Mauro Ferreira no G1

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sábado, 25 de outubro de 2014

Disco póstumo de inéditas 'Ele vive' pouco acrescenta à obra de Taiguara

Resenha de CD
Título: Ele vive
Artista: Taiguara
Gravadora: Kuarup
Cotação: * * 

 Revirar o baú de cantores e compositores que já saíram de cena é tarefa a que a indústria fonográfica mundial se dedica com afinco. Exumações de obras geram discos póstumos que, em geral, pouco ou nada acrescentam às discografias dos artistas vítimas dessa exploração comercial. Ele vive - CD póstumo de inéditas do cantor e compositor Taiguara Chalar da Silva (9 de outubro de 1945 - 14 de fevereiro de 1996) - não veio ao mundo neste mês de outubro de 2014 por ganância. Fora do esquema predador que move a indústria do disco e da saudade, a gravadora Kuarup fez no disco Ele vive - sob a direção musical do produtor Pedro Baldanza - um trabalho de expansão da obra e da memória deste guerrilheiro urbano da canção, artista de origem uruguaia e criação brasileira. Infelizmente, a qualidade do repertório não faz jus ao legado de Taiguara. O que se ouve entre as onze inéditas - apresentadas ao público através de restauração de registros caseiros encontrados em fitas cassetes - são músicas com melodias fracas, compostas em épocas distintas e finalizadas para o disco com o acréscimo de bases instrumentais às vozes do cantor. Mesmo que a ideologia firme do artista pulse com força em letras como a de Conflito (Sexo escravo), libelo contra a exploração sexual da mulher, a fraqueza das melodias dilui o vigor dos versos. Não é por acaso que Manhã na Candelária - canção de cunho político - foi feita para Beth Carvalho, mas jamais foi gravada pela cantora carioca (rigorosa na seleção do repertório de seus discos). "Ninguém quer mais sambar para miséria aumentar e para sustentar bandido", dispara Taiguara em verso de Guerra pra defender, samba pouco empolgante. Entre músicas censuradas e esquecidas pelo próprio Taiguara, caso de Alba Esperanza (1974), duas ostentam centelhas da luz que iluminou um dos cancioneiros mais engajados da MPB surgida nos anos 1960. Trata-se de Moça da noite - tema no qual volta a bater na tecla da exploração da mulher em sociedade machista em gravação que parece inacabada (a faixa termina em fade out) - e de Ele vive. A propósito, a música-título Ele vive foi composta em tributo ao líder socialista Luiz Carlos Prestes (1898 - 1990), outra amostra de como Taiguara usava sua música valente na luta contra a opressão social e política. Única das onze inéditas do disco composta em parceria (no caso, com versos do poeta Sergio Napp), Te quero - canção composta para a atriz, cantora e cineasta Vanja Orico, amiga de Taigura - embaralha amor e política em versos apaixonados como "Te quero porque me ensinas justiça e liberdade".  As quatro inéditas restantes - Sou negro, Tomou rebeldia (samba de formato bem convencional), O catador de milho e Sou Samora Potiguara - corroboram a sensação de que o valor do CD Ele vive é meramente documental. Impressão reforçada pela audição das quatro músicas-bônus, captadas ao vivo em show do artista no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro (RJ). Entre sucessos como Hoje (1969) e Universo no teu corpo (1970), ouve-se Taiguara dar voz a Outubro (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967), música sintonizada com o espírito politizado de Taiguara, guerrilheiro da canção que tirou do lamento um novo canto, contando sua história até sair de cena, aos 50 anos. Embora este CD póstumo pouco faça para a preservação de sua memória musical, Taiguara Chalar da Silva vive.

4 comentários:

Mauro Ferreira disse...

