Mauro Ferreira no G1

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domingo, 16 de março de 2014

Com elegante delicadeza, Lysia Condé se afina ao dar voz a Brasil antigo

Resenha de CD
Título: Lysia Condé
Artista: Lysia Condé
Gravadora: Edição independente da artista
Cotação: * * * 

Cantora mineira radicada em Natal (RN), Lysia Condé lança um primeiro álbum gravado em atemporal tempo de delicadeza. Lysia Condé, o disco, está embebido em leveza, transparente já na primeira das onze músicas, A lua girou, tema de domínio público que ganha sedutor registro nesse clima suave que favorece também a ambientação da buliçosa Corta-jaca (Chiquinha Gonzaga e Machado Careca), ouvida também em gravação exemplar. Mesmo aclimatado em algum lugar do passado, sem conexões com os dias de hoje, o disco se revela interessante pelas escolhas do repertório e pela elegância dos arranjos, calcados em mix delicado de violões, baixo e percussão ao qual é acrescido o acordeom de Zé Hilton em músicas como Ana Bandolim (Tico da Costa). Tais arranjos são assinados pelo violonista Sérgio Farias, diretor musical do CD e parceiro de Cristina Saraiva na faixa Primeiro olhar. A despeito de soar antigo, ou por isso mesmo, o CD Lysia Condé vai cativar ouvintes identificados com as tradições da música brasileira. Até porque há inegável beleza em músicas como A vida do rio (Simone Guimarães e Virgínia Amaral) e Enigma (Miltinho e Magro), gravada com a adesão de Miltinho (do grupo fluminense MPB-4) em arranjo que remete às modinhas imperiais com um toque de fado. Em tons suaves que favorecem seu canto ameno, Condé da voz afinada a Contrato de separação (Dominguinhos e Anastácia) - sem expressar toda a dor contida nos versos desta canção lançada pela soberana Nana Caymmi em 1979 - e faz desabrochar Flor amorosa (Catulo da Paixão Cearense e Joaquim Callado). Entoado em tom esmaecido, sem latinidade, o acalanto Duerme negrito (tema da tradição oral da Venezuela e Colômbia) soa meio deslocado em disco entranhado nas trilhas de um Brasil antigo, também evocado na poética Mais de um (Eduardo Gudin e Cacaso), música de 1981 que arremata o álbum com ternura. Com estilo e unidade, o disco propaga um lirismo à moda antiga, ecoando sons já raros em centros urbanos sem espaço e sem tempo para a delicadeza do canto de Lysia Condé.

5 comentários:

Mauro Ferreira disse...

Cantora mineira radicada em Natal (RN), Lysia Condé lança um primeiro álbum gravado em atemporal tempo de delicadeza. Lysia Condé, o disco, está embebido em leveza, transparente já na primeira das onze músicas, A lua girou, tema de domínio público que ganha sedutor registro nesse clima suave que favorece também a ambientação da buliçosa Corta-jaca (Chiquinha Gonzaga e Machado Careca), ouvida também em gravação exemplar. Mesmo aclimatado em algum lugar do passado, sem conexões com os dias de hoje, o disco se revela interessante pelas escolhas do repertório e pela elegância dos arranjos, calcados em mix delicado de violões, baixo e percussão ao qual é acrescido o acordeom de Zé Hilton em músicas como Ana Bandolim (Tico da Costa). Tais arranjos são assinados pelo violonista Sérgio Farias, diretor musical do CD e parceiro de Cristina Saraiva na faixa Primeiro olhar. A despeito de soar antigo, ou por isso mesmo, o CD Lysia Condé vai cativar ouvintes identificados com as tradições da música brasileira. Até porque há inegável beleza em músicas como A vida do rio (Simone Guimarães e Virgínia Amaral) e Enigma (Miltinho e Magro), gravada com a adesão de Miltinho (do grupo fluminense MPB-4) em arranjo que remete às modinhas imperiais com um toque de fado. Em tons suaves que favorecem seu canto ameno, Condé da voz afinada a Contrato de separação (Dominguinhos e Anastácia) - sem expressar toda a dor contida nos versos desta canção lançada pela soberana Nana Caymmi em 1979 - e faz desabrochar Flor amorosa (Catulo da Paixão Cearense e Joaquim Callado). Entoado em tom esmaecido, sem latinidade, o acalanto Duerme negrito (tema da tradição oral da Venezuela e Colômbia) soa meio deslocado em disco entranhado nas trilhas de um Brasil antigo, também evocado na poética Mais de um (Eduardo Gudin e Cacaso), música de 1981 que arremata o álbum com ternura. Com estilo e unidade, o disco propaga um lirismo à moda antiga, ecoando sons já raros em centros urbanos sem espaço e sem tempo para a delicadeza do canto de Lysia Condé.

Marcelo disse...

Lindo repertório!!!! Tempos em q o artista respeitava seu público , não se cantava dançando com bambolês e o termo indie não existia... Bons tempos de cantores de verdade e repertório de qualidade!!! Contrato de Separação foi lindamente gravada por Zizi tb mas a gravação de Nana é definitiva de tão linda!!!

lurian disse...

Voz afinada, suave e excelente repertório. Alma mineira se faz presente ai.

Elio Perez disse...

Adorei a resenha! Bastante fiel à proposta do trabalho. Para ouvir online... https://soundcloud.com/lysiaconde/sets/cd-lysia-cond-2014

Canto sonoro disse...

Uma mineira na esquina do Brasil.