Mauro Ferreira no G1

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segunda-feira, 24 de março de 2014

Mariene abre outro caminho no show 'Colheita' sem anular a força da raiz afro

Resenha de show
Título: Colheita
Artista: Mariene de Castro (em foto de Rodrigo Goffredo)
Local: Vivo Rio (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 22 de março de 2014
Cotação: * * * *

♪ Mariene de Castro continua na roda, eventualmente até com prato e faca, como no momento em que dá sua voz calorosa a um pot-pourri de tradicionais sambas da sua terra. Herança de shows anteriores da artista baiana, o número com sambas de roda figura no roteiro do atual espetáculo da cantora - Colheita, fruto do homônimo disco lançado em fevereiro de 2014 - como uma lembrança de que Mariene de Castro ainda continua sendo Mariene de Castro após se abrigar sob a luz de Clara Nunes (1942 - 1983) em tributo que ampliou seu público na mesma medida que lhe rendeu críticas dos que ouviram e viram no CD e DVD Um ser de luz (2013) mero cover da mineira guerreira. Contudo, Colheita expõe em cena o sincretismo musical semeado pelo quinto disco de Mariene, conciliando o canto de forte carga-brasileira da fase inicial da artista - que deu seus primeiros passos fonográficos há dez anos com a edição do CD Abre caminho (2004) - com as tonalidades mais suaves e românticas do álbum recém-editado. Os três figurinos deixam entrever sensualidade sutil na atual estampa da intérprete. O cenário colorido de Gringo Cardia - com panos e painéis movimentados e exibidos de acordo com a necessidade de cada número - emoldura a mudança, deixando o palco clean para receber os efeitos da bela iluminação de Guilherme Bonfanti. O visual do show é leve e elegante como o canto adotado por Mariene em músicas como Retrato da vida (Dominguinhos e Djavan, 1998) - número que deixa a cantora a sós com o acordeom de Cícero Assis - e o samba-canção Só nos dois (Cartola, 1977), entoado pela cantora no toque luxuoso do bandolim de Hamilton de Holanda, convidado da estreia nacional de Colheita, show que debutou na casa Vivo Rio, no Rio de Janeiro (RJ), na noite de 22 de março de 2014. "Nasceu!!!", exultou a cantora no bis, dado com as músicas A pureza da flor (Arlindo Cruz, Jr. Dom e Babi, 2006), Conto de areia (Romildo Bastos e Toninho Nascimento, 1974), Coisinha do pai (Almir Guineto, Luiz Carlos da Vila e Jorge Aragão, 1979) - homenagem à madrinha artística Beth Carvalho, convidada do Samba da benção (Baden Powell e Vinicius de Moraes, 1966) - e Abre caminho (Roque Ferreira, Jota Velloso e Mariene de Castro, 2004). Para desbravar outras trilhas no caminho aberto no mercado a partir de sua contratação pela Universal Music, gravadora multinacional que sabe fazer girar a máquina da indústria do disco, a cantora também está caindo no samba à moda carioca. Me beija (Arlindo Neto, Marquinhos Nunes e Renato Moraes, 2014) exemplifica o sincretismo musical que une Rio e Bahia na rota da intérprete. Só que a identidade de Mariene - estrela radiante que já figura no primeiro time de cantoras da música brasileira - é tão forte que resiste. Quando as cortinas se abrem e a artista, ainda de costas para o público, canta o ponto de umbanda que introduz Oxossi (Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro, 2004), um facho de luz envolve o ambiente tanto no sentido literal como no figurado. A luminosidade de Mariene em cena é intensa. Ela tem a força que vem da raiz, como diz o título do samba antigo de Roque Ferreira que somente este ano ganhou registro em disco em dueto de Mariene com Maria Bethânia. A ausência de Bethânia no show em nada tira a força desse samba enraizado nas tradições afro-brasileiras. Aliás, todas as músicas do CD Colheita ganham força adicional no show - como explicitam as cores vivas da Aquarela da Amazônia (Toninho Geraes e Toninho Nascimento), samba que exalta o Norte do Brasil na forma de um samba-enredo. Para quem prefere ver Mariene com um pé no terreiro, a segunda metade do show é festa para olhos e ouvidos. Os percussionistas André Souza, Fábio Cunha, Iuri Passos, Marcelo Pinho e Reinaldo Boaventura fazem ressoar os tambores, preparando o clima para a volta de Mariene à cena com exuberante figurino vermelho, cor que no Candomblé simboliza Iansã, orixá saudado em Tirilê (Roque Ferreira e Dunga, 2014), samba sagazmente alocado no roteiro ao lado de A deusa dos orixás (Romildo Bastos e Toninho Nascimento, 1975), herança do tributo a Clara. Ser de luz própria, Mariene de Castro faz nesse número uma dança que eletriza a plateia. Visualmente, a cena orquestrada pelo diretor Elisio Lopes Junior atinge seu pico de beleza nesse bloco, sobretudo em Ponto de Nanã (Roque Ferreira, 2007), número que culmina com a citação de Cordeiro de Nanã (Os Tincoãs, 1973) e no qual a presença do bailarino Denys Silva é fundamental para a exposição da beleza negra da música afro-brasileira. Show que flui com naturalidade, Colheita tem seu único ponto fraco nos textos ditos em cena pela cantora em tom artificial. Embora bem estruturado, o roteiro poderia expandir mais o repertório de Mariene. Uma ou duas músicas inéditas na voz da artista valorizariam o show, apagando a sensação de que vários números são herdados do espetáculo anterior Tabaroinha (2012). No mais, Mariene de Castro segue rota extremamente feliz. Com um pé na Bahia e outro no Rio de Janeiro, a artista continua abrindo caminho, sem anular completamente a força que vem da raiz da mãe África.

