Mauro Ferreira no G1

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sábado, 15 de março de 2014

De volta ao samba, Mart'nália atinge seu público com tons de 'aquarela'

Resenha de show
Título: Samba! (Ensaio aberto)
Artista: Mart'nália (em foto de Rodrigo Amaral)
Local: Teatro Rival (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 14 de março de 2014
Cotação: * * * 

Em 2012, guiada por Djavan, Mart'nália foi para o pop - sem cuíca, pandeiro ou tamborim - e gravou excelente álbum produzido pelo artista alagoano, com o sintomático título Não tente compreender. O público conquistado pela artista carioca com sambas como Cabide (Ana Carolina, 2006) e Ela é a minha cara (Celso Fonseca e Ronaldo Bastos, 2008) nem tentou compreender e ignorou o disco. Mas eis que Mart'nália volta a pôr o pé no seu samba e no alheio, com pandeiro e tamborim, em show idealizado com seu pai Martinho da Vila. Apresentado esta semana no Rio de Janeiro (RJ), em ensaios abertos feitos no popular Teatro Rival, Samba! - show que vai dar origem ao próximo CD e DVD de Mart'nália - cumpre o objetivo de sintonizar novamente a cantora e compositora carioca com os anseios de seu público. Calcado em sucessos do samba, o roteiro evidencia a menor ambição artística do projeto. Só que Mart'nália dribla a previsibilidade do repertório e dos arranjos com seu carisma e sua espontaneidade. "Atingiu?", perguntou diversas vezes a cantora ao público que encheu o Teatro Rival na noite de 14 de março de 2014 para assistir ao seu ensaio aberto. Sim, atingiu. O ensaio resultou azeitado, como se fosse um show pronto para cair na estrada. Até porque as hesitações e falas espontâneas de Mart'nália sempre fizeram parte do show de uma cantora que nunca faz gênero ou tipo em cena. Por isso, a insegurança da cantora com a letra (lida) de Samba a dois (Marcelo Camelo, 2003) - música do repertório do ora desativado grupo carioca Los Hermanos - pareceu tão natural. Mesmo que o roteiro seja uma espécie de aquarela brasileira, quase nos moldes do projeto que elevou a cotação do cantor carioca Emílio Santiago (1946 - 2013) no mercado fonográfico a partir de 1988, Mart'nália imprime seus próprios tons ao dar voz desencanada a sambas de bambas como Adoniran Barbosa (1910 - 2012), Chico Buarque, Dedé da Portela (1939 - 2003), Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra (1944 - 1998), Martinho da Vila, Noel Rosa (1910 - 1937) e Paulo Vanzolini (1924 - 2013), entre outros compositores. A malícia moleca que habita a interpretação de Casa um da vila (Monsueto Menezes e Flora Mattos, 1973) exemplifica a personalidade artística de Mart'nália em roteiro que, volta e meia, soa como sedutora celebração da mulher. Fora do universo dos clássicos, o roteiro surpreende com Carol ou Clarisse (Rodrigo Lampreia e Beto Landau, 2012), samba gravado pelo duo Benditos, formado pelos compositores do tema mais recente do roteiro. Antes de cair na obviedade com a lembrança de Saigon (Cláudio Cartier, Carlão e Paulo César Feital, 1985), a sintomática homenagem a Emílio Santiago também foi surpreendente por repor em cena uma deliciosa parceria do baiano Carlinhos Brown com o acreano João Donato, Um dia desses (2007), samba banhado na baianidade de Brown e na latinidade que caracteriza a obra suingante de Donato. Enfim, Mart'nália está de volta ao samba. Apure o tamborim, pois, mesmo que temporariamente abra mão de sua salutar inquietude artística, Mart'nália é bamba e, cantando samba, está literalmente em casa. Por isso, sim, o ensaio aberto atingiu.

2 comentários:

Mauro Ferreira disse...

Em 2012, guiada por Djavan, Mart'nália foi para o pop - sem cuíca, pandeiro ou tamborim - e gravou excelente álbum produzido pelo artista alagoano, com o sintomático título Não tente compreender. O público conquistado pela artista carioca com sambas como Cabide (Ana Carolina, 2006) e Ela é a minha cara (Celso Fonseca e Ronaldo Bastos, 2008) nem tentou compreender e ignorou o disco. Mas eis que Mart'nália volta a pôr o pé no seu samba e no alheio, com pandeiro e tamborim, em show idealizado com seu pai Martinho da Vila. Apresentado esta semana no Rio de Janeiro (RJ), em ensaios abertos feitos no popular Teatro Rival, Samba! - show que vai dar origem ao próximo CD e DVD de Mart'nália - cumpre o objetivo de sintonizar novamente a cantora e compositora carioca com os anseios de seu público. Calcado em sucessos do samba, o roteiro evidencia a menor ambição artística do projeto. Só que Mart'nália dribla a previsibilidade do repertório e dos arranjos com seu carisma e sua espontaneidade. "Atingiu?", perguntou diversas vezes a cantora ao público que encheu o Teatro Rival na noite de 14 de março de 2014 para assistir ao seu ensaio aberto. Sim, atingiu. O ensaio resultou azeitado, como se fosse um show pronto para cair na estrada. Até porque as hesitações e falas espontâneas de Mart'nália sempre fizeram parte do show de uma cantora que nunca faz gênero ou tipo em cena. Por isso, a insegurança da cantora com a letra (lida) de Samba a dois (Marcelo Camelo, 2003) - música do repertório do ora desativado grupo carioca Los Hermanos - pareceu tão natural. Mesmo que o roteiro seja uma espécie de aquarela brasileira, quase nos moldes do projeto que elevou a cotação do cantor carioca Emílio Santiago (1946 - 2013) no mercado fonográfico a partir de 1988, Mart'nália imprime seus próprios tons ao dar voz desencanada a sambas de bambas como Adoniran Barbosa (1910 - 2012), Chico Buarque, Dedé da Portela (1939 - 2003), Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra (1944 - 1998), Martinho da Vila, Noel Rosa (1910 - 1937) e Paulo Vanzolini (1924 - 2013), entre outros compositores. A malícia moleca que habita a interpretação de Casa um da vila (Monsueto Menezes e Flora Mattos, 1973) exemplifica a personalidade artística de Mart'nália em roteiro que, volta e meia, soa como sedutora celebração da mulher. Fora do universo dos clássicos, o roteiro surpreende com Carol ou Clarisse (Rodrigo Lampreia e Beto Landau, 2012), samba gravado pelo duo Benditos, formado pelos compositores do tema mais recente do roteiro. Antes de cair na obviedade com a lembrança de Saigon (Cláudio Cartier, Carlão e Paulo César Feital, 1988), a sintomática homenagem a Emílio Santiago também foi surpreendente por repor em cena uma deliciosa parceria do baiano Carlinhos Brown com o acreano João Donato, Um dia desses (2007), samba banhado na baianidade de Brown e na latinidade que caracteriza a obra suingante de Donato. Enfim, Mart'nália está de volta ao samba. Apure o tamborim, pois, mesmo que temporariamente abra mão de sua salutar inquietude artística, Mart'nália é bamba e, cantando samba, está literalmente em casa. Por isso, sim, o ensaio aberto atingiu.

Monica Meirino disse...

Só não concordo com "o público ignorou o disco" amo o álbum "Não Tente Compreender" ouço todos os dias para amenizar esse trânsito louco.