meio para set de baladas levadas por Ferriani ao violão - bloco que evidencia a beleza melódica da canção À segunda vista (Verônica Ferriani, 2013) - e retomando a temperatura calorosa no fim, com músicas como Boca cheia (Verônica Ferriani, 2013), cuja letra contém o verso-título do disco e show Porque a boca fala aquilo do que o coração tá cheio. Mesmo que o cancioneiro autoral de Ferriani recuse métricas e rótulos pré-definidos, dá para identificar toque mouro em Esvaziou (Verônica Ferriani, 2013) - assim como é possível perceber que Ele não volta mais (Verônica Ferriani, 2013) por vezes cai no (trans)samba em sintonia com o tom contemporâneo dos arranjos. Orquestrado sob a direção musical de Marcelo Cabral, o show jamais sai dessa linha contemporânea, mesmo quando extrapola o repertório do disco que o originou. Em cena, a boca cheia de Ferriani embute Um sorriso nos lábios (1972) - samba de Gonzaguinha (1945 - 1991) gravado pela cantora em seu primeiro titubeante álbum, lançado em 2009 - e dá sua voz a uma bela parceria de Romulo Fróes, Clima e Nuno Ramos, Varre e sai, lançada por Fróes em 2011. Ainda fora da seara autoral, Ferriani também dá voz a uma das mais inspiradas músicas do compositor e guitarrista paulistano Rodrigo Campos, Ribeirão, lançada no último álbum de Campos, Bahia fantástica (Núcleo Contemporâneo, 2012). Da lavra própria, a cantora ainda apresenta no violão boa canção inédita, Metamorfose, que sinaliza que outros interessantes discos autorais poderão vir no futuro. Em cena, com seu porte esguio, Verônica valoriza todo esse repertório, com gestos e tons eventualmente teatrais. A cantora se ajoelhou no palco do teatro do Oi Futuro Ipanema para cantar C'est la vie (Verônica Ferriani, 2013) e, no bis, desceu desse palco para entoar - ao canto, na escada que conduz à plateia - Lábia palavra (Verônica Ferriani, 2013) como se fosse cantadora nordestina. Com moral como compositora, Verônica Ferriani fala aquilo que merece ser ouvido por corações (já) cheios da mesmice pop.

4 comentários:

Mauro Ferreira disse...

Verônica Ferriani consegue manter em cena o poder de sedução de seu primeiro disco autoral, Porque a boca fala aquilo do que o coração tá cheio (Independente, 2013), álbum verborrágico, quente, que deu enfim um sentido à (até então dispersa) carreira fonográfica dessa boa cantora que, contrariando baixas expectativas, se revelou contundente compositora no ano passado. Com a intensidade do CD produzido por Gustavo Ruiz e Marcelo Cabral (baixista da banda que divide a cena com Ferriani), o show Porque a boca fala aquilo do que o coração tá cheio chegou ao Rio de Janeiro (RJ) em 20 de junho de 2014 dentro da antenada programação da terceira edição da Levada Oi Futuro, projeto destinado a propagar vozes emergentes na cena musical brasileira. No palco do teatro do Oi Futuro Ipanema, Ferriani criou atmosfera de teatralidade que se harmonizou com o tom envenenado dos arranjos executados pela banda na qual sobressaíram as guitarras de Allen Alencar e Rodrigo Campos. Embora extrapole ritmos e rótulos, o cancioneiro de Ferriani por vezes é envolto em cena em clima roqueiro pela proeminência das guitarras nos arranjos, como pôde ser visto em Zepelins (Verônica Ferriani, 2013), uma das músicas mais bonitas do disco. Aos dez anos de carreira, Ferriani é uma cantora de verdade que, se preciso, escala notas altas, como as que atinge em Estampa e só (Verônica Ferriani, 2013), outro destaque de cancioneiro composto entre 2011 e 2012 de forma aparentemente intuitiva, sem fórmulas. Estampa e só abre e fecha o show (no bis), evidenciando a fina costura do roteiro, que aloca de início as músicas mais incendiárias, como Era preciso saber (Verônica Ferriani, 2013), abrindo espaço no meio para set de baladas levadas por Ferriani ao violão - bloco que evidencia a beleza melódica da canção À segunda vista (Verônica Ferriani, 2013) - e retomando a temperatura calorosa no fim, com músicas como Boca cheia (Verônica Ferriani, 2013), cuja letra contém o verso-título do disco e show Porque a boca fala aquilo do que o coração tá cheio. Mesmo que o cancioneiro autoral de Ferriani recuse métricas e rótulos pré-definidos, dá para identificar toque mouro em Esvaziou (Verônica Ferriani, 2013) - assim como é possível perceber que Ele não volta mais (Verônica Ferriani, 2013) por vezes cai no (trans)samba em sintonia com o tom contemporâneo dos arranjos. Orquestrado sob a direção musical de Marcelo Cabral, o show jamais sai dessa linha contemporânea, mesmo quando extrapola o repertório do disco que o originou. Em cena, a boca cheia de Ferriani embute Um sorriso nos lábios (1972) - samba de Gonzaguinha (1945 - 1991) gravado pela cantora em seu primeiro titubeante álbum, lançado em 2009 - e apresenta bela inédita de Romulo Fróes, Clima e Nuno Ramos, Varre e sai, que merece registro urgente. Ainda fora da seara autoral, Ferriani também dá voz a uma das mais inspiradas músicas do compositor e guitarrista paulistano Rodrigo Campos, Ribeirão, lançada no último álbum de Campos, Bahia fantástica (Núcleo Contemporâneo, 2012). Da lavra própria, a cantora ainda apresenta no violão boa canção inédita, Metamorfose, que sinaliza que outros interessantes discos autorais poderão vir no futuro. Em cena, com seu porte esguio, Verônica valoriza todo esse repertório, com gestos e tons eventualmente teatrais. A cantora se ajoelhou no palco do teatro do Oi Futuro Ipanema para cantar C'est la vie (Verônica Ferriani, 2013) e, no bis, desceu desse palco para entoar - ao canto, na escada que conduz à plateia - Lábia palavra (Verônica Ferriani, 2013) como se fosse cantadora nordestina. Com moral como compositora, Verônica Ferriani fala aquilo que merece ser ouvido por corações (já) cheios da mesmice pop.

Felipe Candido disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Felipe Candido disse...

Olá Mauro! Vale lembrar que a canção "Varre e sai" do Rômulo Fróes já foi registrada pelo próprio autor no disco "Um labirinto em cada pé", de 2011.

Flavio disse...

Verônica é excelente cantora, uma grande artista, supertalentosa, e eu já achava isso antes de conhecer o lado compositora dela. Agora, como se ainda precisasse, está mais que completa!