Mauro Ferreira no G1

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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Zeca e Zélia se harmonizam com poesia em show que tira a alma do chão

Resenha de show
Título: Zélia Duncan & Zeca Baleiro
Artistas: Zeca Baleiro e Zélia Duncan (em foto de Mauro Ferreira)
Local: Teatro Castro Alves (Salvador, Bahia)
Data: 23 de janeiro de 2014
Cotação: * * * * 1/2

Na terra do axé, em que os pés se desprendem do solo na cadência carnavalizante da música afro-pop-baiana, Zeca Baleiro e Zélia Duncan apresentaram em primeira mão poético show criado para "tirar a alma do chão", como conceituou espirituosamente a cantora e compositora fluminense ao se dirigir pela primeira vez ao público que lotou a sala principal do Teatro Castro Alves, o palco mais nobre de Salvador (BA), na noite de 23 de janeiro de 2014, para assistir à estreia nacional de Zélia Duncan & Zeca Baleiro. Alocado na abertura do roteiro, Pássaro (Luiz Carlos Sá & Guttenberg Guarabyra, 1976) - canção da dupla carioca Sá & Guarabyra também conhecida no registro original do grupo carioca O Terço -  já faz espíritos mais sensíveis voarem alto na pegada dos tocadores de violão. As vozes graves de Zeca e Zélia se harmonizam de forma plena, valorizando as interpretações em uníssono de músicas como Se um dia me quiseres (2009) - canção que inaugurou a parceria dos dois compositores, expandida no show com três inéditas - e Tudo sobre você (Zélia Duncan e John Ulhoa, 2009), joia de delicada arquitetura pop. A harmonia vocal dos cantores irmana repertório que derrama poesia brejeira em Curare (Bororó, 1940) - samba que é todo Bahia em um show estreado em Salvador (BA) - e que adquire graça por fazer um artista visitar, nos solos, o cancioneiro do outro. Se Zélia dá voz a Quase nada (Zeca Baleiro e Alice Ruiz, 2000) e a Tevê (Zeca Baleiro e Kleber Albuquerque, 2008), Baleiro rebobina Não vá ainda (Christiaan Oyens e Zélia Duncan, 1994) - pop folk do CD que alavancou há 20 anos a carreira de Zélia - e deita e rola Nos lençóis desse reggae (Christiaan Oyens e Zélia Duncan, 1994) com direito à citação de Money in my pocket (Denis Brown, 1972), reggae popular no Maranhão, a Jamaica brasileira. Juntos, os cantores repassam com ternura os recados dados por Erasmo Carlos em Grilos (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1972) e por Accyoli Neto (1950 - 2000) em A natureza das coisas, xote popularizado nos anos 2000, após a morte do compositor goiano. Com liberdade estética, Zeca e Zélia valorizam roteiro que vai da poesia indie de Coração aprisionado (Luli & Lucina, 1979) e O amor é velho-menina (Tom Zé, 1992) aos versos simples e diretos de Mulheres (Toninho Geraes, 1995), samba que injetou fôlego comercial na carreira fonográfica de Martinho da Vila nos anos 1990 e que, solado por Zélia, ganha certa ironia no show por ser cantado como um recado a Baleiro. Há poesia também nos versos oníricos de Fox baiano, escritos por Luiz Galvão - letrista dos sucessos do grupo Novos Baianos - e musicados por Zélia e Zeca. "O mundo inteiro cabe na alma", poetizam os compositores em outra parceira inédita, Museu íntimo, samba quase canção alocado no roteiro ao lado de outra (boa) novidade, Escancarado, samba quase rock. E assim, com o casamento perfeito de suas vozes graves e um repertório de alto nível, Zeca Baleiro e Zélia Duncan se afinam e tiram as almas do chão em show que merece percorrer o Brasil e ganhar registro em disco. As almas voam muito alto.

11 comentários:

Mauro Ferreira disse...