5 comentários:

Mauro Ferreira disse...

Mariene de Castro continua na roda, eventualmente até com prato e faca, como no momento em que dá sua voz calorosa a um pot-pourri de tradicionais sambas da sua terra. Herança de shows anteriores da artista baiana, o número com sambas de roda figura no roteiro do atual espetáculo da cantora - Colheita, fruto do homônimo disco lançado em fevereiro de 2014 - como uma lembrança de que Mariene de Castro ainda continua sendo Mariene de Castro após se abrigar sob a luz de Clara Nunes (1942 - 1983) em tributo que ampliou seu público na mesma medida que lhe rendeu críticas dos que ouviram e viram no CD e DVD Um ser de luz (2013) mero cover da mineira guerreira. Contudo, Colheita expõe em cena o sincretismo musical semeado pelo quinto disco de Mariene, conciliando o canto de forte carga-brasileira da fase inicial da artista - que deu seus primeiros passos fonográficos há dez anos com a edição do CD Abre caminho (2004) - com as tonalidades mais suaves e românticas do álbum recém-editado. Os três figurinos deixam entrever sensualidade sutil na atual estampa da intérprete. O cenário colorido de Gringo Cardia - com panos e painéis movimentados e exibidos de acordo com a necessidade de cada número - emoldura a mudança, deixando o palco clean para receber os efeitos da bela iluminação de Guilherme Bonfanti. O visual do show é leve e elegante como o canto adotado por Mariene em músicas como Retrato da vida (Dominguinhos e Djavan, 1998) - número que deixa a cantora a sós com o acordeom de Cícero Assis - e o samba-canção Só nos dois (Cartola, 1977), entoado pela cantora no toque luxuoso do bandolim de Hamilton de Holanda, convidado da estreia nacional de Colheita, show que debutou na casa Vivo Rio, no Rio de Janeiro (RJ), na noite de 22 de março de 2014. "Nasceu!!!", exultou a cantora no bis, dado com as músicas A pureza da flor (Arlindo Cruz, Jr. Dom e Babi, 2006), Conto de areia (Romildo Bastos e Toninho Nascimento, 1974), Coisinha do pai (Almir Guineto, Luiz Carlos da Vila e Jorge Aragão, 1979) - homenagem à madrinha artística Beth Carvalho, convidada do Samba da benção (Baden Powell e Vinicius de Moraes, 1966) - e Abre caminho (Roque Ferreira, Jota Velloso e Mariene de Castro, 2004). Para desbravar outras trilhas no caminho aberto no mercado a partir de sua contratação pela Universal Music, gravadora multinacional que sabe fazer girar a máquina da indústria do disco, a cantora também está caindo no samba à moda carioca. Me beija (Arlindo Neto, Marquinhos Nunes e Renato Moraes, 2014) exemplifica o sincretismo musical que une Rio e Bahia na rota da intérprete. Só que a identidade de Mariene - estrela radiante que já figura no primeiro time de cantoras da música brasileira - é tão forte que resiste. Quando as cortinas se abrem e a artista, ainda de costas para o público, canta o ponto de umbanda que introduz Oxossi (Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro, 2004), um facho de luz envolve o ambiente tanto no sentido literal como no figurado.