* Revirar o baú de cantores e compositores que já saíram de cena é tarefa a que a indústria fonográfica mundial se dedica com afinco. Exumações de obras geram discos póstumos que, em geral, pouco ou nada acrescentam às discografias dos artistas vítimas de exploração comercial. Ele vive - CD póstumo de inéditas do cantor e compositor Taiguara Chalar da Silva (9 de outubro de 1945 - 14 de fevereiro de 1996) - não veio ao mundo neste mês de outubro de 2014 por ganância. Fora do esquema predador que move a indústria do disco e da saudade, a gravadora Kuarup fez no disco Ele vive - sob a direção musical do produtor Pedro Baldanza - um trabalho de expansão da obra e da memória deste guerrilheiro urbano da canção, artista de origem uruguaia e criação brasileira. Infelizmente, a qualidade do repertório não faz jus ao legado de Taiguara. O que se ouve entre as onze inéditas - apresentadas ao público através de restauração de registros caseiros encontrados em fitas cassetes - são músicas com melodias fracas, compostas em épocas distintas e finalizadas para o disco com o acréscimo de bases instrumentais às vozes do cantor. Mesmo que a ideologia firme do artista pulse com força em letras como a de Conflito (Sexo escravo), libelo contra a exploração sexual da mulher, a fraqueza das melodias dilui o vigor dos versos. Não é por acaso que Manhã na Candelária - canção de cunho político - foi feita para Beth Carvalho, mas jamais foi gravada pela cantora carioca (rigorosa na seleção do repertório de seus discos). "Ninguém quer mais sambar para miséria aumentar e para sustentar bandido", dispara Taiguara em verso de Guerra pra defender, samba pouco empolgante. Entre músicas censuradas e esquecidas pelo próprio Taiguara, caso de Alba Esperanza (1974), duas ostentam centelhas da luz que iluminou um dos cancioneiros mais engajados da MPB surgida nos anos 1960. Trata-se de Moça da noite - tema no qual volta a bater na tecla da exploração da mulher em sociedade machista em gravação que parece inacabada (a faixa termina em fade out) - e de Ele vive. A propósito, a música-título Ele vive foi composta em tributo ao líder socialista Luiz Carlos Prestes (1898 - 1990), outra amostra de como Taiguara usava sua música valente na luta contra a opressão social e política. Única das onze inéditas do disco composta em parceria (no caso, com versos do poeta Sergio Napp), Te quero - canção composta para a atriz, cantora e cineasta Vanja Orico, amiga de Taigura - embaralha amor e política em versos apaixonados como "Te quero porque me ensinas justiça e liberdade". As quatro inéditas restantes - Sou negro, Tomou rebeldia (samba de formato bem convencional), O catador de milho e Sou Samora Potiguara - corroboram a sensação de que o valor do CD Ele vive é meramente documental. Impressão reforçada pela audição das quatro músicas-bônus, captadas ao vivo em show do artista no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro (RJ). Entre sucessos como Hoje (1969) e Universo no teu corpo (1970), ouve-se Taiguara dar voz a Outubro (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967), música sintonizada com o espírito politizado de Taiguara, guerrilheiro da canção que tirou do lamento um novo canto, contando sua história até sair de cena, aos 50 anos. Embora este CD póstumo pouco faça para a preservação de sua memória musical, Taiguara Chalar da Silva vive.

Tombom disse...

Pode ser que não faça jus ao legado de Taiguar... mas este CD póstumo me emocionou como fã do timbre único, do piano melodioso e do repertório do criador de "Hoje" — e me agradou também como apreciador de boa Música. Ele vive!

Clayton Moreira disse...

Exemplos de discos póstumos relevantes são "Sem Jacob, Com Jacob", com gravações caseiras de Jacob do Bandolim, e "Luiz Gonzaga Volta Pra Curtir", com a gravação de um show de Gonzagão nos anos 70. Ambos lançamentos de 2001, jogaram novas luzes sobre o trabalho dos dois artistas. O disco do Rei do Baião foi inclusive um sucesso de vendas.

Jocimar disse...

Mauro
Você não é um Taiguariano.
Se o fosse não diria que representa pouco.
Lamentável.
O respeito, mas sinto pena de você.
Em verdade voce não sabe e não alcança Taiguara.
Abraços bons e taiguarianos, claro!