Na terra do axé, em que os pés se desprendem do solo na cadência carnavalizante da música afro-pop-baiana, Zeca Baleiro e Zélia Duncan apresentaram em primeira mão poético show criado para "tirar a alma do chão", como conceituou espirituosamente a cantora e compositora fluminense ao se dirigir pela primeira vez ao público que lotou a sala principal do Teatro Castro Alves, o palco mais nobre de Salvador (BA), na noite de 23 de janeiro de 2014, para assistir à estreia nacional de Zélia Duncan & Zeca Baleiro. Alocado na abertura do roteiro, Pássaro (Luiz Carlos Sá & Guttenberg Guarabyra, 1976) - canção da dupla carioca Sá & Guarabyra também conhecida no registro original do grupo carioca O Terço - já faz espíritos mais sensíveis voarem alto na pegada dos tocadores de violão. As vozes graves de Zeca e Zélia se harmonizam de forma plena, valorizando as interpretações em uníssono de músicas como Se um dia me quiseres (2009) - canção que inaugurou a parceria dos dois compositores, expandida no show com três inéditas - e Tudo sobre você (Zélia Duncan e John Ulhoa, 2009), joia de delicada arquitetura pop. A harmonia vocal dos cantores irmana repertório que derrama poesia brejeira em Curare (Bororó, 1940) - samba que é todo Bahia em show estreado em Salvador (BA) - e que adquire graça por fazer um artista visitar, nos números individuais, o cancioneiro do outro. Se Zélia dá voz a Quase nada (Zeca Baleiro, 2000) e a Tevê (Zeca Baleiro, 2008), Baleiro rebobina Não vá ainda (Christiaan Oyens e Zélia Duncan, 1994) - pérola pop folk do álbum que alavancou há 20 anos a carreira fonográfica de Zélia - e deita e rola Nos lençóis desse reggae (Christiaan Oyens e Zélia Duncan, 1994) com direito à citação de Money in my pocket (Denis Brown, 1972), reggae popular no Maranhão, a Jamaica brasileira. Juntos, os cantores repassam com ternura os recados dados por Erasmo Carlos em Grilos (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1972) e por Accyoli Neto (1950 - 2000) em A natureza das coisas, xote popularizado nos anos 2000, após a morte do compositor goiano. Com liberdade estética, Zeca e Zélia valorizam roteiro que vai da poesia indie de Coração aprisionado (Luli & Lucina, 1979) e O amor é velho-menina (Tom Zé, 1992) aos versos simples e diretos de Mulheres (Toninho Geraes, 1995), samba que injetou fôlego comercial na carreira fonográfica de Martinho da Vila nos anos 1990 e que, solado por Zélia, ganha certa ironia no show por ser cantado como um recado a Baleiro. Há poesia também nos versos de Fox baiano, escritos por Luiz Galvão - letrista dos principais sucessos do grupo Novos Baianos - e musicados por Zélia e Zeca. "O mundo inteiro cabe na alma", poetizam os compositores em outra parceira inédita, Museu íntimo, samba quase canção alocado no roteiro ao lado de outra (boa) novidade, Escancarado, samba quase rock. E assim, com o casamento perfeito de suas vozes graves e um repertório de alto nível, Zeca Baleiro e Zélia Duncan se afinam e tiram as almas do chão em show que merece percorrer o Brasil e ganhar registro em disco. As almas voam muito alto.

Leonardo Cidreira disse...

"...show que merece percorrer o Brasil e ganhar registro em disco." Oremos!!!

Unknown disse...

Me deu água na boca. Que venham pro Sul do país. Dois talentos natos da música brasileira.

Bel disse...

Que beleza de repertório! nao se espera nada menos mesmo de Zelia & Zeca! Torcendo para que o show viaje para outras cidades!

Bruno Cavalcanti disse...

Mauro, reli o texto para ver se eu tinha deixado passar, mas não achei nenhuma citação do tipo - em nenhum dos dois textos.
Houve banda ou eram apenas os dois em cena?

E espero que realmente este se torne mais um projeto entre tantos que a Zélia vem apresentando e nos presenteando, e com Zeca então, como dizia Marina Lima: vindo coisa boa pra mim (pra todos nós).

Lunatico disse...

Eu estava lá e endosso cada vírgula do texto do Mauro. Show impressionante ontem !

Rosana Pauluci disse...

Queremos tirar "a alma do chão". Que esse encontro mais que especial percorra o Brasil. A gente quer poesia e música maravilhosa

Mauro Ferreira disse...

Bruno, de fato, esqueci de mencionar isso (é sempre mais difícil escrever uma resenha fora de casa, sem meu pc), mas são somente os dois em cena. Abs, MauroF

Isaac Oliveira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Isaac Oliveira disse...



NÃO SOMENTE DE "TIRAR OS PÉS DO CHÃO" VIVE A BAHIA.
TODOS SABEM!TODOS SABEM DISSO!

Fernando Lima disse...

O show foi realmente lindo!! Confesso que comprei ingresso somente porque sou louco por Zélia e Zeca, mas achando que seria um show de voz e violão e grandes sucessos. Contudo, presenciei a um dos mais belos e harmônicos encontros da música brasileira. O show foi surpreendente do início ao fim!! Nota 1000 para Zélia e Zeca e a descontração e harmonia deles no palco!!