Mauro Ferreira disse...

A luminosidade de Mariene em cena é intensa. Ela tem a força que vem da raiz, como diz o título do samba antigo de Roque Ferreira que somente este ano ganhou registro em disco em dueto de Mariene com Maria Bethânia. A ausência de Bethânia no show em nada tira a força desse samba enraizado nas tradições afro-brasileiras. Aliás, todas as músicas do CD Colheita ganham força adicional no show - como explicitam as cores vivas da Aquarela da Amazônia (Toninho Geraes e Toninho Nascimento), samba que exalta o Norte do Brasil na forma de um samba-enredo. Para quem prefere ver Mariene com um pé no terreiro, a segunda metade do show é festa para olhos e ouvidos. Os percussionistas André Souza, Fábio Cunha, Iuri Passos, Marcelo Pinho e Reinaldo Boaventura fazem ressoar os tambores, preparando o clima para a volta de Mariene à cena com exuberante figurino vermelho, cor que no Candomblé simboliza Iansã, orixá saudado em Tirilê (Roque Ferreira e Dunga, 2014), samba sagazmente alocado no roteiro ao lado de A deusa dos orixás (Romildo Bastos e Toninho Nascimento, 1975), herança do tributo a Clara. Ser de luz própria, Mariene de Castro faz nesse número uma dança que eletriza a plateia. Visualmente, a cena orquestrada pelo diretor Elisio Lopes Junior atinge seu pico de beleza nesse bloco, sobretudo em Ponto de Nanã (Roque Ferreira, 2007), número que culmina com a citação de Cordeiro de Nanã (Os Tincoãs, 1973) e no qual a presença do bailarino Denys Silva é fundamental para a exposição da beleza negra da música afro-brasileira. Show que flui com naturalidade, Colheita tem seu único ponto fraco nos textos ditos em cena pela cantora em tom artificial. Embora bem estruturado, o roteiro poderia expandir mais o repertório de Mariene. Uma ou duas músicas inéditas na voz da artista valorizariam o show, apagando a sensação de que vários números são herdados do espetáculo anterior Tabaroinha (2012). No mais, Mariene de Castro segue rota extremamente feliz. Com um pé na Bahia e outro no Rio de Janeiro, a artista continua abrindo caminho sem diluir a força que vem da raiz.

Le Penseur disse...

Ótima resenha, Mauro. Espero poder ter a oportunidade de assistir ao show. Adoro o trabalho de Mariene!

F disse...

Mauro, bom dia!

Parabéns pela resenha, concordo com vc quase 100%, acho que vc disse todos os pontos fortes do show, porém achei que falta um maestro pra costurar melhor e não deixar tanto espaço entre as canções. Achei o cenário do Gringo muito preguiçoso e óbvio, uma estrela desse porte (aposto que em breve estará entre as 10 melhores do Brasil) merecia mais cuidados, como por exemplo, o primeiro figurino que diferente dos 02 seguintes, são um acerto, ele engordou a moça e não valorizou o corpo da baiana, chegando até a incomodá-la em inumeras vezes por ela arrumado.
O show é perfeito, as músicas são lindas e ela dá um show de voz e carisma.

Vida longa a essa mulher batalhadora, um brinde ao talento de Mariene. "Tim-tim"

Carlos Eduardo disse...

Detestei o cenário e o figurino inicial. O resto é Mariene inteira, entregue, com seu ótimo repertório e sua banda competente.