Mauro Ferreira no G1

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domingo, 26 de outubro de 2014

Magro registra e comenta em livro as vozes que deram relevância ao MPB-4

Resenha de livro
Título: Vozes do Magro MPB-4
Autor: Magor Waghabi
Editora: Bateia Cultura
Cotação: * * * *

Antônio José Waghabi Filho (14 de novembro de 1943 - 8 de agosto de 2012), o Magro, foi o responsável pela criação e sedimentação da identidade vocal do MPB-4. Desde 1963, ano em que se integrou ao então trio fluminense criado em 1962 em Niterói (RJ) ainda sem o nome MPB-4 (dado ao quarteto somente em 1964), Magro assumiu a segunda voz do quarteto e a função de harmonizar a sua voz com as vozes de Aquiles Reis, Miltinho e Ruy Faria (dissidente do grupo desde 2004). Em Vozes do Magro MPB-4, livro fundamental para quem se interessa por arranjos vocais, o artista registra e comenta de forma analítica as vozes que harmonizou para o MPB-4 nos 15 primeiros álbuns do grupo. O registro formal desse trabalho aparece ao fim do livro através da reprodução das partituras com os arranjos vocais de 17 gravações marcantes feitas pelo quarteto no período que abrange o álbum de estreia MPB-4 (Elenco, 1966) até o último LP, Vira virou (Ariola, 1980), abordado no livro. Álbum, aliás, pautado pela renovação no som e nas vozes da discografia do MPB-4, apontando os caminhos que seriam seguidos nos anos 1980. Os comentários das faixas de cada um dos 15 álbuns são intercalados no livro com causos e com depoimentos de artistas - Cynara (do Quarteto em Cy), Guinga, Leny Andrade, Oscar Castro Neves (1940 - 2013), Roberto Menescal, Sérgio Ricardo e Zé Renato, entre outros nomes - que tiveram suas trajetórias profissionais intercaladas com a de Magro em algum momento de suas carreiras. Guinga, por exemplo, foi lançado como compositor há 40 anos pelo MPB-4, que gravou duas músicas de sua então nascente parceria com Paulo César Pinheiro, Conversa com o coração e Maldição de Ravel, ambas no álbum Palhaços e reis (Philips, 1974). Além de ratificar a importância de Magro Waghabi, nome sempre bem quisto no meio musical pelo temperamento afável, a leitura de Vozes do Magro deixa entrever a importância da discografia do MPB-4 na segunda metade dos anos 1960 e ao longo de toda da década de 1970. No álbum Canto dos homens (Philips, 1976), por exemplo, o grupo lançou músicas de Gonzaguinha (1945 - 1991) e da dupla Milton Nascimento e Fernando Brant (Chão, pó, poeira e Moreno, respectivamente, sendo que a música de Gonzaguinha, presente do compositor para o grupo, também foi registrada pelo autor no mesmo ano de 1976). Sem tom didático, mas com informações curiosas sobre a combinação das vozes, as análises faixa-a-faixa de Magro são sedutoras porque o artista exerceu seu senso crítico na feitura dos comentários. Reconheceu seus inúmeros acertos no ofício de arranjador  do grupo - como na gravação de Morena dos olhos d'água (Chico Buarque, 1966), feita para o álbum MPB-4 (Elenco, 1967) - mas também atribuiu adjetivos negativos a arranjos que acreditava terem sido infelizes. Magro considerava, por exemplo, "esquisitas" as vocalizações da gravação de Cravo e canela (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1971) feita pelo MPB-4 para o disco De palavra em palavra (Philips, 1971). Tais considerações foram ditadas pelo artista para sua mulher, Mônica Thiele Waghabi, no leito do hospital em que lutava contra o câncer que o fez sair de cena aos 68 anos. Na apresentação, Mônica - responsável por concluir o projeto do livro - afirma que Vozes do Magro é presente para o artista. Na realidade, esse presente se estende a todo leitor que tenha interesse pela história da MPB. Pois parte expressiva dessa história passa pela voz e pela mente criativa de Magro no ofício de arranjador de um grupo que lançou músicas importantes como Bilhete (Ivan Lins e Vitor Martins, 1980) e Angélica (Chico Buarque, 1978), apresentada pela primeira vez no show multimídia Cobra de vidro (1978), feito com o Quarteto em Cy (que teve a primazia de lançar Angélica em disco ainda naquele ano de 1978). Grupo que fez a própria história ao dar vozes a repertório que concentra o melhor da MPB da época - e também de épocas que o precederam, como mostram os repertórios dos dois volumes do projeto Antologia MPB-4 (Philips, 1974 e 1977) - com inspiração vocal e consciência social. As vozes do Magro sempre ecoam na música brasileira.

5 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Antônio José Waghabi Filho (14 de novembro de 1943 - 8 de agosto de 2012), o Magro, foi o responsável pela criação e sedimentação da identidade vocal do MPB-4. Desde 1963, ano em que se integrou ao então trio fluminense criado em 1962 em Niterói (RJ) ainda sem o nome MPB-4 (dado ao quarteto somente em 1964), Magro assumiu a segunda voz do quarteto e a função de harmonizar a sua voz com as vozes de Aquiles Reis, Miltinho e Ruy Faria (dissidente do grupo desde 2004). Em Vozes do Magro MPB-4, livro fundamental para quem se interessa por arranjos vocais, o artista registra e comenta de forma analítica as vozes que harmonizou para o MPB-4 nos 15 primeiros álbuns do grupo. O registro formal desse trabalho aparece ao fim do livro através da reprodução das partituras com os arranjos vocais de 17 gravações marcantes feitas pelo quarteto no período que abrange o álbum de estreia MPB-4 (Elenco, 1966) até o último LP, Vira virou (Ariola, 1980), abordado no livro. Álbum, aliás, pautado pela renovação no som e nas vozes da discografia do MPB-4, apontando os caminhos que seriam seguidos nos anos 1980. Os comentários das faixas de cada um dos 15 álbuns são intercalados no livro com causos e com depoimentos de artistas - Cynara (do Quarteto em Cy), Guinga, Leny Andrade, Oscar Castro Neves (1940 - 2013), Roberto Menescal, Sérgio Ricardo e Zé Renato, entre outros nomes - que tiveram suas trajetórias profissionais intercaladas com a de Magro em algum momento de suas carreiras. Guinga, por exemplo, foi lançado como compositor há 40 anos pelo MPB-4, que gravou duas músicas de sua então nascente parceria com Paulo César Pinheiro, Conversa com o coração e Maldição de Ravel, ambas no álbum Palhaços e reis (Philips, 1974). Além de ratificar a importância de Magro Waghabi, nome sempre bem quisto no meio musical pelo temperamento afável, a leitura de Vozes do Magro deixa entrever a importância da discografia do MPB-4 na segunda metade dos anos 1960 e ao longo de toda da década de 1970. No álbum Canto dos homens (Philips, 1976), por exemplo, o grupo lançou músicas de Gonzaguinha (1945 - 1991) e da dupla Milton Nascimento e Fernando Brant (Chão, pó, poeira e Moreno, respectivamente, sendo que a música de Gonzaguinha, presente do compositor para o grupo, também foi registrada pelo autor no mesmo ano de 1976).

Mauro Ferreira disse...

Sem tom didático, mas com informações curiosas sobre a combinação das vozes, as análises faixa-a-faixa de Magro são sedutoras porque o artista exerceu seu senso crítico na feitura dos comentários. Reconheceu seus inúmeros acertos no ofício de arranjador do grupo - como na gravação de Morena dos olhos d'água (Chico Buarque, 1966), feita para o álbum MPB-4 (Elenco, 1967) - mas também atribuiu adjetivos negativos a arranjos que acreditava terem sido infelizes. Magro considerava, por exemplo, "esquisitas" as vocalizações da gravação de Cravo e canela (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1971) feita pelo MPB-4 para o disco De palavra em palavra (Philips, 1971). Tais considerações foram ditadas pelo artista para sua mulher, Mônica Thiele Waghabi, no leito do hospital em que lutava contra o câncer que o fez sair de cena aos 68 anos. Na apresentação, Mônica - responsável por concluir o projeto do livro - afirma que Vozes do Magro é presente para o artista. Na realidade, esse presente se estende a todo leitor que tenha interesse pela história da MPB. Pois parte expressiva dessa história passa pela voz e pela mente criativa de Magro no ofício de arranjador de um grupo que lançou músicas importantes como Bilhete (Ivan Lins e Vitor Martins, 1980) e Angélica (Chico Buarque, 1978), apresentada pela primeira vez no show multimídia Cobra de vidro (1978), feito com o Quarteto em Cy (que teve a primazia de lançar Angélica em disco ainda naquele ano de 1978). Um grupo que fez sua própria história ao dar vozes a um repertório que concentra o melhor da MPB de sua época - e também de épocas que o precederam, como mostram os repertórios dos dois volumes do projeto Antologia MPB-4 (Philips, 1974 e 1977) - com inspiração vocal e com consciência social. As vozes do Magro ecoam na música brasileira.

Osmar disse...

Só fã de grupos vocais e o MPB4 é um dos meus favoritos (já estou com ingresso para ve-los amanhã no Teatro Sesc Ginastico - RJ). Sem dúvida, muito do que representa o MPB4 para a musica brasileira se deve aos brilhantes arranjos vocais criados por Magro para o grupo. Estou ansioso para comprar logo o livro. E acho que as gravadoras por onde passou o MPB4 (em especial a que detem o acervo da Philips) poderiam aproveitar a oportunidade para relançar ou simplesmente lançar pela primeira vez em CD as obras primas gravadas pelo grupo nos anos 60 e principalmente nos anos 70.

Mauro Silva disse...

Faço das suas as minhas palavras Osmar, é um sonho ver os discos do MPB-4 remasterizados em CD.

GAY disse...

Seria/será uma caixa precisa....